sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O SANGUE DA TERRA (Romance de ALMA WELT)


A invocação mágica de Alma Welt- óleo s/tela de Guilherme de Faria, 150x150cm. Coleção Fernando Carrieri, Salto, SP, Brasil.





Esboço para o rótulo do vinho "Ara dos Pampas" cuja safra de 1962 foi descoberta por Alma e mencionada no romance A Herança. O desenho de Guilherme de Faria segue as especEsboço de Guilherme de Faria (com a primeira côr) para o rótulo do vinho "Ara dos Pampas", segundo especificações da própria Alma.




Prefácio ao romance O Sangue da Terra, de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)


Primeiramente devo dizer que saúdo, entusiasmado, este terceiro volume do romance-trilogia "A Herança" da poetisa gaúcha Alma Welt.
“O Sangue da terra”, com este título sugestivo, romântico, que ecoa intencionalmente as velhas sagas rurais, a autora lírica que ao escrever prosa, consegue ser tão direta e quase coloquial como em sua poesia de fundo simbolista e carregada da poderosa carga de libido que lhe é peculiar, isto é, cheia de um encantador erotismo sem malícia.
Por quê “sem malícia”? Porque Alma Welt considera com razão que a malícia é filha da hipocrisia e da repressão sexual, atributos espúrios que ela não contém em sua alma clara, límpida, malgrado uma pequena e inquietante zona de mistério, que lhe confere um sabor "exquis".
Alma se expõe de uma maneira notável, corajosa em uma mulher. Ela “confessa” tudo. Com explicitude ao mesmo tempo estética, isto é, ela consegue nada esconder, e ainda assim permanecer encantadora, hipnótica. Talvez a beleza despojada de sua linguagem musical seja a responsável por esse fenômeno. Ela nunca vulgariza o sexo, e quando surge uma linguagem mais chula notamos que está praticamente entre aspas, ou seja, na boca de seus inimigos e opressores. Sim, porque esta bela criatura é vitimada ao longo de sua narrativa por adversários invejosos ou cobiçosos de sua beleza tentadora.
Voltaire, o grande filósofo libertário da França, teria dito: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. No caso de Alma, seus inimigos, hipócritas a princípio, tiram suas máscaras, exasperados pela provocação inconsciente que a beleza e sensualidade desta mulher pura e "candide", embora inteligente, exerce sobre as pessoas que convivem com ela. Nunca li antes páginas eróticas mais legítimas, belas e originais do que as deste livro. A cena da “fecundação de Aline”, que adquire um caráter ritual, é um dos exemplos mais notáveis dessa capacidade da autora. Alma Welt ainda consegue ser original sem artifícios de linguagem na descrição de cenas de sexo explícito.
É preciso que se diga que se estou dando ênfase a essa conotação no livro de Alma bem como em quase todas as suas obras, é porque compartilho de sua “profissão de fé”, exposta na sua “declaração definitiva”, aos leitores, na página 85: “Declaro solenemente que não acredito na dicotomia de corpo e espírito...” E mais adiante: “Sexo é espírito...”
Finalmente, cabe ressaltar aqui, a construção primorosa, redonda, de seus romances, dos quais este é a continuação linear do primeiro, “A Herança”.
Naturalmente, seria preferível o leitor ter lido o primeiro romance, já que este segundo corresponde a uma terceira parte de uma saga em forma de trilogia, em volumes assim intitulados:
1. A Herança
2. A Ara dos Pampas
3. O Sangue da Terra

Estaria ao final deste último volume encerrada a saga dos Welt, no seu casarão de estância gaúcha em meio a um jardim florido e ao vinhedo dos avós? Esperemos que não. Alma Welt continuará para sempre cavalgando pelas pradarias ou passeando no meio das flores de seu jardim materno ou no seu pomar sacrificando aos deuses e aos “numes dos pampas” diante de sua macieira querida: “ a ara dos pampas”, ou nadando no riacho, nua, entre suas amigas e amantes Laís e Aline, e com Rôdo, seu irmão maravilhosamente incestuoso. Sem culpa, vital e alegre para sempre, esta Anima viva, que apareceu em nossa literatura para povoar nossa imaginação com signos renovados de beleza simples e lírica.
Alma, leve-me com você no seu próximo romance!


GUILHERME DE FARIA

São Paulo, 13 de Julho de 2005



Alma Welt



O SANGUE DA TERRA
Romance (Segundo Tomo da Trilogia A HERANÇA)



Capítulo primeiro

Laís

Recebo Rôdo e sua namorada Laís para a temporada de inverno em nossa estância. Estou feliz, pois a moça conquistou minha simpatia, a partir dos episódios ocorridos aqui, quando de sua primeira estadia, narrados no meu romance A Herança.
Assim que chegaram, descendo do novo carrinho esporte de meu irmão, reparando na perna perfeita da guria, e em seu pé maravilhoso numa sandália fina, que evidenciava o modelo grego, isto é, o segundo dedo mais comprido que o primeiro, tive uma espécie de pressentimento profundo, de que eu teria aquela moça em meus braços, pensamento, na verdade, um pouco perturbador, pois não podia saber ainda como Rôdo reagiria a uma eventualidade assim. Como um indício dessa possibilidade, Laís abraçou-me apertado, e profundo, demoradamente, embora isso pudesse se dever a um reconhecimento, ou cumprimento pela minha luta para salvar a estância, luta essa que ela acompanhara de perto, na temporada anterior. De qualquer forma, fiquei comovida e intrigada ao mesmo tempo, com o seu abraço prolongado. Rôdo retirava as malas do bagageiro, e não reparou, em como nos olhávamos longamente nos olhos, abraçadas ainda. Eu poderia amar Laís, eu senti isso naquele momento. Uma vez eu provara de seus lábios, rapidamente, eu contei isso no meu romance, e por isso quase levara uma surra de minha Aline, embora de uma maneira ambígua, brincalhona. Mas agora Aline estava em São Paulo, para minha preocupação e ansiedade, pois temia que ela se encontrasse com o antigo namorado, aquele Pedro, que me atacara tão brutalmente, acontecimento que narrei no meu romance e que Aline ainda desconhece, pois meu livro ainda permanece inédito, até este momento, embora nas mãos de um editor que o está avaliando. O original que dei à Aline para ler está, naturalmente expurgado, retirei essas páginas tão chocantes e comprometedoras. Ela parece, portanto não saber de nada, a não ser no seu inconsciente profundo. Por isso mesmo temo uma reaproximação dos ex-namorados. Eu não pude alertar Aline quanto à natureza brutal de Pedro, para não despertar suas suspeitas. Por outro lado, eu sei, até quando (vocês leitores devem estar me cobrando), vou esconder isso de minha amada? É um dilema que ainda não consegui resolver em meu coração.
Por ora, vejo-me tentada a aproximar-me mais de Laís, pois a fidelidade carnal, não faz parte do meu caráter, e a própria Aline sabe disso, embora sofra um pouco por conta dessa peculiaridade da minha natureza de poeta. Ela sabe que eu poderia amar o mundo todo, carnal e espiritualmente, se fosse possível, e que coleciono, por assim dizer, conquistas do meu leito, que quero que atinjam a marca do milheiro. “Casanova de saias”, me chamaram um dia, pois bem, o mundo verá... Meu coração tem fôlego para amar assim cada uma delas, dessas conquistas, sem nenhum arrependimento, a não ser por um único caso, o do jovem padre suicida, de minha adolescência, cuja estória narrei num dos Contos Secretos*, também inéditos, até esse momento.
Agora, aqui, recebendo Aline e Rôdo para nova temporada em nossa estância, me dou conta da riqueza de minha vida, e do momento privilegiado, que vivo, antes do ansiado retorno de minha Aline. Vou conquistar Laís, isto é certo, embora deva reconhecer que a moça é que pode estar fazendo isso, pois parece ser tremendamente experiente, enquanto, eu apesar de todas as minhas conquistas não passo de uma “guria”, um tanto ingênua no fundo, como o meu como o meu prefaciador detectou logo nos nossos primeiros encontros e denunciou nos seu prefácio aos “Contos da Alma”. Algo que ele chamou de “candura”, e que, no fundo, me lisonjeia.
Depois de instalada no quarto de Rôdo, Laís voltou à sala para um aperitivo e bate papo antes do delicioso almoço preparado com tanto carinho por nossa querida Matilde para o seu amado Rôdo, o seu predileto, o que ela praticamente criou. O prazer desses momentos de reencontro e confraternização, é o melhor da vida, e me remetem aos tempos do Vati, aqui, presidindo tudo, como um rei benevolente em sua corte, cercado de seus súditos que o veneravam. Agora não temos mais nenhuma liderança, e eu não poderia ocupar esse lugar, devido à minha natureza profundamente solitária, embora, ou por isso mesmo, reverente e apaixonada. Há uma contradição, talvez, em minha vida, tão cheia de conquistas. Mas é a mesma contradição dos grandes apaixonados, capazes de prosternar-se diante de outros seres humanos, e de uma subserviência que tem um fundo de carência, na verdade. Somos insaciáveis, um poço sem fundo, famintos de amor e de prazer, pois somos os maiores solitários, pela nossa mesma consciência subjacente, sempre presente, da trágica condição básica do ser humano: a solidão.
À mesa, durante o maravilhoso repasto de Matilde, o vinho correu, eu me excedi um pouquinho, aparentemente de tanta felicidade pela volta de Rôdo, neste momento auspicioso de nossa estância e de nossa vida familiar. Patrícia, Pedrinho, e os gêmeos estão com Lúcia em seu sítio em Alegrete, e voltarão dentro de quinze dias, quando todos estaremos juntos novamente, e com Aline ao meu lado, minha companheira amada, a quem preciso contar tudo o que falta contar, para sermos completamente felizes. A sombra do estupro que sofri do seu ex-namorado, pesa entre nós, na minha memória e no inconsciente de Aline, que assim o captou. Tomo neste momento a decisão de tudo revelar a ela, imediatamente ao seu retorno. Por ora, trato de aproveitar estes momentos deliciosos com Rôdo e Laís.
Desta vez, após o almoço, é Laís quem me leva, meio carregada para o quarto, no meu novo pilequinho. Quando estou muito feliz ou eufórica tendo a me exceder no vinho, mas isso acontece raramente em minha vida, e serve, eu percebi, para liberar uma última parcela bloqueada dos meus impulsos amorosos por uma pessoa presente entre os convivas. Agora trata-se de Laís, e Rôdo que me conhece tão bem, ostenta um sorriso benevolente, bonachão, nada irônico, eu sei, pois meu irmão está longe de sentir ciúme de Laís comigo, pois me considera uma extensão dele mesmo, e nossa cumplicidade é, assim, abrangente, como vocês irão testemunhar mais adiante.
Apoiada em Laís, com o braço em sua cintura, apalpei-a um pouco a caminho do quarto, e ela ria, me amparando até à cama onde me deitou, enquanto eu a puxava sobre mim, para seus lábios tocarem os meus. Laís correspondeu ao meu beijo, relativamente, dizendo: “Alminha, minha querida , quero beijar muito esses lábios, mas quando eles não estiverem mais assim, com tanto gosto de vinho. Descanse agora, Alma, que depois nós teremos a nossa oportunidade, que espero tanto quanto tu esperas. Agora durma, meu amorzinho, que Rôdo me espera para a sobremesa.” Lancei-lhe um beijo insinuado com um pequeno movimento dos lábios, com os olhos já semi-cerrados... e adormeci.
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Acordo no fim da tarde, e vou banhar-me, no box do meu banheiro da suíte, e qual a minha surpresa, quando através da porta de vidro de correr, meio fosca, e no meio de todo aquele vapor, diviso alguém se aproximando até abri-la, e colocar a sua cabeça dentro do box, sorridente. É Rodo, que me saúda, dizendo: “Oi, irmãzinha, curou o pilequinho? Trouxe-te um presente, uma companhia para o teu banho. Veja quem está aqui para compartilhar essa ducha e esse vapor todo, contigo ( puxou Laís já nua de trás de si) e empurrou-a com delicadeza para dentro do box, linda, de olhos brilhantes sorrindo, meio envergonhada). Eu a acolhi com imensa alegria, colocando-a sob o jorro da água quente, como a uma menininha que passava o mas mãos no rosto, sem fôlego, afastando os cabelos e água dos olhos, bufando, meio sem fôlego. Beijei-a imediatamente ali, nossos lábios muito molhados, sob o olhar deliciado de Rôdo, enternecido, pois percebi que essa cena remontava sua memória à nossa infância, quando todos os irmãos ( exceto Solange, que se recusava) éramos postos pelo Vati, para tomarmos banho juntos, para desgosto da Mutti. Rôdo sempre amara esses momentos e se esmerava em ensaboar-me, para ciúme de Lúcia, que era também bem bonitinha. É curioso lembrar que Rôdo manipulava minha “chantinha” para lavá-la, com absoluta anuência do Vati, o supremo liberal, o grande experimentador pedagógico, que escandalizava minha mãe, obscurantista e tacanha. Depois de moços, sempre que temos oportunidade tomamos banho juntos, eu e Rôdo, principalmente no açude da estância, nus, quando acreditamos que não há ninguém nos vendo, o que na verdade nunca é seguro, haja visto as palavras do senhor Galdiano no seu depoimento em meu processo.
Ali, naquele momento eu quis a plenitude da ternura e do prazer e pedimos ao Rôdo que se despisse e entrasse no banho conosco, mas ele, surpreendentemente, disse que tinha um encontro marcado com os peões da estância, e desejou-nos “um feliz banho”, dizendo para aguardá-lo da próxima vez. Deixou-nos a sós naquele banho maravilhoso, que sentiria apenas a sua falta. Tratei de esmerar-me na técnica das carícias com sabonete, sentindo todas as reentrâncias daquele lindo corpo de mulher, tão belo quanto o meu, mas diferente, moreno, de pelos negros sobre a sua maravilhosa vulva muito bem moldada, como uma concha. Fi-la inclinar-se para frente, para abrindo suas nádegas, examinar o seu ânus, emoldurado belamente por pêlos negros, mas sedosos, e lavei-o cuidadosamente, até um pouco além da entrada do anel saliente. Depois provei-o um pouco com a língua, que enfiei alguns centímetros. Laís contorcia-se sob a ducha suspirando e dando gritinhos. De repente virou-se e agarrando-me a cabeça colou seus lábios nos meus com certa sofreguidão, enfiando sua língua na minha boca e lambendo minhas gengivas. Então, com suas mãos ainda me segurando, afastou um pouco seu rosto, e com os lábios abertos, sem ar, ainda muito próximos dos meus, balbuciou, antes de suas palavras tornarem-se audíveis sob o rumor da ducha:
—Alma, Alma, minha querida, quero-te, quero-te muito, vamos... sair, vamos sair do banho, vamos nos enxugar, vamos para o quarto, para o teu leito, quero comer-te de beijos, quero-te todinha, quero conhecer cada pedacinho do teu corpo maravilhoso. Alma, eu te amo, e Rôdo sabe e adora isso. Ele me contou tudo. Sobre a relação de vocês, e tudo mais. Como ele te ama, Alma, como ele te adora, a ponto de primeiramente fazer-me aceitar isso, e depois aos poucos conseguir fazer-me amá-la e desejá-la também, quando a conheci, e me encantei com a tua beleza e tua pureza, Alm! Sim, porque és pura, com toda a tua experiência e sabedoria não perdeste a tua candura, o mais encantador em ti. Venha! Venha!
Comovida e lisonjeada com suas palavras, eu me deixei levar e enxugar como uma menininha, por ela, que secava com delicadeza minhas reentrâncias, e entre minhas nádegas, preparando-me para si. Eu estava encantada e emocionada, antevendo momentos de êxtase que eu só sentira até então, com minha Aline.
Levada, literalmente, para o quarto, por Laís, que me deitou suavemente sobre a cama, eu me sentia desfalecer de emoção e de tanto prazer antecipado, que não foi decepcionado, quando ela levantou minhas pernas pondo-as sobre seus ombros, em posição ginecológica e mergulhou lentamente...

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Tenho me esforçado por dirigir os trabalhos da vinha, para que a produção do nosso vinho não cesse, mas confesso que tanto eu quanto Rôdo não somos bons estancieiros, nem administradores. O próprio Vati não o era, e deu no que deu. Precisamos conseguir um bom administrador que entenda da plantação e da produção de vinho. Mas, onde encontrá-lo, e como confiar num estranho? Tenho conversado sobre isso com Rôdo, que também está perdido, quanto a esse assunto. Ele diz que encontrará um, se se puser a andar por Alegrete ou Santana do Livramento, ou mesmo indo até Porto Alegre e passando um tempo por lá. Mas tenho receio dessas temporadas de Rôdo, pela sua atração pelo jogo, embora no seu caso não seja vício, e ele não seja o tipo que fica endividado, nem nunca tenha incomodado a família com isso. Na verdade, meu irmão dentro de um cassino parece estar no seu elemento, e numa mesa de pôquer, parece um jovem gangster de cinema, e não posso deixar de admirá-lo, eu que já o vi em ação. Mas a verdade é que embora Rôdo seja corajoso, e blefador nato, essa atividade e esse ambiente são sempre um tanto perigosos, e temo no mínimo pela inveja que a sorte e o aplomb do meu irmão causa em outros homens, bem como a atração em um certo tipo de mulheres perigosas, que são como aquelas rêmoras que grudam na barriga dos tubarões incansáveis, peregrinos de sua própria predação.
A verdade é que nenhum de nós quatro herdou a vocação para agricultura, de nosso avô, e estamos de pé, ainda, apenas pelas “possibilidades extensivas” , como dizia Spengler, na sua “Decadência do Ocidente”. Será, então que a nossa própria decadência, e da nossa estância, é fatal, e já começou? Ai, não! Sempre haverá a solução de transformar tudo isto num atraente hotel- fazenda, embora o problema de um a boa administração continue de pé. Chego a pensar que a minha natureza de artista, e a de Rôdo, de jogador (embora ele tenha muito de artista também ) já são sintomas dessa decadência, pois nós artistas temos mesmo a vertigem da dissipação, até pela consciência maior que temos da transitoriedade da vida, e sua tragédia intrínseca, que nos faz confiar no sonho e na criação de mundos puramente espirituais ou imaginários, que materializamos na tela e no papel, aos olhos do mundo.

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Laís está radiante depois de nossa tarde de amor, e quer repeti-la logo, eu percebo. Ela contou tudo ao Rôdo, que afinal, foi quem propiciou esse nosso encontro de prazer, cujo único perigo é transformar a atração em amor mesmo, e sua conseqüente nova dependência. Mas não queremos isso. Espero a minha Aline esforçando-me por não transformar a minha saudade e carência em uma nova paixão substitutiva. Ai! Aline, volta, volta logo, ou não sei o que será de mim, nem de Laís e Rôdo. Mas será que tu, aí em São Paulo não me estás traindo com teu ex, aquele bruto? Ah! Se soubesses que foi ele que me deixou no estado que tu testemunhaste... Esse homem pode também ferir-te! Ai! Não posso pensar nisso, que o coração se me aperta de angústia!
Corro ao telefone e ligo para Aline em São Paulo. Tive sorte de encontrá-la na casa de sua mãe, no telefone que me deixou. Mas essa senhora, uma italiana meio bronca, que atendeu primeiro, foi um tanto ríspida e grossa comigo:
— Alô, sim, aqui é a mãe de Aline, sei quem é você, e olhe, francamente acho melhor que a senhora fique longe da minha filha. Ela deveria viver aqui, comigo. Porque a senhora “arrastou ela” para tão longe de mim, sua mãe? Além disso, porquê ela brigou com o namorado? A senhora é responsável por isso? Ela precisa é casar, ter filhos, dar-me netos, não acho uma boa essa relação de vocês, vocês não se desgrudam! Espere, não, Aline deixe-me falar com ela, ela precisa...
—Alô Alma, Sou eu, não, não, esqueça o que minha mãe disse. Desculpe-me fazer você passar por isso. Eu não queria que ela atendesse. Alma, eu te amo! É isso mesmo, mãe, eu amo a Alma, e estou casada com ela! Larga, larga, mãe... Alma, desculpe-me minha mãe está louca, e.... ai !
Ouvia-se uma enorme confusão, gritos e discussão do lado de lá, e eu permaneci estarrecida, com o fone no ouvido até cair a linha. Então caí num imenso pranto, logo consolada por Laís, que abrindo a porta do meu quarto ao ouvir o meu choro, entrou e veio me abraçar. Agarrei-me a ela, soluçando, enquanto ela, também com lágrimas nos olhos, me fazia deitar na cama onde eu estava sentada, ao telefone, e cobriu-me com seu corpo em toda extensão e começaram os beijinhos, primeiro nos olhos e nas faces molhadas, e logo na boca apaixonados, quentes, enquanto ela dizia baixinho:
—Alminha, minha querida, o que é isso, não chora, não chora... Eu vou consolar-te, enquanto Aline não vem. Vem meu amor dá-me teus lábios, mulher linda, eu posso te amar, assim, assim...
A imensa ternura, surpreendente, de Laís, que eu descobrira, realmente me consolou, naquele momento, e deixei-a beijar-me inteira e despir-me por ela, que me possuiu com um ardor crescente, com os lábios e com os dedos, denunciando o crescimento de uma paixão, que eu deveria temer, como um elemento complicador, quando Aline voltasse. Se ela voltasse.

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Peço ao Galdério que sele dois cavalos, meus preferidos, pois convidei Laís a cavalgar comigo pela pradaria. O interessante é que essa iniciativa produziu em mim uma espécie de sentimento de traição, de infidelidade, em relação à minha Aline, que a relação sexual apaixonada de ontem não despertara. Porque será que essas cavalgadas devem ser exclusivas da minha amada, enquanto distribuo meu corpo com relativa facilidade? A resposta para essa questão talvez remonte às raízes da minha sexualidade, ao flagrante de minha mãe, no meu pomar, que fez-me desde então afrontar o mundo da repressão e mesmo da simples exclusividade, como um anjo rebelde, caído. Quero dar-me a todos os que me amarem do jeito certo, isto é, com reverência pela minha pureza intrínseca, indestrutível, imortal. Será isso o orgulho? Mas um orgulho assim, é, segundo a definição clássica, o próprio Lúcifer, enquanto eu, olhem para mim, poderia ser satânica? Sou do bem! Sou inocente, sou um cordeiro da natureza, e por isso Deus me fez tão bela. Se ele quisesse me punir teria retirado a beleza que me deu de nascença, e que me faz tão desejada nesta vida por tantas pessoas, homens e mulheres!
Laís aparece em traje de montaria, com culotes e botas lindíssimas. Como é bela e elegante esta guria. Ao contrário de Aline que não tira os seus jeans e camisetas, e raramente usa uma saia indiana, fina que lhe dei e na qual fica irresistível, a namorada de Rôdo é uma pequena lady, uma mulher de luxo, cosmopolita e sensual de uma maneira clássica, diferente da sensualidade moleca de Aline. Mas isso não quer dizer que estou balançada, não me interpretem mal. O que existe entre mim e Aline é consolidado, o meu amor por ela é total, e ela me parece insuperável em suas qualidades e encanto. Apenas... não posso deixar de olhar uma beleza assim, como a de Laís, que não me pertence, essa é que a verdade! Sinto como se ela mesma e meu irmão, por pura generosidade, a estão emprestando a mim, por incrível que pareça, para consolar-me pela ausência temporária de Aline. Laís comporta-se comigo como se dissesse:
“Alma, não chores por Aline. Ela voltará, é certo. Mas enquanto ela estiver longe, vou cobrir-te de carinho, como teu irmão me pediu, o que corrobora o meu próprio desejo. Vou encher-te de beijos e dar-me toda, já que tanto amas a beleza feminina, embora poucas cheguem aos teus pés.”


Sei que tudo isso parece pretensioso e até delirante, mas tento ser objetiva, e vocês meus leitores, que já me conhecem, sabem da minha tendência inata a viver numa permanente dimensão poética, o que nem mesmo a violência e o estupro conseguem tirar de mim, de minha vida de poeta predestinada. Não fosse assim eu não seria artista, não seria a poeta que sou, herdeira do “idealismo alemão” dos meus ancestrais. O Vati me criou assim, para isso, e uma vez, ainda mal saída da adolescência me disse algo que nunca antes revelei a ninguém, nem sequer à Aline:
“Alma, filha querida, quero que tu vivas a tua vida em plenitude de carne e espírito. Estás, como se diz, “instrumentalizada” para isso, pelo que te dei, pelo que te ensinei. Quero que fruas a beleza do teu corpo, como do teu espírito; que te dês em plenitude de desejo e prazer aos eleitos do teu coração e que eles sejam muitos! Pois a verdadeira vida é a vida plena da carne saciada, para que o espírito seja livre, sem as peias da carne carente, da repressão dos tolos e dos fracos. Seja tu uma bacante de ti mesma, e faça do teu próprio espírito o Dioniso interno, selvagem em sua liberdade extrema. Ama e sê amada por muitos, por todos se possível, e cobiçada como um tesouro até pelos teus inimigos. Vai, Alma, pela vida como quem dança e canta, como o vento, como o pampeiro!”
Montadas, Laís e eu, disparamos em direção à porteira, onde já nos aguarda Lazinho, nosso “negrinho do pastoreio”, para abrir-nos a passagem, sem nos determos, num galope contínuo em direção ao horizonte da pradaria infinita. Como amo estas cavalgadas! Estar assim com os cabelos ao vento, no balanço harmônica que descobri ainda criança, sobre a sela e até em pelo, no lombo de um pampeiro de longa crina, acompanhada como agora, por uma bela criatura que me segue destemidamente, é uma dádiva do meu Pampa, e serve sempre como um intermezzo na grande opereta que sinto ser o meu destino. Uma Ópera Gaúcha, se isso houvesse, pois a consciência da beleza destes momentos, e de toda a minha vida, me faz chorar de comoção e mesmo de gratidão, por meus pais, o de cima e o Werner, o cirurgião artista que me criou, assim, panteísta, povoada pelos numes do Pampa, pelos deuses do Olimpo, e pelos do Walhalla, ao mesmo tempo. Como não ter gratidão pela dádiva de tanta força, de tanto amor... de tantos amores? Existem hipócritas, eu sei, que compartimentam e separam, amor de paixão, carne de espírito, amor de amores. Mas eu, levo tudo dentro de mim, sem dicotomias, ou melhor, em unidade atemporal. Meus inúmeros amores são o meu Amor! Meu desejo carnal é manifestação do meu espírito reconciliado com a carne, a bela carne que me foi dada, êxtase e delícia para os olhos dos humanos e até dos animais que parecem me amar e ser atraídos por mim, sempre senti assim. Nunca um cavalo me derrubou, nunca um cão me mordeu: eles vêm lamber as minhas mãos e meu rosto... e eu os amo. Como poeta expando meu mundo aos animais e às plantas, às ervas e às grandes árvores do meu pomar e as da pradaria, imponentes, que compõem o meu cenário ideal, que quero dividir com os que amo, vocês meus leitores e agora esta ninfa morena e cosmopolita, que me acompanham nesta exata galopada. Só pararemos quando ela, exausta pedir, gritando: “Pára , Alma, e retira-me daqui, para os teus braços, faz comigo como fazes com tua Aline! Eu te cairei por cima, quero beijar-te, toma-me, amazona loira, ou me atirarei desta sela e terás de carregar-me nos teus braços!”
Paramos afinal, e poucas destas palavras imaginárias não se encontravam nos olhos negros de Laís. Eu fiz o que me pediam, apeei primeiro, segurei sua cintura sobre a sela, e fi-la inclinar-se sobre mim, como fazia com Aline, sem jamais poder agüentar o peso de outra mulher, e fazê-la cair sobre mim, que amorteci também a sua queda, em risos e gargalhadas. Sou incorrigível, mas não me levo tão a sério como pareço. Sou frágil, e sou engraçada. Tenho consciência das minhas fraquezas... e me adoro! Por isso posso amar, tanto e tão intensamente o outro ser humano, mormente quando sua beleza, interior, exterior, ou ambas, me deslumbram. Vem Laís! Agora é o teu tempo. Aline está longe!

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Rôdo foi a Porto Alegre, para fechar negócio com um colecionador, sobre um lote de peças valiosas do tesouro que encontramos na caverna, sob a estância*; uns relicários de ouro, que incorrem num certo perigo de confisco, pois parecem estar associadas a uma igreja de Alegrete, que pode reivindicar, com um atraso de cem anos, a sua posse. A transação tem que ser secreta, e só estou revelando isto aqui, pois as peças, a igreja e a cidade não correspondem à realidade e estão, obviamente camufladas neste texto. Enquanto isso Laís permanece aqui, a sós comigo, saudosa dele, mas empolgada com o nosso belo affaire. Mas estamos esperando Lúcia e as crianças que deverão chegar hoje à tarde. Estou ansiosa e não consigo controlar minha euforia com a perspectiva próxima da chegada das minhas queridas crianças.

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Chegam afinal, Lúcia, Patrícia, os meninos e a querida Alícia, que tão generosamente testemunhou ao meu favor, no tribunal com risco de seu emprego. Com a morte de Solange, ela aceitou o meu convite para trabalhar aqui para ficar perto das suas crianças. Quantos abraços, e beijos! Como é bom estarmos todos juntos novamente! Patrícia agarrou-se a mim, segurando-me as mãos, que não largou por muito tempo, dizendo:
— Tia Alma, não quero nunca mais ficar separada de ti. Tia Lúcia foi ótima, mas ninguém me entende como tu, tia. Eu não pude falar com meu namorado, por que a tia Lúcia controlava o telefone, dizendo ser caro o interurbano. Você deixa, tia, eu ligar para ele?
Olhei bem para minha sobrinha, linda adolescente, e lembrei de sua infância, aqui comigo, durante tantas temporadas de férias. Uma criança adorável. Agora era uma mocinha e tinha os típicos problemas de sua idade, e eu podia compreender Lúcia que deve ter tido que controlar os gastos com os telefonemas interurbanos, já que os adolescentes não têm senso de medida, nem o de responsabilidade, desenvolvidos. E quando têm, são jovens infelizes, sobrecarregados de superego, como aqueles adolescentes japoneses que se suicidam quando não passam nos exames. Como é difícil crescer! Pensando nisso, lembro-me de quanto sou atípica, como artista e filha de meu pai, um homem sábio, de uma liberalidade inaudita. Um livre pensador, às raias do anarquismo e da experimentação pedagógica, que estimulou até mesmo a minha sensualidade inata. Por isso vivi sempre de uma maneira intensa, extrema, total. Mas eu não era psicologicamente tão dependente dos adultos como minha sobrinha, que é, no fundo como um bichinho ingênuo, cândido, e que será sempre dependente de um homem, como de uma mãe, já que lhe falta um pai verdadeiro. Por falar nele, onde anda o meu querido beberrão, o “borracho” que salvou a minha vida num momento da mais profunda angústia? Pergunto por ele à Lúcia, que me conta que Alberto está internado, para desintoxicação, numa clínica em Alegrete, onde assiste a reuniões de AA. Senti um grande alívio em saber disso e projetei visitá-lo lá, dentro de duas semanas quando espero que esteja melhor, passada já a pavorosa síndrome de abstinência, que Lúcia me informou ter ele vivenciado. Na verdade foi mais que isso. Alberto passou pelos inenarráveis tormentos do delírium tremens, que são a prova cabal da existência do inferno, com todas as suas criaturas do mundo das trevas. Pobre Alberto! Terá ele merecido isso? Lembro-me de uma conversa que tive com um amigo alcoólatra, veterano de AA, que me disse, mais ou menos isto:
—Alma, querida amiga, és ingênua, e não sabes verdadeiramente do mal dentro dos homens. Fica sabendo que um alcoólatra, por definição, nunca é uma boa pessoa. Ninguém bebe por suas qualidades, nem sequer sofre por elas, As virtudes não produzem sofrimento dentro das pessoas, são os defeitos de caráter que produzem dor, e levam à bebida descontrolada. É nisso que consiste o drama do alcoolismo. É a doença dos defeitos de caráter, ou dos sete pecados capitais, que são a sua enumeração clássica. Os doentes alcoólicos, não se curam, claro, mas aqueles que conseguem deter a sua doença, o fazem pelo desenvolvimento e o exercício das virtudes imediatamente opostas aos defeitos que estão na base da compulsão daquele doente em particular. Cada alcoólatra tem o seu pecado de escolha, de eleição, onde o álcool se agarra, enraizando-se nele, por assim dizer, lançando ramificações, radículas, pelos defeitos menores, ou filhotes dos sete grandes pecados capitais. Mas, atenção, todos os defeitos ou “pecados”, estão sob a égide do maior deles, o supremo “pecado”, o pai de todos: o Orgulho... que é Satã, Lúcifer, o anjo rebelde”.
Apesar do tom ligeiramente messiânico do discurso do meu amigo, ele me parecia fazer muito sentido, dentro de uma lógica não científica, mas filosófica, ou pelo menos poética, o que é melhor. Entretanto, eu tinha dificuldade de enxergar Alberto com esse rigor de julgamento, sobretudo depois que ele me salvara a vida, embora um tanto por acaso. Eu via, desde então, o meu cunhado beberrão como um elemento providencial em minha vida, pois além de tudo fora ele que descobrira a safra oculta dos nossos avós, que precipitara os acontecimentos que, de um jeito ou de outro, salvaram a nossa estância.
Quanto aos gêmeos, meus queridos Hans e Christian, estavam mais lindos e unidos do que nunca, e cantavam lindamente em uníssono, com vozes de sopraninos, como dois anjos. E eu pensava que deveriam ficar sempre assim, que a infância não deveria ser transitória para ninguém já que podia ser um belíssimo presente, completo, pleno em si mesmo, como parecia ser o caso dos dois, mais o do Pedrinho, também adorável. Este menino, por ter um pai bêbado, parecia ser mais amadurecido que o normal de sua idade, sem no entanto ter perdido a candura, que fazia dele um menino tão doce e perfeito, que a gente queria abraçá-lo e não largá-lo nunca mais. Aliás eu ficaria com eles, Patrícia e Pedrinho, e pensava na adoção legal. Mas, Lúcia, dizia-me:
–Alma, não podes ficar com eles. Cometerás um grande erro se o fizeres. És uma artista e deves permanecer livre. As crianças precisam de uma rotina e disciplina que não saberás proporcionar, já que elas não existem em tua vida. Tu deves partir com Aline, pelo mundo, fazendo exposições e lançando teus livros. Apesar de toda a tua boa intenção, serás prejudicial a estas crianças, se ficares com elas. É melhor que fiquem comigo, que cresçam junto de seus primos, todos juntos na minha casa, no sítio, que já tenho prática de cuidar de crianças, e de cobrar seus deveres de escola, prover sua alimentação regrada e tudo mais. Vai, Alma, pára com essas veleidades, que não são para ti, poeta!
Não pude deixar de perceber que ela tinha razão, mas eu tinha, primeiro, que conversar com Patrícia e Pedrinho, que ficariam talvez revoltados, pois queriam ficar junto de mim, naquela eterna festa de existir que eles achavam que era o meu modo de viver. Sempre poderia haver a solução de uma preceptora dando aulas às crianças aqui na estância, como minha mãe providenciara para mim quando era adolescente, com o resultado que revelei no meu conto A Preceptora, dos Contos Secretos. Eu começava a ver que a proposta de Lúcia era a mais sensata, e além disso as crianças estariam sempre perto de mim, que os visitaria em Alegrete, além de ficarem comigo durante as férias todas. As crianças precisavam estudar, e além disso Patrícia precisava namorar o seu coleguinha de escola, e por isso, aceitaria bem a proposta de sua tia Lúcia. Bem, “Não me preocupar! Eis a providência que preside o meu Destino”, dizia o mestre Nietzsche.
Assim, recomeçamos uma deliciosa nova temporada, mais despreocupada, não fosse por uma ligeira ansiedade pelo retorno de Aline, que eu achava que corria algum perigo, em relação ao Pedro, seu “ex”, que poderia eventualmente atacá-la, por despeito, ou vingança, como fizera comigo. Comecei a ficar tão ansiosa com essa possibilidade dolorosa, que resolvi precipitar a confissão que eu devia a Aline, para alertá-la, talvez, a tempo, para que não aceitasse nenhuma tentativa de reaproximação do Pedro, que seria um risco imenso. Ele tentaria seduzi-la novamente, eu imaginava, e para isso, me caluniando certamente. Havia ainda o risco de, não conseguindo, então violentar Aline, como, ai !não posso pensar nisso. Liguei imediatamente para Aline, em São Paulo:
—Aline, meu amor, sou eu Alma, claro! Estou bem, mas saudosa, e tu? Olha, não procuraste o Pedro, não é? Não o farás, não é mesmo? Olha o que me prometeste. Não, não... olha, tenho que revelar-te algo muito importante. Não, não, não é paranóia! O quê? Conversaremos quando tu voltares? Mas quando, quando? Olha, não recebas o Pedro, se ele te procurar, prometes? Não lhe abras a porta. Depois te explico. Ele não sabe que estás aí, não mesmo? Não deixa ninguém contar a ele que estás aí. Farás isso? Se puder? As pessoas... Sim, sim, eu sei. Mas, Aline, ele é perigoso, quando voltares, te direi como sei disso. O que? Não, não! Não é isso! Conversaremos aqui, tá? Um beijo, meu amor...eu te amo tanto. Me amas? Ai, vou morrer de alegria, volta, volta, minha amada! Até... até breve. Um brande beijo nessa tua boca carnuda. Vou pegar-te de jeito, quando voltares. Ai! Beijos, beijos mil...
Percebi ao desligar que Laís estava diante da porta do meu quarto, pronta para entrar, e provavelmente ouvira minha conversa ao telefone. Mas Laís não era uma dissimulada, e quando, batendo os nós dos dedos na porta entreaberta, foi recebida com prazer, ela já entrou dizendo:
— Alma, querida, me perdoa. Ouvi sem querer, o que falavas com Aline, mas permita-me dizer que eu espero Aline com tanta ansiedade como tu. Quero saber se me rejeitarás, quando ela voltar. Porque te amo, Alma, tanto quanto a Rôdo, que está me fazendo tanta falta. Sabe, como tu eu também gostaria de juntar todas as pessoas amadas, fisicamente, não só no meu coração. Ah!” Alma, quero-te cada vez mais! Quando estaremos novamente juntas neste teu leito? Ou em qualquer outro lugar, a sós? Alma, Alma, eu sei a querida Patrícia, e as crianças andam por aí o tempo todo, e precisamos ter cuidado. Mas, tu não poderias encontrar-me hoje, logo que as crianças, forem dormir, no galpão de feno? Já examinei o local, e sei que ali te encontravas com Aline, quando vocês ainda se escondiam de Solange. Não me permitirás experimentar aquela palha, nos teus braços, esta noite, no mesmo local, no mesmo leito? Lembra-te que eu não quero roubar-te de Aline, somente...
Beijei Laís nos lábios, e em seguida respondi:
–Laís, querida, sou privilegiada de ser assim amada por criaturas como Aline e tu mesma; e pelo próprio Rôdo, meu amado irmão, que me ensinou o amor carnal, ainda na infância. Estarei lá, no galpão. Espere-me lá, esta noite, às onze horas, quando todas as crianças já estiverem no sétimo sono.
Láis saiu, feliz, soprando-me um beijo no ar.

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Quando criança eu amava o Vati, acima de tudo e de todos, e... Rôdo meu irmãozinho, que, a partir dos dez anos, se tornou obcecado, após experimentar meu beijo nos lábios, e o cheiro de xixi da minha “pombinha”, como já contei no romance A Herança. Nossas aventuras e descobertas, a partir daí, adquiriram um substrato sensual e mesmo erótico que permeava a nossa convivência, tornando a nossa vida excitante, excepcional, como uma aventura permanente. Nossa libido, profundamente aflorada, se posso dizer assim, transmitia uma conotação sensual, a tudo o que víamos e tocávamos, ao nosso redor. Quando pela primeira vez assisti com Rôdo a cobertura de uma égua pelo nosso maravilhoso garanhão Minuano, cujo imenso falo, pendurado, me impressionou sobremaneira, e que despejou uma grande parte de sua carga no solo, após a ejaculação na larga vagina de sua parceira, uma das nossas belas éguas, eu me senti profudamente feminina e ansiei por aquele banho branco, que me pareceu com certa razão, o pináculo da experiência carnal. Eu quis, desde aquele momento, que Rôdo fizesse aquilo comigo, mas o pobrezinho tinha um pintinho tão pequeno ainda, e mal podia ejacular, embora vivesse já sempre em riste, com sua cabecinha vermelha inflamada por roçar na sua cuequinha e nas suas calças de brim, ásperas. Ele logo passou a me instar a beijar aquela cabecinha, e a pôr seu pintinho inteiro dentro de minha boca, às vezes junto com o saquinho inteiro. Foi quando ele ejaculou pela primeira vez dentro da minha boca, no fundo da minha garganta, fazendo-me tossir muito, de olhos vermelhos. Mas apesar do engasgo eu adorei aquilo, e iríamos repeti-lo muitas vezes, como, aliás, fazíamos com cada nova descoberta. Daí para a introdução na minha pequena vagina foi um passo, e descobri muito mais tarde, com surpresa, que eu tinha um hímen complacente, e por essa razão não sangrara. Só podia! Pois eu tinha uma natureza complacente com quase tudo na vida, exceto com a maldade, e a crueldade. Mas, meu irmão era puro como eu, e nossa natureza sensual, e mesmo erótica, suspeitada com alarme pela minha mãe (e por Solange), nunca nos decepcionou, e pela nossa aceitação plena, até à exaltação, nos tornou artistas, disso tenho certeza, embora Rôdo ainda não se dedique a uma arte, a não ser a do jogo de pôquer, que, da maneira incrivelmente hábil com que joga, talvez seja mesmo uma arte.
Uma vez, no mesmo galpão onde combinei agora meu encontro noturno com Laís, naquele tempo da minha infância tive meu primeiro “banho branco”, que me deslumbrou. Rôdo, superexcitado, inundou-me por dentro, mas eu, graças a Deus, ainda não menstruava, e não corri o risco, impensável, de engravidar de meu irmão. Aliás devo dizer, que fui poupada destas surpresas desagradáveis, ao longo da vida, por pura sorte. Não aconselho ninguém, portanto a me imitar. Como dizem os americanos, jocosamente: “Não tente fazer isso, você mesmo, em casa! ”
Mas, naquele tempo, vivíamos soltos, pelo casarão cheio de quartos, alcovas e mansardas, e ainda pelo jardim, o pomar, o açude e a pradaria ao redor. Todos esses lugares foram palco e cenário dos nossos encontros íntimos, que eu não sabia, até recentemente, o quanto eram acompanhados de longe ou de perto secretamente por algumas pessoas, como aquele velho Alípio Galdiano que um dia deporia contra mim no tribunal, e que eu tive de despedir por justa causa, pois se revelara um inimigo. Ou por Solange. E finalmente por Ana Morgado, minha mãe que nos pegou em flagrante, pondo fim àquele ciclo maravilhoso de nossas vidas.
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Após uma alegre ceia, na nossa grande sala, onde as crianças reinaram, com a as suas brincadeiras e narrativas das experiências do dia, fazendo
meus olhos se encherem de lágrimas de reconhecimento pela beleza e privilégios do presente, de minha vida tão plena de dádivas, que me comoviam, fui jogar um jogo de tabuleiro com Pedrinho e os gêmeos diante da lareira apagada, já que a noite estava quente. Esses momentos, tão aprazíveis, gravam-se na minha memória para sempre, e são o sal da vida. Após uma partida, jogada em comum por duas duplas, os gêmeos contra mim e Pedrinho, fui levá-los para a cama para contar-lhes uma história, que naquela noite foram episódios da Odisséia de Homero, que adoro, e que narrei resumidamente, de cor. As maravilhosas peripécias de Odisseu, no seu retorno de Tróia, tentando chegar à sua amada Ítaca e à sua Penélope. Os olhinhos das crianças brilhavam antes de ficarem afinal sonolentos e receberem um beijo cada um nas boquinhas perfumadas de pasta de dente. A vida é bela. E eu estava ensinando aos meus sobrinhos, que os heróis somos nós mesmos, e que as belas aventuras estão ao nosso alcance nas nossas vidas, dependendo de nossa ousadia e disponibilidade, mas, sobretudo, da nossa capacidade de sonhar. Afinal, somos como os aborígenes da Autrália que se auto-designam “o Povo do Sonho”, sim, mas também nós, a humanidade inteira, a quem foi oferecida a dádiva do onírico. Para que o mundo seja maior dentro de todos e a vida não se restrinja a um pequeno cenário doméstico, para a alma aventureira do homem!
Então quando os vi adormecidos, saí pé-ante-pé, e fui para o meu quarto para preparar-me para o encontro com Laís, no galpão. Eu iria me banhar e vestir-me como uma hetaera, perfumada somente pelo sabonete, para que transparecesse meu perfume natural. Eu estaria com um vestido levíssimo, muito fino sobre a pele, e resolvi não vestir a calcinha. Eu estava praticamente nua, e sabia que Laís estaria outro tanto, preservando também seu perfume natural, já que era uma moça de bom gosto.
Eis aí algo que nunca entendi nos franceses, que se banham pouco, ficam fedidos e tentam camuflar isso com seus perfumes. O que só produz uma mistura rançosa de cheiros, insuportável. Além disso suas lindas mulheres não raspam as axilas, peludíssimas, e muito menos o púbis e as virilhas, o que só agrava o mal cheiro. Bem, talvez também o mal-cheiro tenha um elemento afrodisíaco. Não contam, por exemplo que Rasputin, o monge lúbrico da corte dos Romanov, e que era um verdadeiro sátiro, nunca tomava banho, fedia como um bode, era irresistível às mulheres? Afinal, o ser humano é muito estranho...
Assim, sentindo-me leve e diáfana, saí para varanda, com uma lanterna de pilha, passando pela janela de Lúcia que estava com a luz acesa, que transparecia pelas venezianas cerradas, fazendo crer que ela estava ainda acordada, talvez lendo, ou mesmo atenta às manobras, minhas e de Laís, mas sobre as quais ela seria discreta, e nunca interferiria. Pois esta minha irmã provou me amar e me aceitar mais incondicionalmente do que eu jamais esperaria. Atravessei o jardim, e depois de uma caminhada de cem passos eu entrei no galpão cujo cadeado do grande portão estava previamente aberto por mim. Deixei a porta encostada e dirigindo o facho de luz para a escadinha da parte superior do galpão, onde era o meu ninho de amor com Rôdo, e depois com Aline, subi e deitei-me sobre a palha para esperar Laís. Esta logo chegou, e cruzamos nossos focos das lanternas, nos reconhecendo, emocionadas, em expectativa ansiosa, e logo estávamos abraçadas, nos devorando de beijos.
Laís estava tão sôfrega quanto eu, e tirou nossos vestidos, quase rasgando-os. Ela também estava sem calcinha! E começamos a nos acariciar e manipular, ofegantes beijando-nos e sugando nossos mamilos tesos, durinhos empinados. Estávamos ensopadas por dentro e começamos a provar o caldo uma da outra, sedentas, deslumbradas de prazer, num maravilhoso sessenta e nove. Então, nesse momento, ouvimos um rumor e a porta lá embaixo abriu-se. Paramos imediatamente, assustadíssimas, e esperamos imóveis, o coração aos pulos, ainda com nossos sexos diante das nossas faces molhadas. Quem seria? Então no topo da escadinha apareceu um foco de lanterna diante de nós que nos ofuscou, e paralisou naquela situação vulnerabilíssima e tão intima em que estávamos as duas, nuas, viradas cada uma para um lado. Era insuportável, impensável, tal situação. Nós corríamos imenso perigo, pensamos imediatamente. Então ouvimos a voz detestável do meu cunhado Geraldo, o assassino de minha irmã, enquanto nossa vista ofuscada divisava uma arma iluminada, em parte, pelo foco de sua lanterna:
—Aí, hem, safadas! Vocês nunca me enganaram! Esperem aí, ah! essa não é Aline, é a Laís do Rôdo, essa putinha, que gritava como uma gata no cio, nos braços daquele corno, que todos ouvíamos na temporada passada. Rôdo sabe disso? Vai saber, ah! se vai... dependendo de ti, Alma, sua serpente.Vim reclamar minha herança e só saio daqui com muito, muito dinheiro, que vocês me devem.Pensavam que a coisa ficaria assim, deixando-me de mãos abanando?
Apavorada, eu retorqui:
—Geraldo, seu assassino, não cometa mais desatinos que a tua situação se complicará mais ainda, tu estás sendo caçado, sabias? Eu pensava que tu fosses mais esperto e que já estivesses fora do país, aí pelo Uruguai ou Argentina. Se ficares por aqui logo te prenderão e vais mofar na cadeia.
—Nada disso, sua espertinha! Ninguém me persegue, e vocês estão nas minhas mãos, mais do que vocês imaginam. Meus filhos estão aí, não estão? Pois eles saberão de tudo, sobre vocês, suas safadas, se não fizerem exatamente o que vou mandar. Vou prender uma de vocês aqui. Tu Laís, venha cá de mãos para cima, sua bela pelada! Vou amarrá-la com esta corda, assim, com as mãos para traz vamos, assim, assim. Fique quieta aí, Alma, se não mato as duas. Não me custa, quando já se matou antes. Vocês sabem, é só começar... e toma-se gosto.
Para cúmulo da humilhação depois de amarrá-la, nua como estava com as mãos para trás, aquele homem odioso, ainda deu um grande tapa na nádega de Laís, que deu um grito dolorido. Ele era um sádico, iria nos torturar? Nós estávamos numa grande encrenca, minha cabeça estava a mil, procurando uma saída para aquela situação perigosa e patética. Nós duas ali, nuas, frente ao meu detestado cunhado, que ainda por cima era um cafajeste. Eu jamais poderia imaginar isso. Se Aline estivesse aqui, eu estaria com mais vergonha ainda de expô-la a uma situação dessa, que eu achava agora que era uma decorrência da minha vida, dos riscos inerentes à minha maneira imprudente de viver, e do meu destino, que eu sempre quisera poupar à Aline, preservando-a para deslumbrá-la com meu universo que eu pensava todo ele de beleza, para enfeitiçá-la, com medo de que deixasse logo de me amar. Eu agora estava expondo esta outra flor ao perigo, por minha culpa! Por minha culpa!
Eu tremia de medo e indignação, com as mãos pela primeira vez cobrindo meu sexo e meus seios da visão espúria desse homem que olhava lubricamente, a nós duas. Eu nem mesmo na infância, naquele flagrante de minha mãe, me vira compelida a obedecê-la na sua ordem para que me cobrisse com as mãos enquanto era arrastada pelos cabelos, diante da peonada.
Geraldo depois de comer-me com os olhos, cobiçosa e perigosamente, ordenou-me que me vestisse, que fosse até o casarão, e trouxesse dinheiro, jóias e dólares, tudo o que tivesse de valor, alertando ainda que isso era só o começo, que ele queria a venda de uma parte das terras da estância, a que tinha direito, pois fora casado com comunhão de bens com Solange. Aquele louco esquecia que a tinha assassinado, e que por isso perdera qualquer direito sobre a herança, eu queria crer. Antes de descer a escadinha eu o preveni a não ousar fazer mal à Laís, porque Rôdo o perseguiria até o fim do mundo e o mataria. Eu conhecia o meu irmão. O cafajeste respondeu com uma gargalhada cínica, dizendo:
—Então ele terá que começar por você, que a estava comendo, sua lésbica maldita!
Tremendo de medo e de raiva, eu me dirigi de volta ao casarão, para acordar Lúcia e levantarmos o que pudéssemos em dinheiro e jóias. Lúcia ficou assustadíssima, e chorando dizia:
—Alma, Alma, o que vamos fazer, meu marido é um homem perigoso, a crianças correm perigo, todos nós... o que vamos fazer? Onde está Galdério? Onde estão os peões, como pôde ele entrar na estância? Como não o barraram?
—Minha irmã,— eu disse—isso agora não vem ao caso. Além disso, estão todos dormindo. Ninguém esperava que aquele louco voltasse aqui, depois do que fez. Mas vamos ganhar tempo, vá, dá-me todo dinheiro que tiveres, eu darei o meu, as poucas jóias que tenho, dá-me as tuas, vamos, precisamos ganhar tempo, Laís está como sua refém e ela corre perigo, eu acho. Não me perdoaria se...
Lúcia soluçava nervosíssima, e eu percebi que cabia só a mim enfrentar aquele homem. Após quinze minutos de procura e recolha de dinheiro e objetos (nenhuma peça do tesouro, claro, de que ele não tinha conhecimento), com uma sacola cheia dirigi-me de volta ao galpão. Eram já meia noite e meia, e os cães latiam presos no canil, e os sapos coaxavam como em alarme geral, junto com os grilos. Mas nenhum peão acordou, graças a Deus, pois eu temia um tiroteio e mortes, se o galpão fosse cercado, com meu cunhado bandido lá dentro, e sua refém, a pobre Laís, apavorada.
Quando reentrei no galpão, vi um rumor e sinal de movimento e gemidos lá em cima. Estarrecida corri a subir, e horrorizada encontrei Geraldo em cima de Laís, possuindo-a, violentando-a, com uma mão agarrando seus cabelos. Sob o foco de luz, pude ver o seu pênis enorme penetrando, entrando e saindo da vagina da minha amiga, cujos gritos eram abafados pela outra munheca do monstro em sua boca. Sem pensar, avancei sobre ele por trás e dei-lhe uma violenta pancada na cabeça com a minha lanterna. Ele pareceu desfalecer largando o corpo em cima dela. Então eu a puxei pelo braço, de debaixo dele, desfigurada e em lágrimas, gritando, e (eu não pude deixar de notar) enganchada ainda no pênis do celerado, que tive que fazer um esforço para livrá-la daquela penetração escabrosa. Nunca mais tal visão abandonaria a minha memória horrorizada e recôndita, a ponto de eu não saber mais se tudo não passa de fragmentos de um pesadelo que confundo com a realidade. Laís abraçava-se a mim, tremendo e soluçando, nua, marcada com vermelhidões e arranhões, futuras terríveis equimoses da violência que sofrera. De sua vagina escorriam, pelas coxas, sangue e esperma. Meu coração estava partido: eu chegara tarde demais para salvar a minha amiga!
Então, enquanto eu abraçava e afagava Laís em estado de choque, subitamente ouço a voz de Geraldo, novamente:
—Então, vagabundas, safadas, vocês insistem, não aprenderam a respeitar os homens, não é? A próxima será a tua vez, Alma, sua puta! (ele apontava-me o seu revólver ).
Nós estávamos perdidas.

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Amarrada, sob a ameaça do revólver de Geraldo, eu pensava num jeito de sair daquela situação e de cuidar de Laís que estava em estado de choque e regredira à condição de uma menininha desamparada. Ela tremia, e o próprio Geraldo enfiou-lhe o vestido brutalmente, pela cabeça, e nem necessitou amarrá-la, paralisada e catatônica. Eu queria levá-la imediatamente a um hospital, e implorei a Geraldo que parasse com aquilo e que me deixasse cuidar de Laís, prometendo-lhe que ele seria atendido nas suas reivindicações, bastando que se afastasse da estância e esperasse escondido, até que eu terminasse a transação da venda que ele exigia.
Geraldo, porém, disse:
–Pensas que sou tolo, minha cunhadinha? Não vou dar oportunidade para chamares a polícia. Vocês irão me acompanhar até o casarão, agora que está escuro, e ainda ninguém acordou. Ficarão presas na casa, sob minhas armas. Sim, porque vocês terão uma bela surpresa quando chegarmos lá.
Atravessamos o terreiro e ao passarmos pelo jardim, pude ver a casa cercada por mais três homens armados, os comparsas de Geraldo. Entramos todos, e os capangas armados com rifles, se puseram estrategicamente junto a três janelas opostas. Iria começar a longa e torturante espera, de reféns, enquanto durasse a procura de um comprador e o fechamento da venda, coisa que me parecia inviável a curto ou mesmo médio prazo. Além disso, pelo comportamento violento de Geraldo, eu corria o risco de ser violada por ele como Laís o fora, pois meu cunhado sempre me desejara tanto quanto me odiava. A situação era desesperadora. E quanto às crianças? Quando acordassem, saindo de suas caminhas para virem me abraçar no meu leito, não me encontrariam ali e logo nos veriam naquela situação. Veriam o próprio pai e tio cercado de capangas, fazendo-nos a todos de reféns: suas cunhadas, filhos e sobrinhos! Aquele homem era capaz de tudo, e já provara isso suficientemente. Além disso, eu pensava em tratar de Laís, cuja depressão aumentava visivelmente, precisando de cuidados médicos e que eu lhe desse imediatamente a minha “pílula do dia seguinte”, cujo envelope eu guardara desde o meu próprio estupro por aquele Pedro, em São Paulo.
Ia começar uma longa vigília.

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Ao amanhecer, assim que Galdério e Matilde entraram na casa para os seus afazeres, foram aprisionados e também amarrados. Logo ouvimos o burburinho das crianças que levantavam e vinham correndo para a sala para o café da manhã, encontrando–nos naquela situação, com o pai assassino cercado de capangas armados ameaçando-nos a todos. Foi uma consternação e um choque para as crianças, mas pude trocar olhares com elas, que me viam como seu general de saias, desde a nossa experiência como equipe de “espiõezinhos”, na temporada passada. Pedrinho, menino audacioso e aventureiro que puxara ao tio Rôdo, esperava instruções minhas para agir, fazer alguma coisa. Logo apareceu também Patrícia na sala, espreguiçando-se, e arregalou os olhos quando viu seu temido tio apontando-nos armas. Quanto aos gêmeos, estavam quietinhos, com os olhos cheios de lágrimas, olhando o pai, ainda sem compreenderem bem a situação.
Aquele dia inteiro e os seguintes foram passados em clima de tensão e planejamento dos passos que ele exigia que eu desse. Não é preciso dizer que Geraldo nos ameaçava a todos de morte, se eu desse um passo em falso, por exemplo, alertando os peões, ou telefonando e chamando Rôdo em Porto Alegre. Para isso confiscara os celulares e vigiava o telefone fixo. Eu deveria, munida de documentos da estância, vender um quarto das terras ao primeiro interessado. Geraldo me prevenia de que se eu chamasse a polícia ou usasse algum truque ele poria fogo na casa com todos dentro, inclusive seus próprios filhos. Era um homem desesperado, acuado, que segundo ele nada mais tinha a perder, só a ganhar, afinal.
Eu matutava numa solução que não pusesse em risco a segurança de todos e, finalmente, munida dos papéis e acompanhada de Galdério que dirigia o carro, como sempre, afastamo-nos da estância, para ir ao cartório, para anunciar ali a venda, que eu sabia que não seria nada fácil.
No caminho concebi o meu plano.

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O tabelião, senhor Donato era um homem dedicado, que fora amigo de meu pai, e que sempre prezara nossa família sobre todas as outras da região. Eu sabia que ele me ajudaria no meu plano. Tratava-se do seguinte: nós iríamos forjar a venda, com um falso comprador e falsos papéis. Esse suposto comprador se apresentaria até no casarão. Eu alertaria o próprio Geraldo para que ele pensasse estar disfarçando a situação perante o cliente, escondendo seus homens. Nós lhe daríamos o dinheiro, que seria um empréstimo bancário conseguido com a influência e prestígio do tabelião, mas com notas marcadas, a polícia não seria avisada, claro, para não pôr em risco minha família. Nós daríamos o dinheiro ao Geraldo, mas poríamos um rastreador no nosso próprio carro, que ele levaria com seus homens, pois era de muito melhor qualidade do que o deles, e então, quando estivessem bem afastados, alertaríamos a polícia que se poria no seu encalço. O plano era arriscado, naturalmente, e podia dar errado, pois Geraldo poderia resolver levar alguns de nós como reféns, por segurança, já que teriam dois carros disponíveis para a fuga. Mas tínhamos que tentar.
Depois de muitas horas que estas providências nos tomaram, voltamos no carro já equipado com o rastreador, e Galdério me dizia no caminho:
—Dona Alma, se a senhorita me autorizar eu mato esse homem, se não for hoje será mais tarde, algum dia, mas eu o mato. Nunca fui com sua faccia, e agora depois de tudo que esse homem fez, merece a morte. Mas diga-me dona Alma, o que ele fez com a senhorita Laís, que está tão mal, que não parece estar em si? Se aquele maldito...
Achei melhor disfarçar e nada revelar ao Galdério sobre a nova tragédia acontecida, para não acirrar seu ânimo. Galdério na sua indignação, poderia precipitar-se e pôr tudo a perder, até mesmo ser morto. Geraldo revelara-se um bandido perigosíssimo e não um simples assassino passional. Eu mesma seria capaz de matá-lo, talvez, mas no calor do momento, como quase o fiz, golpeando-o na cabeça. Mas minha força revelara-se insuficiente, graças a Deus, e me poupara de ser uma assassina nesta vida. Ai! Mas a pobre Laís... ela se recuperaria, como eu me recuperei da mesma horrível experiência sofrida nas mãos de outro crápula, o Pedro, da Aline? Eu não podia saber. Ela me parecia mais frágil do que eu, que estava inteira apesar de tudo... de ter sido igualmente tão brutalizada. Eu precisava cuidar de Laís, com todo o carinho, com todo amor que as circunstâncias não me estavam permitindo dedicar a ela. Meu coração doía ao pensar nela, que estava tão traumatizada que não falava mais, e eu temia por sua vida. Ai!...
Chegando à estância, desci do carro e corri até à porta ansiosa por ver se todos estavam bem. Laís não estava na sala, fora levada ao seu quarto, sob os cuidados de Patrícia. Lúcia ainda torcia as mãos, as crianças jogavam em silêncio sobre o tapete da sala, um jogo de tabuleiro, enquanto Matilde cuidava do almoço para todos. Iríamos entrar num período de espera, de terrível espera, até que o tabelião completasse a transação com o banco e nos trouxesse o dinheiro através do falso comprador, que esperávamos significasse a nossa libertação. Lá fora a vida da estância corria normalmente, com os peões e os trabalhadoras da vinha, na sua rotina de trabalho, alheados do drama que se passava dentro do casarão. Quanto a mim só me restava orar a Deus, para que o meu plano desse certo.

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Lúcia, na sua alienação em relação à verdadeira natureza de seu marido, apesar de tudo o que sofrera em sua vida com esse jogador, viciado e perdedor, além de mesquinho, mal caráter e assassino procurado, de sua própria irmã, tinha uma ilusão persistente, vendo nele ainda o pai de seus filhos, e tentava convencê-lo a ir embora, para não ser preso, e para não impressionar mal às crianças. Mas esse homem debochava dela e tirara completamente a máscara, revelando seu rosto de bandido, dando-lhe um violento tapa na face, para que se calasse, na frente de seus próprios filhos e dos gêmeos. Foi mais um momento chocante que vivemos ali dentro.
Assim que chegamos, eles voltaram a amarrar Galdério, com as mãos para trás, já que temiam alguma súbita reação do nosso motorista. Eu exigi que me deixasse ir cuidar de Laís, no quarto, no que fui atendida. Chegando ali, encontrei Patrícia com os olhos cheios de lágrimas afagando a mão de Laís, que estava catatônica, com os olhos muito abertos, esgazeados, sem expressão. Sentei-me ao seu lado na cama e a abracei, dizendo:
—Laís, minha Laízinha, meu amor, meu amor... Fala comigo, querida, diz alguma coisa, sou eu Alma, não vês, estou aqui, eu vou cuidar de ti, eu te amo, querida, vou cuidar de ti, Rôdo também, quando voltar, tudo vai dar certo...
Patrícia vendo esta cena, caiu num imenso pranto, mais assustada ainda, dando–se conta de que algo muito grave acontecera com a nossa amiga. Eu tinha que amparar estas duas e abracei igualmente minha sobrinha. E disse a ela:
—Pati, minha querida, nada temas, eu vou cuidar de todos, eu vou, tu vais ver. Tudo vai dar certo. Aquele seu tio mau irá embora logo, ele só quer dinheiro, e nós vamos dar a ele para ele deixar a gente em paz. Tu vais ver. O dinheiro já está vindo. Logo estaremos livres e vamos ser felizes novamente, só nós, para sempre, está bem?
Neste momento, Laís deu um gemido e explodiu em lágrimas, apertando-me contra si, soluçando: “Alma, Alma!...” Graças a Deus! Ela estava reagindo, ela chorava, ela se salvaria.
Abraçadas, nós três chorávamos, nossas lágrimas se misturando, nossos corpos, nosso calor se misturando, inseparáveis para sempre, eu senti assim...

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Quando eu tinha dezenove anos, minha mãe acalentou o sonho projetado de um casamento convencional, e de pequeno romantismo, para suas filhas incluindo a mim nessa projeção. Ela nunca percebeu, por exemplo, o quanto seu próprio marido, o Vati, era, ele sim, um representante do verdadeiro romantismo, alemão, com sua literatura e o seu piano maravilhoso. Ela não tinha a capacidade de urdir seu sonho na trama de seu próprio presente privilegiado com o Vati, como ele e eu fizemos desde a minha infância. Quero dizer com isso que sempre acreditei que o sonho deve nos engrandecer sempre, e não nos amesquinhar no presente, como ela o fazia não sendo feliz com meu pai, conosco, que o éramos a despeito dela mesma. A felicidade é a suprema virtude, eu creio, mãe de todas as outras, assim como o orgulho é o pai de todos os defeitos. Pensando assim, eu teria vergonha de ser infeliz, se o fosse. Começaria por desconfiar de mim mesma, de alguma falta de virtude, de alguma postura mesquinha em relação às preciosas dádivas da vida. O artista, eu penso, deve ser o grande sacerdote da vida, o primeiro a louvar e a agradecer, sim, e já o faz exercendo em plenitude o seu dom de criação, reflexo da Divindade. Eu sei, naturalmente, que muitos artistas exercem sua arte com um tom de crueldade, rancor ou desdém, mas sinto que Deus os tolera, para cobrá-los mais tarde, talvez numa próxima encarnação, o preço de sua infelicidade escolhida. Sim, porque a maioria das pessoas é infeliz, pela escolha equivocada de uma postura rebelde, filha do orgulho. Mas não pensem que esses conceitos derivam de algum moralismo recôndito, de minha parte. Estou bem consciente da natureza profunda e trágica do sofrimento humano, que me causa, antes de tudo, compaixão. Mas, diante de um sofredor eu gostaria de poder ensinar a sabedoria de viver, o humor de que falava o grande Hermann Hesse, que produz vidas fecundas. Por outro lado, estou bem consciente de que os trágicos e até mesmo os chamados “malditos” também são fecundos na sua auto-imolação, como que escolhida, e isso me perturba. A natureza misteriosa da tragédia. Na verdade temo a dor (não a morte), a dor, profunda noche escura del’alma, como dizia São João da Cruz. A dor, a dor de existir, não deve ser confundida com a infelicidade mesquinha, dos neuróticos, por exemplo, os que não têm a capacidade de amar, esses sim, os supremos egoístas. Como não perceber a generosidade de Deus? Basta meditar um pouco sobre os fenômenos cósmicos, como o espantoso equilíbrio de uma potência como o sol, em relação à nossa fragilidade. Ou simplesmente ponderar sobre os infinitos milagres, desde um talo de grama ao balé de uma Maya Plissetskaya, ou o violino de Ytsaac Perlmann e Yehud Menuhin. De um verme ou de uma estrela, de um grito de dor, ou de um poema. Sei, no entanto, que essas ponderações emanam da razão, e que a alma mesma, esta... é quase sempre perplexa.

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Laís se recuperaria, devagar, mas ficaria profundamente marcada pela tragédia de sua violação. Essa moça que eu pensava livre, como eu, era mais frágil, mais vulnerável do que eu imaginava. Ela despencara de uma postura que eu pensava aventureira e corajosa em relação à vida, como companheira de meu irmão, desabrido e audacioso como uma força da natureza, e revelara a fragilidade de uma menina ingênua que se reservava somente para o seu amor. Por isso eu mais me condoía por ela e quereria protegê-la, coisa que não pude, da maldade do mundo. Agora ela se abraçava a mim, como Patrícia, como as crianças, que precisavam de proteção. Onde elas viam tanta força em mim? Eu não sei, começo a desconfiar de que sou frágil também, embora corajosa. Talvez seja isso: a minha coragem, que as ilude, desprotegidos que estamos todos diante de tanto mal, encarnado em nossa frente nesse homem desesperado, louco pelo dinheiro, alma perdida de um Judas arquetípico.
Eu temia também pela minha integridade física, pois esse homem me ameaçara; e o seu desejo ilegítimo, pois malévolo, era visível no seu olhar. Eu temia que ele, já que tirara completamente a sua máscara, me escolhesse como última refém a arrastar na hora da fuga, para depois... Ai! eu precisava me precaver, precisava de um novo plano, para a hora de sua partida. Eu me sentia vulnerável diante daquelas palavras: “A próxima, será a tua vez...” O quê fazer? O que fazer?
Por ora eu abraçava e beijava minhas meninas, Laís e Patrícia que se refugiavam em mim. Os gêmeos, pobrezinhos, olhavam para o pai com os olhos um pouco arregalados, sem reconhecerem-no, pois aquele homem mau não correspondia ao pai internalizado deles, é claro. Eis aí o homem da mó ao pescoço e do rio, de que falou Jesus, dos que escandalizam as crianças.
Matilde, a fiel servidora, cozinhava normalmente e punha a mesa, enquanto seu irmão permanecia amarrado, e agora preso na nossa adega. Era, naturalmente mais fácil para Geraldo controlar as mulheres e as crianças. Eu passei a temer pela vida de Rôdo, se ele voltasse de repente, de Porto Alegre, pois ele telefonara e Geraldo mandara que eu atendesse, mas disfarçando, de modo que meu irmão não percebesse o que estava se passando. O único sinal de estranheza, na nossa conversa, que passaria despercebido de Geraldo, foi não ter falado da minha saudade, e não ter feito nenhum apelo a que voltasse depressa para os nossos braços, meus e de Laís que não poderia falar com ele, pois “estava no banho”. Rôdo teria notado esses sinais, quase inconscientes de minha parte? Pois eu temia a sua volta, que caísse nas mãos de Geraldo que sempre o detestara. Eu temia pela vida de meu irmão, que Geraldo considerava meu cúmplice na suposta espoliação de sua parte na herança. Eu sabia que Geraldo gostaria de matar-nos, ele, que já assassinara Solange, sua parceira no roubo do espólio dos nossos avós, a safra do “Ara dos Pampas”, o vinho afinal perdido, dissipado. O “sangue da terra” clamava por mais sangue, eu temia.
Na cozinha, eu trocava algumas palavras e apreensões com Matilde, que temia pela vida de todos, acreditando que aquele homem era o demônio em pessoa. Matilde nunca confiara em Geraldo, e me lembro do quanto tentou dissuadir Lúcia daquele casamento.Ela dizia, naquele tempo:
—Lúcia, guria, não te cases com esse homem, não confio nele. Não tem um bom olhar. O coração se vê na cara mesmo, nos olhos. Esse homem não é bom, que é tudo o que um marido precisa ser. O que vês nele, minha filha? Somente o seu desejo de ti, teu próprio reflexo nos olhos cobiçosos desse homem. Lúcia não te cases com ele!
Agora, estávamos ali, todos nós, nas mãos do intruso, do homem que se insinuara em nossas vidas de maneira tão ilegítima, como Matilde percebera desde o início. Eu era talvez um pouco culpada, por omissão. Eu nunca compreendera aquela suposta neutralidade de Lúcia, aquela sua anódina personalidade, a meu ver. Era, para mim, mais fácil compreender, embora com repulsa, uma Solange do que a mornidão de Lúcia, até o momento em que surpreendentemente me revelou o seu apoio precioso, em relação à Aline, episódio que contei no primeiro volume destas minhas memórias.
Agora nesta situação tão difícil, eu me sentia afinal responsável por todos, até por Rôdo. Mas que podia eu fazer, além das providências para uma possível futura captura de Geraldo, e para salvar o dinheiro? O meu plano, como todos os planos, tinha furos, e esse era nada menos que a possibilidade de ser violentada e morta por esse demônio que nos ameaçava. O que ele fizera com Solange e Laís dava a medida do que era capaz, em sua brutalidade.
Eu pedi à minha querida ex-babá, feiticeira de ervas competentíssima, que eu sempre admirara:
—Matilde, não podes ministrar uma erva dormideira poderosa a esses homens, nem que todos nós tenhamos que tomar juntos, pois o tabelião chegará hoje ainda com o “comprador” trazendo o dinheiro e então separarão os bons dos maus no nosso sono coletivo? Eles acordariam na prisão e nós nas nossas camas!
—Alma, minha guriazinha,—ela respondeu— eis aí um plano arriscado, digno dessa tua imaginação de poeta. Queres ficar mais vulnerável ainda do que estás? E se alguma coisa der errado e acordares no covil do monstro, sem defesa alguma? Lembra-te do desastre daquela poção do frei na estória que me contaste daquela Julieta, e no que deu. Não jogues com o destino, que sempre é um tanto irônico com aqueles que pensam manipulá-lo. A fuga, minha filha, da realidade, é o que estás pretendendo. Acordar do sono coletivo, de cem anos, sem mais o espinheiro, nos braços de um príncipe, um presente ideal?
Fiquei envergonhada com o meu plano fantasioso, infantil, e reconheci mais uma vez o quanto minha querida Matilde era sábia.

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Já descrevi o comportamento de quase todos nós, naqueles momentos críticos. Resta lembrar a atuação de Alícia, que, de tão equilibrada, pode amenizar a tensão para as queridas crianças, esmerando-se nos gestos rotineiros ao cuidar delas, dando a impressão de que nada de anormal se passava na casa. Ao pô-los para dormir depois do banho, eu entrava no quarto delas para contar estórias, em que eu também me esmerava mais que nunca, ao fazê-lo com calma e sem pressa. Depois do beijo na boquinha de cada uma delas, eu me dirigia ao meu quarto para cuidar de Laís, que estava se recuperando, a ponto de voltar a sentir medo, e agarrava-se a mim, querendo proteção. E eu, com o coração apertado, a tratava também como a uma criança. Foram dias difíceis aqueles, e iriam mudar em seguida para pior, mas pelo menos, e felizmente, só para mim...
Quando, afinal, chegou o tabelião Donato acompanhado do falso comprador com dinheiro verdadeiro, restabeleceu-se um sorriso sinistro na face de Geraldo e seus três comparsas, o que não chegou a produzir alívio em nenhum de nós, que esperávamos agora o próximo passo do famigerado quarteto. Seus olhos, depois de se deliciarem longa e repetidamente com a visão das abundantes notas, agora se dirigiam principalmente e a mim e à Aline causando-nos calafrios. Então, de repente, o bandido apontou o dedo para mim, dizendo:
—Alma, prepara-te, tu virás conosco. Mas não te atrevas a nenhum truque, espertinha, pois estaremos de olho em ti. Vamos, vamos.
As crianças e Laís precipitaram-se para mim aos gritos, chorando muito e agarrando-me de tal maneira que Geraldo e os comparsas tiveram que apartar-nos à força, produzindo um momento de grande dramatismo, que me apertou terrivelmente o coração, como se não fôssemos nos rever nunca mais. Eu temia agora pela minha pela minha integridade, e até mesmo pela minha vida, pois não podia deixar de lembrar das palavras ameaçadoras de Geraldo, de que eu seria a próxima. Minha cabeça começou a funcionar a todo o vapor para tentar bolar um plano de fuga durante o trajeto, desconhecido, que faríamos. Como eu esperava, botaram-me no nosso carro (pelo menos isso), sob o olhar apreensivo de tabelião Donato, que balbuciava protestos, e os gritos angustiados de todos os outros. Laís agarrava minhas mãos, até dentro do carro, o que me produziu grande receio de que também a empurrassem para dentro. Felizmente, deram-lhe um tranco que a jogou no chão de cascalho. O carro partiu em rápida aceleração, como se eles esperassem uma imediata perseguição, e a poeira encobriu-me a visão dos vultos queridos que estendiam os braços e gritavam para nós, em desespero.
Sentada no banco de trás, entre dois dos capangas com suas armas, eu não poderia sequer atirar-me na estrada, pensamento que me vinha à cabeça, já que não podia confiar na eficácia do rastreamento do carro, ou se o resgate chegaria a tempo, pois os capangas também me mediam dos pés à cabeça, com aparente cobiça. A única providência, instintiva, que me foi possível tomar, foi a escolha da roupa que eu vestia: um jeans reforçado e justo, com um grosso cinto difícil de desafivelar, e uma meia-calça por baixo. Um verdadeiro cinto de castidade, para dificultar, ao máximo, aquilo que eu mais temia...
Pegamos a estrada que corta a pradaria, e o motorista começou uma correria sem sentido, pois pensavam que ninguém os perseguiria, já que confiavam que eu não me atrevera a contar para ninguém sobre o seqüestro. Realmente, com o equipamento de rastreamento por satélite, a polícia não precisava seguir o carro de maneira visível, e podia traçar o seu itinerário num mapa eletrônico de um posto em Alegrete, enquanto ia avisando os postos de fronteira. Mas eu estava preocupadíssima com o momento da abordagem, nalguma barreira, pois estava convencida que meu cunhado iria me matar, ao ser detido, para se vingar, já que era procurado por assassinato mesmo, e faria pouca diferença para ele, mais uma morte nas costas. Além disso, ele, com a maleta de dinheiro na mão, e um sorriso sinistro, ao lado do motorista, não parava de olhar para trás com um ar debochado e ameaçador, com o intuito de me atemorizar.

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Quando criança, eu passava longos períodos de introspecção e devaneio literário, se posso dizer assim, na biblioteca de meu pai. Nessas ocasiões, meu olhar adquiria um tom nostálgico e vago, que assustava minha mãe, que me preferia, naturalmente, mais pueril e inocente, brincando entre as flores do nosso belo jardim. Eu viajava por dentro, por todos os períodos da História, vivendo as aventuras dos meus heróis, de ficção ou reais, históricos (não havia distinção entre eles, para mim, é claro). Ana Morgado, minha pobre, mãe, estranhava esse meu amor por um universo invisível e inacessível a ela, que lhe parecia um tanto escuso, já que não podia vigiar as minhas andanças nesse mundo imenso e intangível. Assim, ela procurava interromper as minhas leituras, e empurrar-me para fora, para o jardim, ou até mesmo para o pomar, que ela temia um pouco, pois ficava um tanto fora de suas vistas. Na verdade, ela nunca pode me seguir ou vigiar, como ela queria, pelo vasto labirinto de sendas do casarão e da estância, que era muito mais o meu território do que dela, ou de qualquer um, à exceção de Rôdo, meu pequeno comparsa aventureiro como eu, que o transformei em parceiro das minhas fantasias amorosas de pequena sonhadora. Um pequeno cavaleiro, um príncipe, para mim era fácil transfigurá-lo nesses arquétipos pueris, pois meu irmãozinho tinha qualidades reais para isso. Rôdo sempre foi extraordinariamente belo, viril e corajoso, desde pequeno. Além disso, ainda mais aventureiro do que eu, no sentido real, menos mental e mais físico.
Mas, no terreno da sensualidade, nesse mundo literário de sensações, lembro-me bem do impacto que me causou um livro que descobri na nossa biblioteca, intitulado A Carne, de Júlio Ribeiro, autor brasileiro do século dezenove, seguidor do naturalismo de Émile Zola, e entusiasta do Darwinismo. Ambientado numa fazenda paulista, escravagista, no século passado, sua protagonista era uma bela mulher jovem, chamada Lenita (Helena) que descobre sua sexualidade no espelho da natureza circundante daquela fazenda que a hospedava. Sua sensualidade natural desabrochava de maneira aliciante, erótica, magnífica para o leitor que acompanhava aquele processo que se revelava perigoso e destruidor afinal, mas não de uma maneira moralista, mas muito prática, a meu ver, surpreendentemente. No final, o suicídio do personagem masculino, através do veneno indígena curare, é mórbido, impressionante e insinua a figura de Lilitth, a mulher fatal, sem nominá-la assim, mas de maneira então chocante para mim: “... rameira, prostituta vil!” ele expira murmurando. Lembro-me que me revoltei com as palavras finais do personagem, vítima de sua própria paixão carnal, que não soube naqueles últimos momentos respeitar a imagem daquela que, ele, de um jeito ou de outro, amara, julgando-a preconceituosamente, bem à maneira do machismo vigente naquele século. Entretanto, a personagem Lenita iria ter uma ressonância interna em mim, que descobri, assim também, minha própria sensualidade observando, como ela a cobertura de éguas e vacas, no pasto e no curral, e me identificando eroticamente com elas. Eu, no entanto, não pude deixar de notar a maneira um tanto irresponsável com que a heroína, no livro, se descartou do parceiro que a engravidara, e decidi nunca em minha vida ter esse tipo de atitude tão pragmática e destruidora. As imagens extremamente positivas para mim dos dois homens da casa, o Vati e Rôdo, me fariam para sempre cúmplice dos homens, que eu não veria nunca como adversários, ao longo da vida. Naturalmente, eu sempre soube fazer uma distinção rigorosa do homem vulgar, realmente detestável, do homem verdadeiro, pleno e íntegro, que na verdade eu confundiria sempre, um pouco, com os cavaleiros dos meus devaneios. Em resumo: o “príncipe encantado”. Com isso quero dizer que sempre acreditei muito mais nos termos ideais de tudo, do que na versão espúria do cotidiano das pessoas, miragem distorcida do real. Para mim, o real é a beleza e a poesia, e o resto não passa de degenerescência da visão moderna, ou das pessoas contaminadas por um falso sentido de cotidiano, equivocado.
Entretanto, agora, naquele carro em desabalada corrida pelo pampa que me parecia, pela primeira vez, inóspito cenário ameaçador, eu estava nas mãos de homens que eu percebia “vulgares”, por isso extremamente perigosos para mim, capazes de me conspurcar, e ao meu mundo. Meu cunhado me via, a mim, como uma prostituta, ou uma “lésbica maldita’, como ele dizia, o que me doía na alma, como o pior dos insultos à minha pureza, da qual eu me orgulhava, até mesmo com certa ingenuidade. Aquilo, aqueles homens grosseiros, cuja presença, representada há muito tempo por meu cunhado entre nós, doía o tempo todo, como se aprisionada num lodo imundo. Eu temia por isso, uma espécie de martírio, se me permitem falar assim, na perspectiva de morrer nas mãos daqueles homens, ou pior, ser tocada por eles. Eu preferiria o suicídio, nesse caso, e imaginava um jeito de lutar com eles para obrigá-los a atirar em mim. Não podia suportar a idéia de ser penetrada pela carne espúria daqueles monstros da vulgaridade. Meu cunhado, preparando esse martírio, ia, o tempo todo, dirigindo palavras grosseiras e depreciatórias a mim e à minha beleza tão cobiçada por ele. Ameaçava dar-me como sobra aos seus homens depois de “usar-me”, e depois aos cães. Ele queria ver-me apavorada, implorando por minha vida, de joelhos diante dele. Percebendo ser inútil ameaçar-me de morte com os revolveres em minha cabeça, ele agora concentrava-se nas fantasias verbais expressas do que fariam comigo, antes de matar-me.
Então, naquela situação, ainda não extrema, pois dentro do carro em desabalada carreira, pude perceber um laivo de hesitação, e constrangimento, se não de piedade, no brutamontes da direita, cuja coxa, colada à minha, ardia num calor absurdo. Instintivamente pus minha mão sobre sua perna, não com sensualidade, mas como um apelo, que lentamente começou a surtir efeito. Esse homem, ainda jovem, de terno e gravata, como um gangster italiano, na verdade com feições germânicas, poderia se tornar meu aliado? Eu tive um pressentimento positivo, pois percebi a sua aversão crescente às palavras e zombarias de Geraldo, não condizentes em nada comigo, e minha aparência que começava talvez a amolecer aquele brutamontes, eu percebia. Eu olhava para os seus olhos, sempre que Geraldo virava-se para a frente, e tentava passar-lhe uma súplica no olhar, verdadeira,em meu desespero. Eu agarrava-me àquela última probabilidade de defesa: um homem menos brutal, que se comovesse comigo, com a minha situação... Retirei do bolso traseiro do jeans, uma folha de papel em branco, dobrada, e puxei uma pequena caneta esferográfica do bolso lateral, disfarçadamente e, olhando para esquerda para vigiar o olhar do capanga da direita que olhava para fora, pela sua janela. E escrevi rapidamente: “Salve-me e eu o recompensarei”. Ele apanhou o papel, lendo-o ali mesmo, na minha coxa e meteu-o lentamente, disfarçadamente, no bolso, sem gestos bruscos. Eu conseguira passar um recado, um apelo, que, eu esperava, frutificaria.
Nós nos dirigíamos rapidamente para a fronteira uruguaia. Mas de repente, para terror meu, o motorista deu uma guinada a um sinal de Geraldo ao avistar um atalho à direita, onde havia um bosque. E arremeteu por aquela trilha poeirenta, saindo, portanto, do itinerário previsível, em relação ao ponto da fronteira onde já nos devia esperar uma barreira policial, de viaturas atravessadas na estrada. Eu fiquei mais aterrorizada ainda, pois não contava com isso. Para onde Geraldo estava me levando? Ele então, passados dez minutos de trilha, parou praticamente no meio do bosque. Eu estava perdida! Tinha vontade de gritar. Creio mesmo que comecei a fazê-lo.

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Na manhã do enterro de meu pai, após poucas horas de sono, no final de um velório doloroso que parecia não ter fim, eu acordei gritando, e assim fui levada, praticamente carregada ao cemitério, como uma carpideira autêntica, cuja dor fazia uivar. Eu não me comportei como as pessoas da minha origem nórdica, mas possivelmente, o lado português, ou ibérico, carregado de negro, da cor sinistra do luto, da “noche escura del alma”, preponderou na dor indizível daquela perda. Eu pensava não poder sobreviver ao Vati, e o meu universo parecia ter desabado irremediavelmente. Rôdo teve mesmo que dar-me uma pequena bofetada no rosto, em certo momento, logo seguida do mais profundo abraço de minha vida, que, afinal acalmou-me. Não pude portanto observar a dor de mais ninguém, quero dizer, de Rôdo e de minhas duas irmãs. Mas Matilde parecia concentrar uma dor preocupada e pensativa. Ela teria um papel maior dali por diante, responsabilizando-se pela estabilidade mínima, do andamento espiritual e afetivo da estância, já que Solange e Rôdo disputariam a administração financeira, aliás desastrosamente, como se configurou mais tarde. Eu me sentia perdida naqueles dias, com se minha alma não se encaixasse mais no corpo, adequadamente. Eu perdera a presença de espírito. Meu irmão, tentando chamar-me à ordem, chamou-me “um belo farrapo humano”...
Agora, em meio ao medo e tensão daquela situação de seqüestro, pelo menos eu me sentia desperta, e procurava uma saída, nem que fosse desesperada, que incluía, infelizmente, a idéia de suicídio. Eu temia ser currada por aqueles quatro homens, perigo real, que se aproximava cada vez mais naquela trilha sinistra perdida no pampa. Pela primeira vez o próprio pampa me pareceu ameaçador, desértico, inóspito. Eu não tinha a quem apelar, a não ser ao próprio capanga que recolhera o meu bilhete sem nenhuma palavra. Eu não sabia se teria ressonância interna, nele, o meu apelo.
O carro, como disse, parou no meio do bosque e fui retirada pelos homens e conduzida, numa pequena caminhada até uma clareira onde cheguei quase desfalecida de tanto medo. Cai aos pés de Geraldo e balbuciando implorei que não me fizesse mal, que não me machucasse. Eu lhe prometia tudo, o tesouro que ele não sabia que descobríramos, e que eu lhe revelaria o esconderijo. Eu tentava ganhar tempo.
Geraldo, o tempo todo com um sorriso malévolo, de autêntico vilão, fez então o mais surpreendente naquelas circunstâncias: mandou seus homens amarrarem-me a uma árvore, abraçando seu tronco, posição terrível, pois eu não podia vê-los e não sabia o que esperar. Então ele brutalmente rasgou minha blusa deixando meu torso nu. Fez pior: desafivelou-me com violência o cinto, e desabotoando o primeiro botão do jeans e descendo o zíper, baixou-me violentamente a calça, com meia-calça e tudo, até os joelhos expondo-me vergonhosamente, enquanto dava um tapa debochado em minha nádega. Eu me contorcia amarrada ao tronco pelos pulsos, e comecei a gritar por socorro, aos prantos, implorando a piedade daqueles homens brutais. Então surpreendentemente senti a primeira lambada, aguda, zunindo no ar, antes do seu ardor queimar-me as espáduas. Geraldo resolvera me açoitar. Tinha um ramo de arbusto nas mãos, uma espécie de vara de marmelo, como eu já experimentara em minha infância, pelas mãos de minha mãe, como corretivo por alguma travessura. E aquele monstro sádico começou a açoitar-me as costas e as nádegas, fortemente, com grande violência, enquanto eu gritava e tremia, gemendo, sentindo o sangue começar a escorrer pelas minhas costas e pernas. Eu implorava e clamava pelo Vati, por Rôdo e por Matilde, meus únicos defensores na vida, agora tão ausentes, tão distantes. Afinal depois de uma eternidade de dor, tudo se apagou, e desabei, ficando dependurada pelos pulsos, também ensangüentados.
Não sei quanto tempo se passou, mas voltei a mim, perplexa, sentindo primeiramente a dor dos pulsos, e ouvindo os rumores do bosque, dos pios dos pássaros no crepúsculo. Eu fora estuprada, além de tudo? Não sabia. Tudo me doía, o corpo todo, e recomecei a gritar e a chorar tentando erguer-me, ainda atada à árvore. Eu estava coberta de sangue. Eu iria morrer naquele bosque devorada pelas formigas, como o “negrinho do pastoreio”? Juro que pensei nele naquele momento, quando vi algumas delas subindo pelas minhas pernas escorridas de sangue e xixi. Ai!, eu urinara, ainda por cima... que vergonha!
Eu tentava desesperadamente soltar os pulsos, que mais sangravam. Eu iria morrer ali certamente se a noite caísse, devorada pelas formigas ou pelos animais selvagens. Gritei, e gritei, mas minha voz saía cada vez mais fraca. Então, em meio ao pranto e ao terror, ouvi rumores, estalidos, no bosque como a aproximação de algo. Pensei numa onça, quase desmaiei de terror, mas pude perceber que alguém me desamarrava os pulsos, ao mesmo tempo que me amparava para que não desabasse. Um homem carregava-me no colo, semi- desfalecida, caminhando até um veículo, uma carroça, ou coisa parecida, onde me cobriu com um pala de lã, e partiu, por aquela trilha, enquanto eu adormecia, afinal, entregue à providência, na forma qualquer que ela me tivesse chegado, pois nada mais, de ruim, poderia acontecer, eu senti.
E me entreguei a um novo sono profundo.

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Acordei num leito agradável, embora rústico, numa de choupana de madeira, tipicamente pampiana, de fronteira. Uma mulher madura, loura, bonita, vestindo longa saia estampada e avental, olhava para mim,com ar condoído, com uma chaleira fumegante na mão.
—Buenas, moça—ela disse, com a fala cantada. Como estás? Passaste um mau bocado, guria! O homem que te salvou, está aí, na cozinha, sorvendo um amargo, mas não sei se posso confiar nele. Moço de terno e gravata, muito penteado, com uma pasta, e um berro que aparece o volume no seu peito, sob o paletó. Diga logo menina quem são vosmecês? Foi esse homem quem te fez mal, ou foi ele mesmo que te recolheu no bosque, conforme ele diz?
Instintivamente, eu disse, com voz fraca:
—Senhora, foi ele quem me salvou, sim, eu acho, pois mal pude vê-lo antes de desmaiar. Mas... estou limpa, banhada... a senhora cuidou de mim?
–Ah! guria, em que estado chegaste! Sim, banhei-te, estavas nua e coberta de sangue e ferroadas de formigas, algumas ainda grudadas em ti. Temi também que tivesses sido estuprada, mas dei-me o direito de examinar tuas partes, e não me pareceram invadidas, embora estivessem muito molhadas, o que achei estranho, como se a guria no fundo, bem no fundo mesmo, tivesse gostado de apanhar. Bem, isso tudo são mistérios de mulher, não é mesmo? Tuas costas e nádegas estavam em terrível estado, com vergões e arranhões, pois vê-se que fostes açoitada, pobrezinha. Recobri-as de um ungüento cicatrizante, e que alivia a dor. O que fizeste para merecer isso? Traíste teu homem? Mas, como uma guria tão bela como tu, e com esse porte de princesa pode chegar aqui nesse estado, neste fim de mundo, nos braços de um moço tão esquisito como aquele? Parece um bandido de cidade grande, isso é o que ele parece.
Eu ia responder, mas dei um soluço e recomecei a chorar. Mas, apesar do pranto, consegui dizer:
—Senhora, proteja-me, eu a recompensarei, esse homem... não sei se posso confiar nele. Ele tem uma maleta, a senhora disse? Olha, ele está armado, senti no seu peito quando me carregou. Descubra o que ele quer, se vai logo embora. Por quê, afinal, ainda está aqui, se já me entregou à senhora? Por favor, descubra, tenho medo!
A mulher tocou-me a mão, carinhosamente e abanou a cabeça. Fez um gesto de silencio, com um ligeiro chiado entre dentes, retirando-se, como para conferir algo com o homem, instalado em sua cozinha.
Eu mal podia mexer-me, de tantas dores nas costas e nas nádegas. Eu estava enfaixada, e untada, eu senti. Somente a região pubiana estava descoberta, Meus pulsos também estavam enfaixados, e eu previa que uma longa convalescença me reteria ali, naquela cabana, com aquela boa mulher, se aquele bandido me deixasse livre e não me carregasse consigo em sua fuga, que era o que eu temia. Ele estava com o dinheiro? O que acontecera com Geraldo e os outros dois? Afinal, a porta se abriu, e o jovem bandido, alto e imponente, muito forte, com seu terno e gravata, e o volume da arma numa cartucheira suspensa em seu peito, sem desgrudar-se daquela maleta de dinheiro, que reconheci, entrou no quarto acompanhando minha hospedeira, que ele logo pediu que se retirasse. Aproximou-se da cama, enquanto eu tive que olhar muito para cima:
—Senhorita Alma, sinto muito o que aconteceu, não pude evitar: o tiroteio mataria a todos nós se tentasse deter o chefe. Os outros tinham uma metralhadora e um rifle. Alguns quilômetros à frente, afinal deu-se o confronto, uma discussão pelo itinerário de fuga e logo pelo dinheiro, precipitou a contenda. Estão todos mortos e apodrecendo a céu aberto, se seus corpos não foram já descobertos. Voltei em cima do rastro a ponto de afugentar as formigas que já atacavam a senhorita. Sinto muito, não pude evitar o açoitamento, que me condoeu muito. Os outros me vigiavam naquele momento, especialmente, conhecendo o meu coração fraco com as mulheres.
Diante daquelas palavras estendi-lhe a mão e toquei a sua, enorme, capaz de matar uma pessoa com um único soco. Ele ficou muito mais sério ainda e retirou a mão. Eu disse:
—Não sei o teu nome, guri, mas sou-lhe eternamente grata. Eu deporei a teu favor perante a polícia, e no processo. Pressinto que esta casa será logo cercada, tu deves livrar-te da tua arma ou correrás o risco de ser morto, conheço a polícia daqui. Ao menor pretexto, atiram, e não vais mais me reter como refém, pois deves-me a minha libertação completa, agora que me salvaste, não é verdade?
O jovem, solene e um pouco rudimentar, como um guerreiro ou um guarda costas mesmo, respondeu com sua voz grave, e sem inflexões:
—Senhorita Alma, vou lhe devolver o dinheiro. Está aqui nesta maleta, que deixo desde já contigo. Não tenho a menor chance de escapar com ele. Sempre soube. Mas, a arma não, não posso entregar-te. É tudo o que sempre tive e a carregarei comigo para sempre. Estará na minha mão no último momento, que sei, não está longe. Quero morrer atirando. Mas nada temas: vou afastar-me já desta casa, para não expor vocês duas ao perigo de um fogo cruzado. Mas para isso preciso deixá-las já, antes que seja tarde. Adeus.
Aquele homem surpreendente, soldado da fortuna, mais do que criminoso impenitente, eu sentia, afastou-se, com esse gesto nobre, de um cavalheirismo arcaico, que me deixou impressionada e grata, desejando sinceramente que ele escapasse ao cerco, que fugisse e... um dia, muito à frente, me procurasse, para eu recompensá-lo.
Aquela noite, acordei sobressaltada, julgando ter ouvido tiros muito ao longe. O guerreiro, meu salvador, de quem eu nunca saberia o nome, tinha sido cercado, tinha tido seu confronto final? Tombara com sua arma na mão como queria, como um guerreiro do Walhalla?
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Permaneci naquela casa acolhedora por dez dias, já que ali não havia nenhum telefone, o que foi bom para o meu restabelecimento, apesar da preocupação em dar notícias tranqüilizadoras aos meus, que deviam estar em ânsias, sem pistas do meu paradeiro. A boa mulher, dona da casa, chamava-se Júlia, era viúva, com os filhos alistados no exército, e vivia muito bem em sua solidão. Muito maternal, adotou-me naqueles dias, como filha, numa dedicação a toda prova, mas curiosa e intrigada quanto a minha pessoa. Contei-lhe minhas aventuras e desventuras, que ela acompanhava com os olhos espantados, abanando a cabeça. Ela dizia:
— Guria, que vida a tua! Como te metes em encrencas! Mas sabe, isso é destino, e o teu, afinal é belo apesar de tudo. Apesar do preço que pagas pelos teus privilégios. Mas o que mais me impressiona é tua relação com teu finado pai. Esse era um homem que nunca vi! Meu marido, era um bom homem, mas duro e seco, tinha sido militar, e tratava os filhos como recrutas, neste fim de mundo. Afinal deve ter servido para alguma coisa pois foram mesmo recrutados para o serviço militar e não devem estar estranhando. Mas eu sempre quis ter uma filha, que não tive, e a tua presença aqui me traz uma doce sensação, como uma nostalgia. És uma doce guria, apesar das tuas aventuras, e mais me faz ver a imensidão de minha perda, não tendo uma filha mulher. Esta noite sonhei que tinha uma, e eras tu, que tinhas voltado estranhamente do exército, da guerra. Sabe, “A donzela que foi à guerra*”, meu avô recitava esse romance antigo, português, para nós, e agora voltei a lembrar dele. Para mim, voltas ferida da guerra, eu te cuido, e tornarás para outras batalhas. Sinto que sofrerei quando fores embora. Mas, agora, vira-te de bruços que tenho de trocar estes cataplasmas. Tu verás, minha guerreirazinha, que a tua pele fina e branca ficará como antes, com esta receita de minha avó. Teu futuro marido não saberá que fostes à guerra. Poderás dizer que conheceram-te somente pelos teus olhos verdes, “que por outra cousa não”.
Adorei Júlia conhecer aquele poema medieval, anônimo e tão pouco sabido. Ela me surpreendeu, como, aliás, sempre o faz este meu povo do sul. Eu senti que poderia ser feliz ali com ela, e uma nostalgia de mãe, também me assaltou. Eu percebi que era carente de mãe. Já que a minha, eu é que rejeitara um tanto, pela minha paixão por meu pai. Pobre mamãe! Quanto deve ter sofrido comigo, seus sonhos frustrados em relação a uma filha dócil e acomodada, e que, ao contrário, revelara-se uma poeta doida e delirante, ao seu ver! Solange e Lúcia nunca puderam preencher esta sua expectativa em relação a mim, a filha que fisicamente era o seu modelo, mas que espiritualmente era muito complexa, e não a bonequinha manipulável que ela queria. No entanto, sempre fui doce e meiga apesar de rebelde e aventureira, o que mais a confundia e perturbava. Ela não podia entender essa junção paradoxal de características que ela pensava opostas e inconciliáveis. Justamente aquilo que me faria amada e desejada por tantas pessoas, como agora por esta boa mulher que teria um pedacinho da minha vida e do meu coração. Eu tratava Júlia com tanto carinho e gratidão, que ela se pôs a chorar pelos cantos com a perspectiva de perder-me, eu percebia.
Ela me banhava no próprio leito, com uma esponja embebida em água morna, fervida na chaleira em seu forno de lenha, com tal doçura e desvelo, que me comovia, e me apegava a ela. Decidi que viria visitá-la, no futuro, para conhecer os meus irmãos recrutas, e que os teria como uma segunda família, em meu coração. Estou convencida de que nada é acaso em nossas vidas e que encontros como esses são sempre providenciais, e vêm para nos ensinar algo, ou mesmo corrigir o nosso rumo.
Afinal saí do leito, e comecei a passear com ela lentamente apoiada em seu braço, pelo seu pomar, em volta da casa, cheio de pereiras e pessegueiros, e ainda algumas macieiras que me fizeram lembrar saudosamente a minha própria, sagrada. Eu cobria aquela mulher de carinho, e falava seu nome como se dissesse a palavra “mamãe”, o que ela captava, deixando-a cada vez mais comovida.
Então, no décimo dia, afinal, a polícia chegou, com o Rôdo, Galdério, o tabelião Donato e até o meu advogado o doutor Loredo. Cercaram e assaltaram a casa um tanto intempestivamente como se eu ainda estivesse seqüestrada, e a polícia quase prendeu a querida Júlia, como se fosse cúmplice dos bandidos. Tive de intervir e dar um basta naquela intrusão, explicando tudo e abraçando muito a Júlia, assustada, na frente daquela gente toda. Havia também uma repórter que não parava de tirar fotografias com flash. Os jornais de Alegrete, Livramento, e até de Porto Alegre, noticiaram a minha libertação, contando detalhes fantasiosos e sensacionalistas, inúteis e aquém dos verdadeiros acontecimentos. O fato de eu ter sido chicoteada, produzia sensação no público e funcionou como uma catarse, ao que parece, para tantas mulheres “rebeldes”. Eu era mais uma vez tratada como uma heroína que tinha sido torturada. E tanto a imprensa insistiu que conseguiu fotografar minhas costas ainda com pequenos vestígios das lambadas. Percebi que as fotos foram retocadas digitalmente, nos jornais, para parecerem ainda lanhadas e inflamadas, em carne viva. Eu comecei a me sentir usada, e que o sensacionalismo estava afinal malbaratando tudo, a começar pelo sofrimento real pelo qual eu passara. Resolvi fechar-me em copas e não receber mais nenhum jornalista. Mas no meio daquilo tudo, fiquei sabendo de algo que me estarreceu e que me preocuparia sempre, daí por diante: o corpo de Geraldo não fora encontrado, somente o seu rastro de sangue que se perdeu, num bosque, pois caíra uma chuva de haragano, que apagou as pistas. Eu não teria mais perfeita tranqüilidade, sabendo disso.
O dinheiro do resgate foi devolvido ao Banco com um pagamento de juro, imenso, mas numa única parcela. O banco insistia em emprestá-lo a juros extorsivos para nós investirmos na vinha, no aumento da produção e das instalações. Mas eu recusei prudente, ou covardemente. Não sou realmente uma empresária... Também não deixei o Rôdo aceitar a oferta que nos faria reféns novamente, agora dos banqueiros.
Agora eu afinal estava entre os meus queridos, e as crianças me cercavam de um carinho emocionante. Laís grudara-se a mim. E Aline que voltara, quando soube das notícias do meu seqüestro, disputava-me com a sua nova rival, com o perigo de uma desavença interna, em nosso lar. Eu as abraçava apertado, igualmente, e pedia à Aline que compreendesse, e que aceitasse o meu carinho por Laís, o meu amor mesmo, que nada roubaria do dela. Mas, reconhecia que isso era difícil. As outras mulheres não são como eu. São muito ciumentas e exclusivistas, e portanto, eu agora estava prestes a me ver no meio de uma guerra entre estas duas queridas gurias. Eu contei à Aline o que acontecera com Laís, o seu estupro, mas omitindo, claro, os acontecimentos preliminares que levaram àquele evento trágico. Mas Aline, disse-me mais ou menos isto:
—Alma, você anda me traindo, e não é de agora. Você omite fatos importantes, que ocorrem com você, isto não é leal! Eu sei que algo se passou em São Paulo quando você foi ferida, durante a nossa mudança. E eu tenho uma grave suspeita do que realmente aconteceu. Agora é a hora de pôr cartas na mesa. Não ficarei com você se continuar mentindo para mim. Não me sinto bem, é como se você não me amasse mesmo de verdade. Você quer por panos quentes em tudo, como para me poupar de algumas coisas, da feiúra, talvez, em nossa vida. Você como poeta, como artista é uma esteticista, e quer somente a beleza rejeitando tudo o mais, varrendo o sujo e o feio para debaixo do tapete, não é? Não, não, você precisa confiar em mim, ou não haverá verdadeiro companheirismo. Estamos vivendo uma relação de fundo falso, e quando a tampa se abrir vai ser aquela caixa de Pandora que você me contou: cobras e lagartos sairão. Talvez alguns demônios.
Eu fiquei envergonhada. Tive que admitir que Aline tinha razão. No fundo eu era um tanto covarde e não queria perder ninguém. Mas não é assim, afinal, a humanidade inteira? Somos todos carentes. E aquele pistoleiro solitário ou aquela Lillith fatal, não existem verdadeiramente, a não ser como psicopatas predadores e perigosos. Ao pensar nisso, agarrei-me à Aline, abracei-a apertado, com um medo imenso de perdê-la, e respondi:
—Sim, sim, Aline, meu amor, minha querida, contarei tudo, contarei tudo, mas não me deixe, não me deixe nunca ou morrerei. Olha, fecha a porta, vou contar-te tudo, desde aquilo em São Paulo. Mas, olha, não tenho culpa, não sou verdadeiramente culpada. Eu nunca quis fazer o mal, a ninguém! Só quero amar, só quero o amor! Tu me conheces! (Caí num imenso pranto, como uma menina pega em mentiras.) Afinal, entre soluços comecei a contar:
—“Olha Aline, amor da minha vida, a verdade é que fui violentada... estuprada pelo Pedro, naquele dia terrível, no apartamento, no meio dos caixotes... em cima deles, na verdade. Mas,eu juro, não fiz nada para provocá-lo, a não ser ter te tirado dele, ter te roubado a ele, como ele disse. Ele me odeia tanto que quis ferir-me e humilhar-me, além de possivelmente comprometer a nossa relação. Mas seu ódio não era destituído de desejo, como se viu, tu sabes como são os homens, seu machismo... Ele sempre acalentou a fantasia de uma ménage-a-trois, entre nós, tu sempre soubeste disso. Pois, isso, frustrado, gerou a violência que me vitimou. E eu escondi de ti, realmente, pelas razões que enumeraste. Tenho horror ao horror, à feiúra, à vulgaridade, mas sobretudo à dor. Ai, a dor, Aline, não suporto a dor, em mim, na humanidade em geral, e sempre quis viver num sonho, o que na verdade não consigo. Mas sou uma rebelde contra a dor e contra o mal, minha insistência no amor, na liberdade positiva, na pureza e na beleza, nisso consiste a minha rebeldia, o meu heroísmo já apontado por alguns! Eu não me entregarei jamais. A vida é bela! A vida tem que ser bela, e o amor vencerá tudo no final!”
Voltei a soluçar e a chorar copiosamente, sentindo-me patética, e com uma imensa dor, insuspeitada, subindo, subindo do fundo de mim para o meu peito, tomando-me toda, afinal, num pranto dolorido, e... universal, eu senti, enquanto Aline me abraçava, também em lágrimas, acarinhando-me como a uma criança.
Eu desabafara, enfim!
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Fim do Primeiro Capitulo do Romance O SANGUE DA TERRA


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Alma Welt


O SANGUE DA TERRA

Capítulo segundo

Ménage-a-quatre
ou
A fecundação de Aline


Eu tinha passado a limpo a minha vida, e sentia-me aliviada, muito mais leve. Eu podia amar os meus amores como nunca, e unia em meu coração todos eles, todas as criaturas que me cercavam. Mas no terreno amoroso, propriamente erótico, que tanto prezo, eu juntava agora plenamente, sem nenhuma culpa, Aline Laís e Rôdo, que este último era o primeiro, que sempre estivera presente dentro de mim. Eu sonhava juntar a todos ao mesmo tempo em meu leito, e sabia que isso aconteceria um dia, subitamente, eu tinha certeza disso.
Laís estava um tanto dividida, agora, entre mim e Rôdo, mas eu tentava ensinar a ela que não precisava ser assim, que nós todos éramos conciliáveis, que inúmeros amores são conciliáveis desde que nos livremos da culpa, dos maldito sentimento de culpa e de pecado que nossos ancestrais atrasados e escravizados, nos legaram. Mas elas, Laís e Aline vendo a nossa liberdade, minha e de Rôdo, nossa abertura para a multiplicidade, foram também se soltando. Nós nos beijávamos e acariciávamos uns na frente dos outros a todo o momento, e isso nos proporcionava enorme prazer. Logo estávamos nos banhando todos juntos, nus, no açude e no ribeirão, em locais reservados, que pensávamos secretos, ou nunca visitados pelos peões, se é que isso ainda existia na nossa estância, como pude perceber durante os depoimentos contra mim no julgamento.
Naqueles dias, Aline, observando o meu amor pelas crianças, a afinidade e carinho profundos que davam o tom da nossa relação, começou a ficar com uma espécie de nostalgia de maternidade ainda não desfrutada, se posso dizer assim, mais do que um simples desejo de ser mãe ela mesma. Rapidamente isso foi crescendo dentro dela, e se tornou uma espécie de obsessão, de pensamento único. Ela dizia:
—Alma, quero ser mãe, preciso ser mãe. Estou feliz com você e com todos aqui, as crianças são maravilhosas, mas por isso mesmo me deixam louca para ter um bebezinho que saia de dentro de mim. Ah! Alma, como fazer, preciso de um bebê ou ficarei seca aos poucos. Você tem a sua arte, seus quadros, seus desenhos, seus poemas, seus livros. Eles são seus filhos, saem de dentro de você! Os artistas são assim, suas artes é que são seus verdadeiros filhos. Eu não tenho isso... Ai, Alma queria ter um filho seu, mas, que loucura, você é uma mulher! Ai, Alma, começo a sofrer com isso. Deixe-me ter um filho, com você Alma!
—Aline—eu respondi—há uma solução. Eu já venho pensando nisso, há algum tempo. Tenho uma bela solução, se topares. Olha, presta atenção e não reajas de imediato. Prometa que pensarás nisso: Rôdo! Ele poderá ser o pai do nosso filho. Se eu pedir a ele, tenho certeza que me atenderá. Tu te deitarás com ele, o que será um imenso prazer para ele, que sei que te deseja, pois que homem não te desejaria, minha linda? Só que vocês têm que me prometer que a criança será minha e tua, ou pelo menos de nós três igualmente. Terá um pai e duas mães, nós o criaremos assim, com muito amor, e será a criança mais privilegiada do mundo. Tu tens que me prometer que não terás ciúmes dessa criança e que a dividirás comigo, além de Rôdo. Em suma, eu te “emprestarei” ao Rôdo, e vocês o conceberão na minha cama, comigo ao lado, acordada ou fingindo dormir, ainda não sei. E eu os estarei abençoando nessa relação. Tu sabes, Rôdo e eu nos sentimos quase como o prolongamento um do outro, não há ciúmes entre nós. Sei que ele topará, se eu lhe pedir. Se tu o fizeres, se fores tu a pedi-lo sozinha, ele pensará que me estás traindo e recusará. Conheço meu irmão.
Aline ficou um pouco espantada, pensativa. Ela não tinha pensado nisso. Não pudera imaginar que minha cumplicidade com Rôdo chegasse a esse ponto. Chegou a pensar que já tínhamos repartido namoradas antes. Questionou-me, estava perturbada, confusa. Mas, a minha idéia já germinava dentro dela, e foi divertido observar como o seu olhar sobre o Rôdo começou a mudar. Eu a pegava olhando de soslaio para o meu irmão, observando seus movimentos, seu rosto, seus olhos, seu porte, tudo. O mais engraçado foi notar como ela olhava agora com mais atenção, sem perceber, para o pênis do meu irmão, quando tomávamos banho todos juntos e nus, no riacho, no meio do bosque, ou no açude. Também ao chuveiro que passamos a usar coletivamente, claro, como extensão natural dos nossos banhos de rio e de cachoeira. Uma vez ela pegou delicadamente seu pênis com dois dedos, ao chuveiro, abertamente na minha frente e na de Laís, para observá-lo. Sua pureza era tão evidente, e a nossa cumplicidade a quatro já tinha ido tão longe, que Laís não fez caso, e sorriu, por incrível que pareça. Aliás, já estávamos todos prontos para o nosso maravilhoso “ménage-a-quatre”.
Entretanto Laís não sabia do nosso plano de um filho, e isso, eu temia compartilhar com ela.

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Rôdo não fora informado da terrível violência que houvera com sua Laís, e eu tinha um pacto com ela, de nada contar a ele sobre isso. Não era necessário. Ele ficaria furioso e impotente quanto ao fato consumado, e qualquer vingança era impossível, pois a polícia considerava Geraldo morto, embora não tivesse encontrado seu corpo. Como podia ser isso? (eu me perguntava). O delegado dissera que seu corpo, ou melhor, sua ossada, seria encontrada um dia, pois havia um rio ali perto, e ele devia ter caído, gravemente ferido, nas águas, e morrido afogado, sendo seu corpo arrastado para longe dali. Mas como a polícia poderia afirmar isso? Eram tão somente conjeturas, embora o delegado me aconselhasse a esquecer tudo, e não mais me preocupar. A quantidade de sangue no rastro visível, os autorizava a afirmar isso.
Passados dois meses do acontecido, tive uma enorme vontade de visitar Júlia, na sua linda choupana. Minha nova mãezinha, que cuidara tão bem de mim, a ponto de minhas costas e nádegas não mais apresentarem qualquer vestígio da flagelação, adoraria conhecer as minhas “amigas”, eu imaginei. Pedi ao Galdério que aprontasse o nosso carro cujos furos de balas já tinham sido maçados e pintados. Galdério, e Rôdo que aceitara meu convite, na manhã da viagem, bem cedinho já estavam a postos. Partimos, animados, com o passeio, as gurias curiosas para conhecer minha salvadora.
Quando, após duas horas de viagem na magnífica manhã ensolarada, com minhas gurias encantadas com a paisagem pampiana, afinal chegamos naquela trilha à direita da estrada, meu coração oprimiu-se. Eu não pensara que teria que passar pela mesma trilha cujo bosque tinha sido palco da minha tortura e humilhação. Fiquei muito perturbada ao passar por ali e ainda reconhecer o ponto em que o carro parou e que penetramos entre as árvores, eu arrastada pelo pulso por aquele homem horrível, meu cunhado e carrasco. Lágrimas rolaram dos meus olhos, e fui consolada e acarinhada pelas minhas duas namoradas, que me ladeavam no banco de trás. Rôdo mantinha-se em silêncio, dirigindo o carro, com o Galdério, agora como co-piloto.
Afinal, chegamos na cabana de Júlia que não tinha sido informada de nossa vinda, pois não tinha telefone e vivia isolada. A porta estava aberta e ela não estava em casa. Meus quatro acompanhantes sentaram-se nas cadeiras e poltronas sem cerimônia, enquanto eu saía para procurá-la no pomar, em torno. Mas não a encontrei. Voltei e juntei-me aos outros numa espera ligeiramente perturbada e ansiosa. Então, depois de uns quinze minutos, entrou ela com uma braçada de ervas. Minha maravilhosa feiticeira! Abracei-a em lágrimas e ela parecia surpresa e feliz. Apresentei todos a ela, que a cumprimentavam com agradecimentos por mim. Nós iríamos passar um dia maravilhoso e perturbador, pela razão que me apressarei em contar.
Não me deterei nos detalhes daquele dia, nas conversas das meninas com Júlia e o que se passou entre elas. Só sei que as duas a consideraram uma espécie de feiticeira benfazeja, e ficaram maravilhadas com suas palavras e receitas de ervas. Mas o que me perturbou foi o seguinte: Júlia me revelou, que Geraldo estivera ali, fora recolhido por ela, caído à porta de sua cabana, baleado, entre a vida e a morte durante uma semana, e que ela o salvara com suas ervas, poções e cataplasmas, surpreendentemente até para ela mesma. Ela não questionara quem era ele, pois não era a primeira vez que cuidara de um homem baleado, ou esfaqueado. Em geral, peões feridos vinham dar à sua porta e eram cuidados por ela, às vezes enterrados no seu pomar, com uma muda de árvore por cima. Na verdade quase todas aquelas árvores de fruta tinham um cadáver por baixo, ela me revelou, causando-me um arrepio. O Pampa estava me revelando, através dela, a sua face sinistra e sangrenta. Mas ela garantia que a maioria dos feridos ela salvara, o que no caso de Geraldo não foi um consolo para mim. Esse homem horrível, mesmo ferido a ameaçara de morte, o que para ela não fez diferença, pois cuidara sempre de bons e maus e conhecia o coração e as fraquezas dos homens. Ela me segurava as mãos carinhosamente, contando coisas terríveis, sempre com a mesma serenidade. Contou-me que Geraldo partiu, ainda não totalmente recuperado, quando um menino, pretinho, da região, que visitava sempre Júlia, e era uma espécie de discípulo dela, chegou com a notícia de batidas na região, num raio de cinco quilômetros, movimentos de procura, da polícia, pelo corpo de um homem que fora baleado há uma semana daquela data. Geraldo ainda tinha sua arma na mão e ameaçara Júlia. Eu tinha deixado aquela casa no dia anterior ao da sua chegada, felizmente, pois ele, talvez, mesmo ferido teria me matado ali, naquela casa abençoada, se me reencontrasse, para evitar o meu testemunho da sua ignomínia.
Cai num choro convulsivo, diante daquela revelação, numa súbita crise histérica. Eu não teria mais completa paz com aquele homem, aquela ameaça a mim, solta no mundo. Fui cuidada e acarinhada por Júlia e as gurias, que se desvelaram em me consolar e animar. Mas fiquei sem condições de viajar, de retornar aquela noite para a estância, e pedi, então a Júlia que nos permitisse posar em sua casa. Nós partiríamos de manhã bem cedo, bem repousados. Júlia, que eu percebi, não me negaria quase nada, abraçou-me carinhosamente, dizendo:
– Alma, minha guria, não sabes como tenho prazer em ter-te na minha casa. Eu na verdade te queria junto a mim, para sempre. És a minha guria, minha filha, da qual lambi as feridas. Todos dormirão bem, aqui nesta casa. Tenho um sótão com uma cama e um colchonete, que poremos no chão, Vocês, gurias dormirão se revezando na cama, se não couberem as três no mesmo leito. Rôdo e Galdério dormirão no celeiro, sobre a palha. Venha, vou mostrar-te teu quarto.
— Júlia—eu disse — quero pedir-te ainda um imenso favor. Necessito a tua complacência para algo que talvez aches estranho. Preciso ter um filho. Aline necessita ter um filho comigo, ou eu a perderei logo. Tu compreendes. O apelo profundo da maternidade chegou para ela. Eu lhe propus, e ela aceitou ser fecundada por Rôdo, meu irmão querido, que nada me negará, tenho certeza Não tive ainda a oportunidade de falar com ele, pois a idéia é muito recente, mas pretendo fazê-lo hoje à noite, a sós, num passeio em teu pomar. Tenho certeza que ele assentirá. Mostra-me agora, o quarto, querida Júlia, pois, se concordares, terei que calcular a logística.
Júlia sorria maravilhada com a idéia, como se já soubesse de tudo. Demos uma gargalhada juntas, como duas alegres alcoviteiras, e de mãos dadas reentramos na choupana.
Subimos ao sótão, que me pareceu encantador, acolhedor e aconchegante, com um catre, não muito estreito, em que caberia duas pessoas, tranqüilamente. Ela começou a arrumar o quarto, e a tirar de uma arca enorme, um colchonete e roupa de cama. Arrumamos as camas, deixando tudo pronto. Eu estava somente preocupada com Laís que eu não teria tempo de participar e preparar o espírito. No fundo ela seria a única enganada, naquilo tudo. Mas eu acreditava que poderia prepará-la a posteriori, dada a sua paixão revelada por mim, que ela conseguia muito bem conciliar com a de Rôdo, dentro dela. Maravilhosa guria, revelação em minha vida!
Aquela noite, eu chamei Rôdo para um passeio a sós, no pomar, em volta casa, sob um magnífico céu estrelado, de lua nova.
Andando pelo pomar, em torno da casa, ouvindo o canto dos sapos e grilos, de mãos dadas com meu irmão, uma imensa calma tomou o meu coração e eu tive a consciência daquele momento mágico, na iminência de um pedido profundo, decisivo em nossas vidas, que poderia até mesmo mudar nossos destinos. Então, parando subitamente e olhando-o nos olhos que brilhavam, refletindo a lua, eu lhe disse:
–Rôdo, meu irmão, quero fazer-te um pedido. Preciso de ti mais que nunca, para solucionares uma questão vital. Preciso ter um filho com Aline (ele abriu a boca, estupefato, mas logo sorriu). Ela está tomada pelo sonho da maternidade. Ela anseia por isso, seu corpo mesmo anseia por isso. É chegado o seu momento, e ela se frustrará, ou me abandonará se eu não puder dar-lhe um filho, que ela espera criarmos juntas. Ora, isso é facilmente contornável, se pudermos contar contigo. Só em ti eu posso confiar, meu irmão. Eis o que te peço: deita-te com Aline, no nosso leito, com a minha benção. Fecunda-a, dá-nos teus dons, tua beleza e teus gens. Não será nenhum sacrifício para ti tal empreitada, não é mesmo? (sorri). Vocês homens estão sempre dispostos quando se trata de uma bela fêmea, em seu leito, não?
Rôdo sorriu e seus olhos brilhavam, comovido, beijando as palmas das minhas mãos. E disse:
—Claro, Alma, minha irmã querida. O que eu poderia te negar? Entendi tudo. Mas falta saber qual será o meu papel perante essa criança, depois de nascida. Não sei se estou preparado para ser pai...
—Rôdo, a criança que nascer, terá de ser a mais privilegiada do mundo. Tu me conheces. Não quero ninguém vítima de nada, a começar pela criança, é claro. Ela terá um pai e duas mães, que a compensarão pelas tuas longas ausências, revezando-nos nos cuidados sobre ela. Tu poderás viajar com Laís, e sempre retornarás para ver teu filho, e dar-lhe a referência masculina, de pai, que ele, naturalmente necessitará. Sei que o meu plano pode dar certo. Temos tanto amor para dar, não é, meu irmão? O Vati propiciou isso em nós, com seu imenso carinho e liberalidade. Sei que seremos todos felizes, muito mais ainda com um bebezinho entre nós. O único que me preocupa, é Laís que não terei tempo de preparar, de pedir-te emprestado a ela, como te estou emprestando à Aline. Mas sei que ela também me ama, e será generosa comigo. Não posso naturalmente, deixá-la de fora desse projeto, que é coletivo, por assim dizer. Ele envolve pelo menos cinco pessoas, contando com Matilde que nos ajudará a criar nosso filho, como ajudou a nos criar. E ainda as crianças, que serão como irmãos desse bebezinho. Ai, como tudo isso pode ser belo! Começo a ficar entusiasmada! Então, aceitas, meu irmão?
Rôdo me abraçou dando uma gargalhada alegre, e ficamos muito tempo assim, rindo, divertidos e felizes com a minha idéia e nossa cumplicidade a toda prova. Eu me sentia plena, como se também estivesse grávida. Só faltava preparar o terreno para aquela noite maravilhosa, de fecundo sonho, de semeadura, de plantio.
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Para que meu plano desse certo, eu precisava, finalmente, do consentimento de Laís. Afinal, era do seu namorado que se tratava, e não simplesmente do meu irmão. Ela teria esse desprendimento? Como se sentiria em relação a uma criança de Rôdo que não viesse do seu ventre? Ela acalentava também um sonho de maternidade? De um filho seu e de Rôdo? Eu percebi que não sabia muita coisa ao seu respeito, além é claro, de que era muito mais doce, frágil, e apaixonada do que eu esperara, no princípio. Ela se mostrara tão amorosa e ardente, comigo, até aquele malfadado incidente do... seu estupro! Ah! como eu odiava aquele Geraldo que viera danificar, sujar, a felicidade comum a todos daquela casa!
Eu precisava ter as coisas em pratos limpos. Eu sabia que todos deviam estar bem conscientes do que íamos fazer, pois havia o risco de cobranças e desavenças no futuro, e eu seria a principal responsabilizada. Eu não podia deixar qualquer marca de manipuladora, de influenciadora de pessoas pouco conscientes.Por outro lado, eu estava convencida da pureza do meu propósito, embora no fundo, ele repousasse no medo que eu tinha de perder Aline, simplesmente por não ter um belo pênis reprodutor, meu mesmo. Essa é que era a verdade, eu sabia. Mas, o sonho de uma criança querida, cuidada por todos nós, também era verdadeiro, e me manteve firme no meu propósito. Fui procurar Laís.
Encontrei-a colhendo ervas com Júlia, e pedi-lhe para conversar a sós, reparando num olhar e num pequeno gesto afirmativo, cúmplice, de Júlia que se afastou discretamente. Eu lhe disse, abraçando-a e segurando-lhe as mãos:
—Laís, querida, preciso do teu consentimento. Tu deves emprestar-me o Rôdo, para que ele fecunde Aline, que precisa de um filho meu, ou me abandonará. Provavelmente voltaria para aquele Pedro, seu ex, para ter um filho com ele, o que seria para mim uma tragédia. Tu compreendes? Não há nenhum outro propósito. Preciso do sêmen de um homem bom, puro e forte como só o Rôdo é, e no qual posso confiar. Eu lhe suplico, Laís, empresta-me o Rôdo, para isso, esta noite mesmo. Sinto que tem de ser esta noite, mágica, propiciatória. Olha esta lua, estas estrelas!
Laís ficou um instante estupefata, surpresa, mas logo se distendeu, sorriu e levando minha mão aos lábios respondeu:
—Alma, meu amor, é isso que me pedes? Eu faria muito mais por ti. Rôdo sabe? E Aline? Já aceitaram teu plano doido? Olha, que é bem original, mas é lindo, e... excitante! Sim, sim, percebo o alcance disso. Oh! querida, como és inteligente! Sim, sim, esta noite! Mas quero ver, quero estar presente, devemos estar todos juntos, será uma celebração do nosso amor. De nós quatro!
Eu quis morrer de felicidade com a reação positiva de Laís. Agarrei-a e cobri-a de beijos, às gargalhadas e gritinhos, rodopiando como duas gurias travessas. Eu estava plena, transbordante de amor. Minha alegria e meu amor se uniriam ao sêmen de meu irmão fecundando a minha Aline, que teria um bebê que seria legitimamente de nós quatro, que o planejáramos com tanto amor e desprendimento. O mais legítimo dos filhos!
Beijei mais vezes minha Laís, e corri então para o planejamento final, da cerimônia preparatória da fecundação, que seria presidida por Júlia, que já recolhia as ervas para isso mesmo.
Subimos as três ao sótão, e Júlia começou a queimar ervas num recipiente de metal. Fumigou o sótão, e desceu a escadinha de costas para defumar a cabana toda. Depois, subiu novamente e começou a colocar pequenos maços de ervas estrategicamente nos quatro pontos cardeais do quarto. Enquanto o fazia, recitava versos numa língua desconhecida, que me pareceu uma espécie de dialeto do alemão, arcaico. Eu estava impressionada e comovida, queria apreender aquilo tudo e planejei um futuro estágio com essa mestra da feitiçaria branca, benfazeja. Eu estava numa estranha euforia, que duraria aquela noite toda.
Júlia terminou a cerimônia propiciatória, colocando flores no quarto, não como enfeite, eu senti, mas como algo mais profundo e também em pontos determinados, e finalmente em cima da cama, esparzidas. O quarto todo respirava a fragrâncias de ervas e flores, mas de maneira suave, agradável, nada carregada.
Então Júlia saiu, e voltou trazendo dobrada, uma camisola branca, leve, parecida com uma túnica, e despimos Aline, que nua, tremia de emoção, não de frio, naquela noite quente, agradável. Vestimos, pela cabeça, aquela túnica em Aline que ficou linda, como uma donzela na sua noite de núpcias. Ligeiramente transparente, aquela veste insinuava o púbis delicado de Aline, com sua penugem negra, de uma forma irresistível, convidativa. Senti que o Rôdo ficaria louco de desejo por ela. Aliás eu já percebera seu desejo, discreto, em relação à Aline, há muito tempo. E naquela mesma noite, quando lhe fiz o pedido, ao abraçar-me, eu já percebera entre minhas coxas, sobre o vestido, o volume avantajado do seu pênis, que ficara imediatamente túrgido, com a perspectiva de tanto prazer para aquela noite. Os homens são assim...
Afinal, reunimo-nos todos, menos Júlia, que se retirara para levar, até o celeiro, uma manta para o Galdério, que dormiria ali sozinho, o pobre. Em seguida ela se recolheria ao seu leito.
Quase cerimoniosos, olhávamos uns para os outros. E então Laís deitou-se no colchonete estreito e eu deitei-me junto com ela abraçando-a por trás, mas olhando para o leito de Aline e Rôdo. Eu queria ver tudo, não conseguiria pregar os olhos, enquanto acariciava a cabeça de Laís, que fechou os olhos, sonolenta. Logo adormeceu, como uma criança aconchegada em meus braços.
Aline deitou-se, estava em seu período fértil, tudo tinha sido planejado e retirando a túnica, jazeu estendida, um tanto tensa, abrindo lentamente as pernas, olhando Rôdo nos olhos. Este despiu-se, e admirei mais uma vez, na suave penumbra do quarto, cuja janela aberta deixava entrar o fulgor da lua, as formas viris de meu irmão, seu corpo muito branco, em que só a cabeça e os braços eram bronzeados pelo sol do pampa. Seu membro, que sempre fora avantajado, estava imenso, em riste, como uma lança, um pouco ameaçador, eu achei, enquanto Aline o olhava fascinada, mas com um pouco de medo, eu percebi, dado o tamanho descomunal daquele instrumento. Rôdo foi descendo sobre ela, mas como homem experiente que era, deslizou suavemente por aquele lindo corpo, suas grandes mãos agarrando os seios de Aline, recobrindo-os inteiramente, enquanto mergulhava sua cabeça entre as pernas da minha amiga, que começou a suspirar alto, despertando Laís, que olhou fascinada Nós duas nos sentamos, então, como espectadoras, e ficamos assistindo, atentas a todos os lances.
Meu irmão tinha um profundo conhecimento da anatomia, das necessidades e preferências eróticas da maioria das mulheres. Ele titilava com a língua, hábil e incansavelmente o clitóris de Aline, cujo sumo abundante, já escorria de sua linda vagina rosada, sobre o lençol. Eu me erguera e acendera a luz para perceber tudo isso. Não poderia deixar escapar nada, nenhum lance. Percebi que Laís também queria assim, todos queriam assim, na verdade, às claras, como um sexo coletivo, como a celebração do amor e da fecundação que era de todos nós. Sentindo isso, Rôdo continuou, introduzindo sua língua nos dois orifícios rosados de Aline, que gemia cada vez mais alto, em múltiplos orgasmos, enquanto os sapos e grilos, lá fora, pareciam também aumentar seu alarido, os cães a uivar e a latir ao longe. Uma sinfonia tomava todo o ar, eu senti, e então, num mesmo impulso com Laís, nos precipitamos e agarramos o imenso falo de meu irmão e o conduzimos, com as mãos, diligentemente, insolitamente, para a fenda rósea de Aline que deu um grito de surpresa, de alegria e prazer, enquanto o macho glorioso, como um touro reprodutor da nossa estância, explodia seu sêmen viscoso, branco e abundante, na vagina da fêmea receptiva e também gloriosa. Então, caiu em seu peito extenuado enquanto eu e Laís, nos largamos, e embolamos sobre eles, naquele catre um tanto estreito, para adormecermos todos juntos e nus, enroscados, numa comunhão única, que talvez nunca mais se repetisse.

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Ao amanhecer, acordei novamente no chão, sobre o colchonete, enroscada em Laís, com minha coxa entre as dela, molhada de suor e de seus perfumados sumos. Creio que a possuíra durante uma parte da noite, durante muito tempo, mas não me lembrava bem, estando meio confusa. Olhei para o leito de Aline, e encontrei-a só, adormecida. Então subi no catre, sem despertá-la, e ajoelhada ergui seus quadris, colocando seus tornozelos nos meus ombros, e levantando-a mais e mais, fiquei com sua vagina próxima do meu rosto, ela praticamente de cabeça para baixo, a bacia bem erguida. E assim fiquei durante uma hora inteira, ela adormecida naquela posição, enquanto, eu, distraída, cantarolando uma antiga canção de ninar, auria o perfume híbrido de sua vagina repleta do sumo fecundante do meu irmão. Eu estava louca? Não! Meu poderoso instinto me dizia que era preciso fazer aquilo. O sumo branco de Rôdo tinha que ser ajudado a descer, até a abertura do útero da minha amada. Eu sentia que devia fazer isso, ajudar... não sei por quê. Puro instinto, ou desejo de controle, total, de tudo? Jamais saberei. Obscuros são os desígnios do nosso inconsciente profundo, do leito insondável daquele rio subterrâneo da alma que nos conduz a nós mesmos, às nossas raízes mais profundas, ancestrais. Eu sentia que já tinha feito tudo aquilo em uma época remota, como escrava de uma rainha talvez pouco fértil; uma memória vaga daquilo me assomava a consciência, como o último sonho do despertar da manhã.
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Ao descermos, Aline, Laís e eu, com as roupas de cama, sujas, nas mãos, com o intuito de lavá-las no ribeirão, e enfim, para o café da manhã e para o banho de despedida, encontrei Rôdo e Galdério, no jardim, lidando com o carro, preparando-o para a viagem, enquanto sorviam um chimarrão cada um. Júlia saudou-nos carinhosamente abraçando-nos demoradamente e sussurrando coisas nos nossos ouvidos. Essa mulher maravilhosa disse a coisa certa a cada uma, que sentíamos que devíamos manter em segredo. A que me coube, só revelarei no final desta narrativa. Depois conduziu-nos ao ribeirão onde nos desnudamos, lavamos as roupas de cama, que ostentavam lindas e cheirosas nódoas (que aspirei longamente, antes de mergulhá-las no rio), banhamo-nos em águas um tanto frias, austrais. Isso nos deixou despertas e animadas, brincando de jogar água umas nas outras, aos gritinhos como crianças, logo correndo, peladas pelas margens, fugindo umas das outras, até que Júlia chegou com toalhas e nos envolveu e esfregou, aquecendo-nos. Jamais esquecerei a beleza e a delícia desses momentos. Serviu-nos, então, para nos aquecer, um maravilhoso vinho que não soubemos de onde veio, e sobre o qual ela fez segredo. Senti que era um brinde que ela nos fazia pela nossa maravilhosa e estranha noite. Ela disse, com surprendente humor, e erguendo sua taça:
—A vosmecês, gurias! Meu marido francês dizia:
“ La vie est belle, les femmes sont chères, et les enfants... faciles a faire!”
Caímos numa imensa gargalhada
Após o delicioso café da manhã, com tortas, bolos e geléias caseiras feitas por Júlia, chegou a hora da despedida. Júlia mais uma vez abraçou a cada um, menos Galdério, talvez por hierarquia, mas ao qual presenteou com uma faca gaúcha de churrasquear, que fora de seu marido, coisa que muito o honrou. Galdério a colocou na cintura e disse-lhe: “Buenas, senhora, pode contar com este peão, para o que der e vier”.
Afinal partimos, já com saudade daquela choupana deliciosa, para onde eu sentia que poderia voltar, que seria feliz e acolhida ao seio por uma mulher de imensa maternalidade, integral, telúrica, antiga como este pampa, cujo sangue da terra lhe corria nas veias, embora fosse germânica, francesa alsaciana, celta e... druidisa perdida no tempo.

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Estamos, já há uma semana, em casa. E a vida parece ter retomado seu fluxo normal, com o nosso cotidiano de pequenas alegrias e prazeres, mas também de discreta expectativa, subjacente em todos nós, sobre a gravidez de Aline. Ainda não temos a confirmação, talvez seja um tanto cedo. Precisamos esperar para ver se a sua próxima menstruação não vem. Mas eu acaricio a sua barriga, tanto quanto ela mesma, que já ostenta um olhar terno e sonhador, lindo de se ver. Percebo também que ela olha de soslaio, embora distraidamente, para Rôdo. Ela deve ter gostado muito de ser possuída por ele, mesmo daquela maneira, coletiva, sem intimidade, por assim dizer. Quanto a Rôdo, a mesma coisa: ele a olha disfarçadamente, quando Laís está por perto ou junto dele. Queria que não precisasse ser assim, e que nos considerássemos todos uns dos outros, para sempre, e que aquela nossa experiência não fosse alguma coisa isolada, de exceção.
Confesso que ter visto, assistido e até participado da fecundação de Aline, foi para mim algo imenso, ousado e excitante. Eu amei aquilo, e não quero jamais me arrepender... quero dizer, não suportaria perder de alguma forma Aline por causa daquilo. Aline se apaixonar por Rôdo, de uma maneira mais forte, mais profunda, do que está apaixonada por mim? Não, não posso pensar nisso. Não posso pensar na idéia de ela deixar de me amar, ou de estar apaixonada por mim, como eu por ela. Meu plano tem que dar certo. Tem que dar certo.
Às vezes, temo que eu tenha sido manipuladora, e que o Destino, ou Deus, me puna por isso, embora eu não veja pecado, crime ou culpa em meu plano. Uma inseminação artificial seria uma coisa hipócrita, em relação a uma pessoa como eu, e com uma relação como a minha com meu Rôdo e minha Aline. Então porquê penso isso? Creio que a minha imaginação literária, de poeta, se antecipe sempre aos fatos e relacione tudo com tudo. Tavez minha crença em destino, contribua para isso, embora eu tenha muito medo de perder a minha felicidade, e de uma verdadeira tragédia acontecer em minha vida. Vocês, leitores, já repararam que nem o estupro, a prisão, a humilhação sexual, e a flagelação frente a testemunhas, representaram uma verdadeira tragédia para mim, embora tenham me feito sofrer muito e derramar muitas lágrimas. Mas creio que nada disso atingiu o cerne da minha integridade, nada disso foi capaz de diminuir meu imenso amor próprio, ou, até mesmo, o meu orgulho. Pode até parecer “machismo” o que vou dizer, mas parece que o fato de ser mulher me tenha feito absorver ou tolerar tais humilhações, que se fosse homem, me teriam destruído. Talvez séculos de violências e invasões tenham nos tornado, a nós mulheres, paradoxalmente, mais íntegras e menos destrutíveis pela violação, freqüentemente cotidiana, imposta a nós pelos homens. Mas, também pode ser que isso se deva a minha natureza de poeta, de artista, que me faz ser tão auto- condescendente com tudo que não atinja o cerne de minha arte, que na verdade me parece mesmo indestrutível, por ser a própria alma.
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Minha avó alemã tinha muito de feiticeira, coisa comum entre as camponesas de sua região natal. Lembro-me de que sua figura me impressionava, e nem sempre positivamente. Meu pai, naqueles dias de recém chegada de Novo Hamburgo, para morar definitivamente na estância de meus avós, mostrou-me, creio que não por acaso, uma reprodução num de seus livros de arte, de um desenho de Hans Baldung Grien (1480-1545), pintor renascentista alemão, que representava magnificamente, de maneira muito viva e dinâmica, três bruxas nuas, sendo duas jovens e uma velha, todas de longos cabelos, uma delas de pé, frontal, com um penico fumegante ou mesmo em chamas, erguido na mão, bem alto e com um pé nas costas da outra, também jovem, esta apoiada num só joelho, e contorcida, no chão. Pois bem, a velha bruxa, cujo sexo, flácido, era mal disfarçado pela posição da perna da jovem, era o retrato fiel de minha avó camponesa, e fiquei ainda com mais medo dela depois de ter visto esse desenho. Mas o que estariam fazendo as três bruxas nuas, naquelas atitudes, de dança macabra ou ritual lúbrico, captado pelo olhar onipresente do artista? Sim, porque a conotação sexual, erótica, era evidente no desenho, na nudez daquelas mulheres, captadas com realismo e em movimento frenético. Obras como essa me deram, muito cedo, uma consciência precoce da profunda natureza erótica e animal das mulheres, feitas para o sexo, e para reprodução, e que tanto mais belas quanto mais conscientes disso, ou assumidas, se tornam. Por isso mesmo, eu me fascinei muito cedo pelas mulheres livres, pelas cortesãs e prostitutas míticas da história, procurando seus mitos e biografias na biblioteca de meu pai: Lilith, Frinéia, Safo de Lesbos, Cleópatra, Messalina, Taís, Bianca Capello, Lucrécia Bórgia, Artemísia Gentileschi, Lola Montez, Gaspara Estampa, Adèle D’Affry (a duquesa Castiglione-Colonna), Florbela Espanca, e tantas outras. Muitos anos mais tarde, recentemente, meu descobridor e prefaciador paulista, o poeta, pintor e desenhista Guilherme de Faria, mostrou-me um desenho de sua autoria, feito quando era muito jovem, a bico de pena, que também representava de maneira magnífica e igualmente dinâmica uma cena similar, de dança lúbrica de feiticeiras, que faço questão de reproduzir aqui, embora seja tenebroso.
Mas, é claro, sempre temi o lado escuro da alma, e procurei me manter distante de toda obscuridade ou malignidade, de uma maneira quase supersticiosa, quero dizer, com receio de que essas coisas pudessem vir até mim, por elas mesmas, atraídas justamente pela minha luz, minha beleza e minha pureza ( me perdoem a imodéstia dessa colocação). Sim, porque naturalmente, na infância, eu amava a Branca de Neve, a Rapunzel e a Cinderella, como a maioria das meninas, mas mais do que isso, eu me identificava com elas, acreditando mesmo, ser a minha história verdadeira, a da minha alma. Minha mãe deixava, ou melhor, fazia questão que eu usasse os meus cabelos louros arruivados, muito compridos, até a cintura, de maneira já demodée, entre as meninas da época, mas que todos achavam lindo. Além disso, havia a tendência de me embonecarem em vestidinhos de princesa, igualmente fora de moda. Não admira eu ter crescido assim, com este ego desmesurado, e um tanto mimada, que não obstante, me conduziu para uma atitude amorosa reverente e apaixonada para com os eleitos do meu coração. Quando amo, torno-me até mesmo subserviente, colocando o objeto amado acima de mim, e não na mesma altura, embora não se possa dizer que eu sofra de baixa auto-estima, ou seja propriamente uma co-dependente, conceito bastante atual, cuja sintomatologia vem sendo bastante estudada nos dias de hoje. O que significa isso? De onde virá essa paixão, cuja nota secreta, masoquista, já me surpreendeu tantas vezes? Não consigo deixar de pensar, por exemplo, nas palavras de Júlia, quando me revelou, en passant, que surpreendeu-se ao examinar, quando cheguei desfalecida em sua casa, “minhas partes”, quer dizer, minha vagina, constatando estar ela inundada de fluido, evidenciando prazer ou preparação para o prazer. Eu acabara de ser açoitada, e a dor e o medo pareciam ter preponderado, mas... terei, então, sentido prazer naquele imenso sofrimento físico de um momento? Tenho medo de mim mesma... No entanto, esse lado obscuro, que sinto em mim, não chega a me envergonhar, o que não deixa de ser surpreendente, embora compreensível, dada a perturbadora escolha da minha alma, no terreno sexual, profundo. Mas, por outro lado, isso não se dará com quase todas as mulheres, de maneira não assumida ou consciente, como, ao contrário, acontece comigo?

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Laís decidiu ir à Porto Alegre para visitar seus pais. Disse que voltará logo, e, na partida, depois de muitos braços, beijou-me demoradamente na boca, na frente de Rôdo, que apenas sorriu esperando no seu novo carrinho esporte, um Jaguar, para levá-la até à estação de trem. Aline e eu ficamos abraçadas olhando o carro partir, e depois fomos andar no jardim, sob o calor delicioso daquele dia ensolarado, depois de eu colocar meu grande chapéu de abas largas, pois quero manter a minha pele sempre muito branca, sem sardas, coisa que consegui até hoje, surpreendentemente, num lugar tão claro e luminoso como este nosso pampa.
No meio das flores, de mãos dadas, Aline virou-se para mim, e com certa brejeirice, exclamou;
—Agora você será só minha por uns dias, não é mesmo, Alma? Vamos aproveitar e você vai me contar o que aconteceu, realmente, no seu seqüestro, salvamento, sua relação com a Júlia, e com o bandido que a salvou. Conheço você, Alma. Eles também passaram pelo seu leito? Conte-me tudo, não me esconda nada, sua feiticeirinha!
Aquilo me surpreendeu agradavelmente. Eu poderia contar tanta coisa para Aline, e talvez conseguisse conscientizar, ao fazê-lo, certos pontos que eram obscuros para mim mesma. Eu respondi:
—Aline, minha linda, esta noite, no quarto, eu te contarei tudo, e tu poderás me julgar, pois só tu sabes fazê-lo com profundidade e sem me ofender. E se quiseres me dar uns tapas no bumbum depois de tudo, eu aceitarei humildemente. Mas lembra-te que, sou mãe do teu filho tanto quanto tu, hem? Por falar nisso, como vai esta barriguinha?
Aline agarrou-me ali, no meio das flores e beijou-me nos lábios apaixonadamente, enquanto meu coração transbordava de amor e alegria. Quem poderia nos fazer mal, se tínhamos tal cumplicidade? Mas subitamente, meu coração se nublou por uma fração de segundo, pois a essa pergunta interna, intrometeu-se a imagem detestável de meu cunhado bandido, cujo corpo não foi encontrado, nublando com isso a plenitude da minha felicidade com minhas criaturas queridas. Mas, nesse instante, as crianças, qual alegres abelhinhas, nos rodearam puxando-nos a saia, e Patrícia veio dar-nos as mãos para passearmos juntas entre as flores, distraindo e liberando novamente o meu coração.
Começamos todos a colher flores e a tecer rapidamente guirlandas para enfeitar nossos cabelos, entre risos pueris e exclamações enternecidas. A beleza tinha voltado novamente aos nossos dias, e nada poderia despojar-nos dessa nossa inclinação natural, legítima em nós. Éramos criaturas puras, com direito à felicidade, que nada devíamos mais a reencarnações passadas, embora no que me dissesse respeito, eu não pudesse ter absoluta certeza disso, pois tinha sido recentemente fustigada, e parece-me que isso sempre consiste numa punição. Não há injustiça no mundo.
Eu disse para Patrícia, num momento:
—Querida, tu precisas me contar, qualquer hora, como vai o teu namoro. Ele já te beijou? Vais contar-me tudo, e eu te prometo que não te darei conselhos, só ouvirei e aplaudirei, a menos que me peças. Está bem?
Patrícia, mais linda do que nunca, ninfeta no esplendor e talvez auge de sua beleza de Psiqué, me enternecia, e até me comovia, lembrando-me de mim mesma naquela idade, embora eu não fosse tão naïve como minha sobrinha, por culpa talvez dos livros, que eu devorava, enquanto minha sobrinha quase nada lia, pois não tivera um Vati como eu.
Assim, ficamos naquela suave dança, por uma hora, até Matilde chamar-nos para o almoço.

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Passadas três semanas, afinal comprovou-se a gravidez de minha amiga, através de um teste de farmácia, e o sucesso foi comemorado por todos nós, com grande alegria e brindes com o nosso melhor vinho. Todos acariciamos a barriguinha de Aline e as crianças fizeram uma pequena fila jocosa, para beijar o seu umbigo, em meio a muitas risadas e exclamações. Os votos das crianças ao seu novo priminho ou priminha, eram deliciosos e comoventes. A felicidade desses momentos atestavam desde já o acerto de minha idéia e decisão.
Rôdo olhava Aline com novos olhos, claro, e a colocação de sua bela mão, forte, masculina, sobre o seu ventre a comoveu, deixando-lhe os olhos marejados, coisa que não aconteceu ao meu toque. Confesso que isso me preocupou um pouco. A relação de uma mulher fecundada com o macho fecundante seria mais forte do que a nossa relação de amor e afinidade de mulheres? Comecei a temer que sim. Mas a sorte estava lançada e eu não podia conceber que Aline me tirasse a criança ao nascer, meu direito a ela, para atribuí-lo todo ao pai biológico que era Rôdo. Sim, havia o risco, pois a cabeça podia mudar, com a revolução hormonal que estava acontecendo naquele corpo querido.
Entrementes eu tratei de aproveitar aquela espécie de intermezzo em nossas vidas, para pintar e escrever muito. Muitos poemas nasceram naquele intervalo, e eu me sentia criativa e feliz. Mas devo contar um episódio significativo daquele período.
Rôdo gostara tanto da sua experiência de transar com Aline que, naturalmente quis repeti-la. O mesmo pode-se dizer em relação à minha amada. Eu dormia com Aline no nosso grande leito, cama de casal maior até que o normal, como gosto, quando uma noite, senti uma presença no escuro dentro do quarto. Por incrível que pareça não me assustei, pois tive imediata certeza de que se tratava de Rôdo. Porque não pensei primeiro numa das crianças com medo ou carência de mãe metendo-se quase sonanbulicamente em nossa cama, como ocorria às vezes? Não sei, o fato é que na total escuridão do quarto, eu não quis ou não me atrevi a acender a luz e senti a presença de um corpo adulto que descia sobre a minha companheira enquanto eu imóvel, controlava a respiração, para não deixar passar minha emoção e parecer adormecida. Senti o cheiro adorável de meu irmão que penetrava Aline tentando controlar a sua própria respiração, o que nitidamente era difícil diante de seu imenso prazer e emoção que eu sentia ali, do lado, quase encostada neles. A cama começou a balançar e logo estavam os dois gemendo e resfolegando até eu sentir um tremor súbito que denunciou o duplo orgasmo. Triplo, eu deveria dizer, pois logo em seguida eu própria tive o meu, pela tensão erótica daquela situação inusitada e maravilhosa. Passados alguns segundos ouvi um estalido de um beijo rápido nos lábios, e a sombra deslizou e retirou-se do quarto. Então coloquei como sempre fazia, minha mão no sexo de Aline, como um movimento casual, e ela, imóvel, suspendeu a respiração, eu percebi. Sua vagina estava inundada do esperma adicional de meu irmão, como o “reforço” que ele queria deixar, expressão que ele usaria, cinicamente, e que me fez rir muito no dia seguinte. Mas, naquela noite eu dormi abraçada a Aline, degustando em minha mão, o cheiro maravilhoso dos fluidos dos meus queridos, e essas sensações, eu sei, muito pouca gente deve ter fruído neste mundo.

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No final de novembro as aves migratórias retornavam ao Pampa para acasalar e construir seus ninhos, enquanto os pequenos gaviões e corujas predavam a esmo diante de tanta fartura. Eu observava os movimentos na terra e no ar e uma nostalgia persistia em mim, como nunca. Eu esperava tanto daquela criança prestes a nascer, e mimava a minha Aline, com seu lindo barrigão, que a deixava linda, com movimentos mais suaves e delicados. Ela não andava de pernas abertas como uma “pata choca”, como costumam dizer de algumas mulheres grávidas. Não, Aline, continuava linda e suave, e eu sabia que sua criança, nosso filho, seria tão bela quanto ela e Rôdo, que estava na Europa com Laís e mandava cartões postais engraçados e carinhosos, para mim, Matilde, Aline, as crianças, e até para o seu filho que ele prometia assistir nascer, embora eu duvidasse um pouco disso. Laís o reteria, lá, eu pressentia. Tinha medo de perder seu homem, essa é que era a verdade. Ela conseguira manter segredo sobre a sua violação, com medo de perturbar sua relação com meu irmão. As mulheres são assim, eu que o diga, que demorei tanto a contar à Aline sobre o meu próprio estupro.
Afinal chegou o grande dia, e a casa se movimentou, como outrora, no tempo dos meus avós, com as mulheres se azafamando, com água quente, e toalhas limpas, desinfetadas, de um lado para outro da cozinha para o quarto, em meio aos gemidos e gritos de Aline, que talvez por influência minha aceitara ter um parto normal como sempre fora tradição na nossa casa, como, aliás, no pampa em geral: à maneira antiga, orquestrada pela parteira, que era a nossa Matilde, que fizera o parto de Rôdo, há quase trinta anos atrás.
Aline gritou e gritou, até todos nós suarmos frio, menos a experiente parteira, é claro. Mas Marco nasceu, com o nome do avô querido de Aline, Marcantonio de Marco, que assim era chamado, embora eu preferisse o nome de Werner, de meu pai. Era um bebezinho adorável e eu o senti meu filho imediatamente, que o recolhi nos braços, diretamente da vagina muito aberta de minha amada, que sangrara a ponto de eu me preocupar. Matilde tomou-me a criança dos braços e foi lavá-la em água morna fervida, numa grande bacia ali e ao lado, enquanto ressoavam todos aqueles oh! pelo quarto, cheio de mulheres. Sim porque fiz questão que minha sobrinha Patrícia assistisse tudo, para se tornar mulher, um pouco mais, e conhecer a bela crueldade da vida e da carne. Ela diria mais tarde que estudaria medicina, o que me surpreendeu. Poucas coisas na vida são mais cruas e impressionantes do que um parto. Talvez somente a dor da morte, e o estupro dos inocentes. Mas a disposição das pessoas é um tanto diferente, e o alívio geral, subseqüente, quando cessam aqueles gritos primais, os mais pungentes da vida, é próximo do orgasmo.
Começava então, mais um lindo período em nossa vida, e olhando o rostinho de Marco em meus braços, eu me congratulava comigo mesma por ter tido aquela idéia. Um bebê em nossa casa, depois de tudo, de salvarmos nossa estância, era a verdadeira celebração, e também a renovação de uma família que me parecia um tanto decadente, depois da morte do Vati, e mesmo de Solange. A propósito, eu percebia que, de um jeito ou de outro, coubera a mim, já há algum tempo, a liderança daquela família, dadas as ausências prolongadas de meu irmão. A mim, ironicamente, a artista doida da família, já que Lúcia sempre fora um tanto apagada e neutra, embora um enorme coração, mais prático que o meu.
Aline amamentava o nosso bebê ao seio, uma das coisas mais lindas da natureza. E seus seios pequeninos tinham se tornado enormes tetas, abarrotadas de leite como a das mammas italianas. Ela emagreceria novamente um dia? Seu sangue italiano, vêneto, se manifestara naquela exuberância, e eu me admirava daquela transformação, numa nova forma de beleza, percebendo quanto a natureza é sábia e adaptável. Eu experimentava colocar, por experiência e também por volúpia, o bebê com a boquinha em meu seio, pequeno de bico rosado, para vê-lo e senti-lo sugar, mas Aline logo me retirava Marco dos braços, dizendo: “Ah! Vem, filhinho, deixa essa tetinha seca pra lá, e vem mamar de verdade na mamãe”; e eu sentia que ela, consciente ou não, queria me ferir.
Comecei então a perceber que eu teria, como um trabalho de Sísifo, de reconquistar Aline, ou conquistar aquela nova mulher, mãe ciumenta, que aparecera, e que estava se distanciando de mim, sutilmente. Isto ficava cada vez mais difícil, e eu temia que Aline começasse a me odiar, por achar, surpreendentemente, que não tinha uma verdadeira família, pois sua mãe não se manifestara, praticamente renegando-a, lá de São Paulo, e Rôdo não aparecera para o parto, o que mais lhe doía. As coisas estavam ficando difíceis. Eu continuava cobrindo todos de ternura e amor, mas sentia a reação cada vez mais irritada de Aline, àquela minha maternalidade difusa. Eu me perguntava, com o coração apertado, se iria perdê-la em breve. Eu precisava que Rôdo viesse urgentemente, e se assumisse como pai, ou iríamos perder Aline e o bebê que partiriam, nos abandonando, eu senti. Afinal, que tinha Aline verdadeiramente com aquele pampa, ela que viera do Brás, e era urbana, até a raiz dos cabelos?
Mas diante daquele bebê eu me recusava a reconhecer que tinha cometido um erro. Eu sonhara, muito alto, muito idealisticamente, sem levar em conta as profundas raízes das pessoas, e do instinto fundamental da maternidade, da fêmea nutris e do macho provedor. Eu contrariara a natureza? Comecei a suspeitar que sim.
Então, Rôdo voltou, afinal, com grande atraso, acompanhado de Laís. Aline o recebeu com o semblante carregado, com lágrimas nos olhos, atirando-lhe imediatamente uma escova do bebê em sua testa, ferindo-o ligeiramente. Meu irmão sorriu meio sem graça e nada disse. Aquela era uma família que corria o risco de ser classificada como “desfuncional”. Não conseguíamos suprir os profundos anseios de “normalidade”, instintivos também, devo reconhecer, em Aline. É claro que o bebezinho florecia, alheio a tudo aquilo, e quando Aline passeava com ele ao colo, no nosso magnífico jardim, eu me reconciliava com a minha idéia inicial, diante daquela visão de paz e beleza privilegiada, sabendo que no Brás nada daquilo existiria, e que Aline levaria isso em conta, e não nos retiraria a criança roubando-nos o novo sonho.
Rôdo, depois dessa recepção, ficou um tanto arredio, pois nunca suportou ser cobrado por nada, em sua vida, prezando demais sua independência. Para ele ficou claro que Aline queria dele uma responsabilidade de pai, uma presença constante, a partir do próprio parto de seu filho, a que ele não comparecera. Chamou-me na biblioteca para desabafar comigo:
—Alma, o que está acontecendo com Aline? Está começando a se comportar como uma burguesa cobradora. Lembra-te da Solange? Pois é! Aquilo! Não suporto isso! Nunca prometi nada, a não ser registrar meu filho e aparecer de vez em quando. Vocês mulheres, tão maternais, que criem o bebê, e eu dou uma supervisionada, por cima, para que nada falte! Estamos combinados? Gostava mais dela quando só queria meu esperma!
Quase dei uma bofetada em meu irmão. Aquela última frase passara do ponto e soava quase cafajeste, não fora a franqueza absoluta e o cinismo sincero e corajoso que era a marca do meu irmão, que eu costumava apreciar. Mas respondi, pondo panos quentes:
—Rôdo, meu querido, não leve em consideração a atitude atual de Aline. É uma atitude pós-parto, com algum atraso. Ela se magoou por não teres vindo para assistires o nascimento do teu filho. As recém-paridas ficam muito sensíveis e precisam da proteção do macho. Isso é uma exigência de seu inconsciente profundo, de sua ancestralidade. Talvez do tempo das cavernas, quando um grande urso ou um tigre de dentes de sabre poderia entrar pela abertura. Nós mulheres continuamos com dificuldade para manejar o tacape, que nos parece muito pesado. Tu sabes...
Rôdo riu e me abraçou, já descontraído:
—Alma, Alma, continuas a mesma, sempre com as tuas metáforas, ou com tuas anedotas poéticas. Eu te adoro, sabias? Contigo sim, eu queria ter um filho, desde criança. Mas sei que nasceria um monstrinho, por todas as razões, não é mesmo? Que pena!
Dei-lhe um tapinha no rosto e nos abraçamos de novo, ficando muito tempo assim olhando-nos nos olhos e dando beijinhos na boca como dois namorados, até sentir o grande falo de meu irmão erguendo-se lentamente entre minhas coxas, quase arrepanhando-me as saias. Então, a custo, balançando a mão, com um assobio, e dando uma risadinha meio constrangida, bati em retirada.
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Aline durante algum tempo chorava por qualquer coisa, estava hipersensível, mas ao mesmo tempo feliz com o nosso bebê. Eu a cobria de carinho, a ela e ao nosso Marco, criança linda e risonha, cujo semblante revelava paz e conforto, de um modo geral, embora tivesse suas pequenas crises eventuais de cólicas pelo leite, ou qualquer outro fator imponderável, que nos deixava a todos atormentados e aflitos, principalmente Aline, como mãe. Mas isso tudo era normal, e a vida na estância transcorria agradável, pois todos nos gostávamos profundamente, e estávamos conscientes disso. Gostar é ótimo quando se ama. É uma palavra que revela afinidade e tolerância. Minha amiga estava realizada, na verdade, com seu bebê, e foi amansando diante da nossa complacência, e aos poucos voltou a ser aquela Aline adorável, de ótimo temperamento, que me conquistara desde o primeiro dia, quando chegou no meu estúdio, contratada por mim, para posar para os meus quadros, na verdade para suprir minha própria carência e solidão dos primeiros tempos no meu auto-exílio paulista, como já contei no livro “Contos da Alma”, no conto que leva o nome dela, e no meu primeiro ciclo de Sonetos.
Mas mesmo assim, diante da maternidade poderosa de Aline, eu me afastei um pouco e voltei a ser a artista solitária, fazendo longos passeios sozinha, como se fosse o macho da caverna, com a diferença que trazia dessas excursões, pequenas flores dos prados, ou pedrinhas graciosas, como presentinhos para o Marco. Na verdade eu me sentia supérflua diante do bebê, e mesmo de Aline. Talvez nosso ciclo e minha missão tivessem terminado. Comecei a pensar assim.
Rôdo fora novamente viajar, e desta vez, Laís não quisera acompanhá-lo. Ela alegara simplesmente cansaço de tantas viagens. Na verdade Laís se tornara mais frágil e assustada, depois daquela grave ocorrência, que ela continuava ocultando de Rôdo e que, recalcada, minava o seu relacionamento. Percebi também que ela queria ficar comigo, como se apesar de tudo, se sentisse mais protegida ao meu lado. Essa guria me amava, e começou a ficar gradativamente mais presente em meus pensamentos que a própria Aline. Eu também a amava. Com a chegada do verão recomeçamos a tomar banho juntas e a fazer longos passeios. Ela voltou a querer dormir comigo, na minha cama, o que fez uma noite, sem cerimônia, saindo do seu quarto e sorrateiramente metendo-se nua sob meus lençóis como há tempos atrás. Aline não ocupava mais o mesmo quarto que eu, com o berço do bebê, pois acordava de madrugada para dar de mamar. O caminho estava livre para Laís, embora nos primeiros tempos tivéssemos desfrutado de uma gloriosa ménage-a-quatre, que agora não era mais possível. Tudo são ciclos.

FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO DE "O SANGUE DA TERRA"

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Alma Welt

O Sangue da Terra


(Capítulo terceiro)

“O Condestável Gottfried”


O condestável Gottfried suspendeu a caçada, entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez galopou de volta ao castelo.
O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada, o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a por fora, à chave.
Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque.
Minha avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim, de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”, como os criados e camponeses acreditavam.
De qualquer maneira, qualquer que tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada.
Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro, sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência, não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a toda vida do homem sobre a terra.
Entretanto, apesar do caráter picaresco daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro, e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a narrativa:
—Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável. Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha, brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, afinal.
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Eu me dividia entre os cuidados à Aline e ao bebê, que precisavam de mim, como mãe, e à Laís como nova amante, eis a verdade. Aline via que Laís passara para o meu quarto e para o meu leito, de uma vez, mas conformou-se depois que eu lhe disse:
—Aline, querida, não quero ciumeiras e disputas entre nós três. Lembra-te quando eu te dividia com o Pedro? Pois bem, agora tu me divides com Laís. Podemos ser felizes todos nesta casa, se jamais cultivarmos os vícios burgueses de exclusividade e egoísmo. Lembra-te que somos criaturas de exceção! Sou uma artista e não perco tempo e energia com disputas e ciumeiras. Lembra-te, esse é o nosso pacto, desde o início da nossa relação. Minha querida, eu nada te roubarei, do amor que sinto por ti e pelo bebê. Se pudermos voltar a reunir-nos todas no mesmo leito, como naquela noite, que glória será, não é mesmo?
Aline, então, abraçou-me e beijou-me apaixonadamente, como há muito não o fazia.
Entramos, depois disso, num novo período feliz, quando nossa sensualidade chegou ao auge. Eu tinha as duas, novamente no meu leito e freqüentemente dormíamos, as três, abraçadas na larga cama que instalei no quarto de Aline para vigiarmos o bebê ou acordar quando ele chamasse com seu choro, para as mamadas. Mas confesso que fazíamos isso apenas alguns dias por semana, pois acordar toda a noite com o choro do bebê me deixava exausta. Nesses dias, quando isso acontecia, eu levantava-me antes de Aline, que ficava preguiçosa com minha presença ali, para fazer o bebê calar, pondo-o para sugar o meu seio, que aos poucos começou, talvez por somatização, a secretar uma espécie de colostro, que aliviava o bebê por um minuto, antes dele novamente manifestar sua frustração e fome, mas dando tempo para Aline conseguir erguer-se da cama. Mas isso, desta vez não produziu mais ciúmes em Aline, que ficou, surpreendentemente enternecida. Mas a primeira vez que isso aconteceu, vendo aquele arremedo de leite escorrer dos meus seios, eu fiquei um tanto abalada, pois veio, de repente, à minha mente uma memória profundamente recalcada, que nunca revelei antes nos meus textos, mas que resolvi fazê-lo agora: minha filha perdida, Psiqué, morta com menos de dois meses de nascida, fruto do meu amor por Gino, o violinista, filho do “maestro liutaio” Bertellazzi,, e do qual contei nossa história na novela “Narciso”, da “Trilogia Mítica”, inédita, e que termina com a descrição do meu parto. Nunca quis mais falar disso, que me fez chorar por um ano inteiro antes de procurar, afinal, alguém para amar, para me salvar, e que veio a ser justamente Aline, que escolhi a dedo num cadastro de modelos, por ser mulher, bela e modelo nu de pintores, como narrei nos meus “Sonetos da Alma”, e depois no conto “Aline”, já publicado.
Como dizia, meus seios, apesar de pequenos, ficavam doloridos e vazando esse líquido estranho, que não chegava a ser nutriente, para o pobrezinho do Marco. Esse fenômeno, perturbador, no início, e logo enternecedor, não durou muito, naturalmente, mas fez-me novamente desejar, por minha vez, ter o meu próprio bebê. Só que eu não podia confiar em homem nenhum e não podia contar com Rôdo para isso, naturalmente. E eu comecei a devanear, com a idéia de voltar a ser mãe, a gestar, mesmo, dentro da minha própria barriga.
Mas muita água teria que correr antes disso ser novamente possível.

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A avó Frida continuou a contar, durante um período, a pedido meu, as histórias do Condestável Gottfried e da sua pobre esposa inglesa Lady Margareth, que para o resto de seus dias foi possuída somente pelo fiofó, e a seco. É claro que com o tempo, ela também, somaticamente começou a secretar um fluido lubrificante, por ali, o que amenizou as coisas para a coitada. Minha avó ria tanto quanto eu com aquela estória, que desconfio que ela tinha inventado inteiramente, e começo a suspeitar que foi dela que herdei minha imaginação literária, e meu humor satírico, que não exploro muito, mas já denunciado por alguns.
Verdadeiro ou não, não importa, o mais incrível quanto àquela lady, foi ela ter tido muitos filhos, depois daquele primeiro entregue aos camponeses; e pelo fato de que as coisas não se repetem sempre da mesma maneira, a tal teoria do escorrimento de sêmen, não colava mais, o que nos faz deduzir que o responsável por aquelas inseminações continuava sendo o desconhecido amante de Milady, que não parecia nominalmente na estória e cuja identidade permanece um mistério. O fato é que o duque passou a ter uma fama de sodomizador emérito, a quem as mulheres, que tinham dificuldade de conceber, recorriam em peregrinação, vindas de longe, de outros castelos. Na tardou a começar a receber também camponesas, e por isso foi considerado muito caridoso e magnânimo, sendo que essas criaturas mais rudes freqüentemente eram trazidas pelos seus próprios maridos estéreis, e nessas ocasiões eram recebidas no celeiro do duque, sobre a palha, para que o cenário e o leito adequado as ajudasse a conceber.
Diante da minha divertida estupefação, afinal, de guria de doze anos, minha avó revelou o segredo daquilo. Tudo não passava de um truque do duque que amava aquela modalidade, a de Sodoma, e fazia parceria com o amante de sua mulher, já que ele mesmo era estéril. Com isso, as mulheres saíam coniventes com o truque, para poderem se vangloriar, depois, da estirpe nobre de seus rebentos, pois o cavaleiro anônimo era de fato plebeu, camponês mesmo, mas bonitão e de impressionante virilidade e fertilidade, possuindo uma ferramenta estupefaciente e abismal.
Louvado seja Deus que inspira no homem soluções para todos os problemas!
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Com as crianças nos rodeando, felizes, nós três, Aline Laís e eu, tínhamos a nossa ménage, que não escondíamos delas, confiantes de que a nossa pureza e autenticidade não destoariam, naquele contexto familiar inusitado, mas profundamente saudável, que construíamos instintivamente. Quantas vezes, as crianças invadiam nosso quarto, de manhã bem cedo, subindo na nossa cama, onde estávamos, as três, ainda mal despertas, nuas sob os lençóis! Patrícia, por emulação, querendo se sentir mais próxima e também mais mulher, às vezes entrava debaixo dos lençóis conosco, o que me produzia um ligeiro escrúpulo, que eu tratava de disfarçar. Afinal, nós três, mulheres feitas, éramos amantes mesmo, parceiras sexuais bastante assumidas a essa altura, o quanto é possível sê-lo, no ambiente provinciano de uma estância, no extremo sul desse nosso país preconceituoso.
Se Rôdo estivesse aqui, provavelmente estaríamos formando o nosso quatrilho, como há algum tempo atrás. O importante era sentirmo-nos felizes e irmanadas, exercitando a sensualidade pura dos nossos jovens corpos, saudáveis e belos. Nós nos sentíamos como jovens espartanas ou atenienses, e queríamos brincar no nosso jardim florido, totalmente nuas, no meio das crianças, naquele verão maravilhoso. Mas isso, infelizmente não era possível, dada as presenças dos peões, de Galdério e da própria Matilde, que embora percebesse, mantinha-se discreta quanto essa nossa forma de ligação e amizade sem peias. Mas, um dia, ela me disse:
—Alma, minha guria, deves tomar cuidado com o que dizem, de ti. Desde o teu julgamento que estás na berlinda, na boca do povo, que te absolveu, é verdade, porque se comoveu contigo. Mas aqui, perante esta peonada, deves tomar mais cuidado do que com o povo urbano. Sabes o que dizem, não sabes? Abanam a cabeça quando te vêm, murmurando: “Que lástima, tão bela... não gosta de homem, que homem a quererá a sério? É mulher para uma só noite”. Vês, Alma, deves tomar cuidado, para não te desrespeitarem.
Fiquei furiosa. Quase atirei algo que tinha nas mãos. Gritei, pela primeira vez na vida, com minha querida babá:
—Que falem, que falem! Mesquinhos! Nada lhes devo! Não sou para o bico de nenhum deles. Eu amei um artista, um virtuose do violino, um Orfeu, um deus grego! Não deixo por menos! E que homem, senão Rôdo, chega aos pés destas duas mulheres? Ai! Não agüento a vulgaridade!
Matilde ficou chocada com a minha reação. Seus olhos se encheram de lágrimas como os meus. Abraçamo-nos, enquanto eu explodia num pranto copioso. Ela me fizera ver a realidade do mundo lá fora, da maldade do mundo que eu tão facilmente esquecia.

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Lady Margareth estava já no seu quarto rebento, e continuava andando como pata choca, após os longos períodos de gravidez. O povo dizia que era pela continuada técnica de Sodoma, e que seus filhos todos seguiriam o manual. Mas a verdade é que, talvez por aquela razão, aquele era um ducado feliz, pois tal prática, de um jeito ou de outro aproximava o grão-senhor do seus súditos, embora por trás, coisa que não acontecia em nenhum outro feudo.
Então, após longo período de paz, em que a população do feudo cresceu graças ao Grande Sodomita, estourou afinal a guerra necessária, que deveria evitar a fome, com a supressão de expressiva parte da população jovem, e a reacomodação dos mais espertos, senão dos mais aptos. A batalha de Wolfsburg, também chamada a batalha dos lobos, pois esses foram os que mais lucraram, com o campo de vinte mil mortos e feridos, o Sodomizador-mór, como também era chamado, venceu seus inimigos e submeteu-os a todos à especialidade que o consagrara, o que motivou uma revolta para além dos seus domínios, que acabou por derrubá-lo politicamente, já que pelas armas o vencedor era ele. O rei da Prússia exigiu sua demissão como condestável, e que confinasse sua prática a intra-muros do seu castelo. E que fosse mais discreto, desistindo de instituí-la como tradição de seu feudo.
O duque e seu ducado iniciavam sua decadência. Gottfried começou a definhar, com o término da Era Feliz, que ele, paradoxalmente, iniciara com a suposta humilhação pública, ou de copa e cozinha, de sua mulher estrangeira, de ruiva cabeleira e penugem. E alvas nádegas.
Não sei, realmente, se esse episódio me foi também contado por minha avó Frida, ou se eu o inventei. De qualquer modo, tem tudo para ser verdadeiro.
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Patrícia me procurou no pomar, para ter uma conversa sobre algo que a inquieta. Olhei seu lindo rosto, de uma perfeição comovente, com seus doces olhos de gazela, transparentes, cuja expressão guarda aquela pureza infantil, que os seres humanos não deviam perder nunca. Ela disse:
—Tia Alma, queria lhe fazer uma pergunta. Mas não sei como fazê-la... é sobre ti, Aline e Laís. Foi algo que Pedrinho me disse, que não entendi direito.
—Querida- eu disse- o quê teria o Pedrinho dito, que te perturbou? Foi isso, o que ele disse te perturbou? Conta-me, exatamente, suas palavras, para eu poder te responder.
—Ele disse, tia Alma, que Aline é tua namorada, e que Laís também é. Como pode ser isso, tia Alma? Pedrinho está mentindo, não é?
—Não, querida, não está. Pedrinho é um amor, nunca mente, tu sabes, e gosta muito de todos nós. Elas são mesmo minhas duas namoradinhas queridas. Não vês como a gente namora? Quando você for moça mesmo, isto é, adulta, você vai ver que há muitas maneiras de namorar e que a gente pode amar muitas pessoas, dos dois sexos. Desde que sejam bonitas, principalmente por dentro. Se não, porquê iríamos namorá-las, não é mesmo?
Patrícia sorriu, deu-me um beijo, mas eu senti que a minha resposta não foi totalmente satisfatória. Pedrinho, como típico menino, embora muito puro, teve ter feito no mínimo um ar de mistério, ou de descoberta de um segredo, ao dizer aquilo à sua irmã. E portanto, ficara, no ar, um tom de coisa proibida, que minha resposta não podia levar em conta, para não levantar a lebre. Patrícia não estava pronta para saber que sua tia perpetrava algo, que grande parte do mundo condenava, às vezes mesmo, como abominação. Como levantar questões tão complexas, diante de um bichinho tão ingênuo, puro e despreparado como a minha sobrinha? Solange, a tinha preservado do contato com as realidades da vida, por pura dominação, pois não conseguira poupá-la do mais sórdido: sua relação com um homem sem caráter, um criminoso, sem escrúpulo que ela por fraqueza ou ambição pusera dentro de casa, junto a seus filhos, trocando afinal insultos violentos nas horríveis discussões, diante deles, que lhe causaram a morte, chocante, na frente daqueles anjinhos. Mas, a verdade é que, eu percebi naquele momento, que não tinha uma boa resposta para minha sobrinha. Nem tudo na vida tem real explicação. Há um mistério persistente, na vida e... no coração humano.

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Passamos um verão delicioso, onde reinou a harmonia, entre seres que se amavam, conscientemente, e que sabiam desfrutar as benesses e privilégios do destino. Rôdo telefonava e mandava cartões de diferentes partes do mundo, e logo de regiões mais remotas, se é que se pode hoje dizer isso, da Rússia, do oriente médio e depois do extremo oriente. Eu dormia as minhas noites, feliz, nos braços de minhas duas namoradas, observando também elas se amarem cada vez mais, o que me parecia um milagre alcançado. Mas... havia uma sombra que me incomodava, que se insinuava em meu sono, e que me fazia acordar algumas noites, sobressaltada, com o coração disparado. Pesadelos que se desvaneciam antes de eu poder me lembrar deles, mas que eu sabia a que se referiam. Uma noite senti as chicotadas nas minhas costas e no meu bumbum. O monstro me chicoteara em meu sonho. Outra vez foi pior: dolorosamente estuprada, meu estuprador tinha dupla face, que misteriosamente eu não via, e no entanto reconhecia, a fusão dos rostos de Pedro e Geraldo. Acordei sobressaltada, com o coração acelerado, e colocando instintivamente minha mão sobre meu sexo, verifiquei aterrada, revoltada, que estava molhada, e não era de xixi. Meu corpo me ironizava, minha alma me traía. Como poderia sentir qualquer prazer naquela intrusão, naquela violência, naquela invasão de minha privacidade mais íntima? Eis aí, outra dessas coisas para as quais não tenho explicação. Comecei a ansiar pela volta do meu irmão, pois sempre pensei nele como meu protetor, aliás, não sei bem porquê, já que nunca estava por perto quando fui atacada. Talvez por que Rôdo, no meu inconsciente, funcionou sempre como um arquétipo da masculinidade, já que o meu pai era mais do que isso, era um deus.
Aline, que agora sabia do ocorrido com Pedro, me abraçava apertado, nesses momentos, condoída, com o coração apertado, e revoltada com seu ex namorado, dizendo: “aquele monstro,.. ele me paga!”. Laís chorava junto comigo, lembrando-se da sua horrível violação. Como podíamos, na verdade ser completamente felizes, com essas memórias? Mas, a verdade é que esses pesadelos estavam se tornando mais freqüentes por se tratar de uma premonição. Eis porque voltavam agora, num momento que tinha aparentemente tudo para ser feliz.
Sim, aconteceu. Geraldo reapareceu finalmente, na estância, como eu temia, pegando-nos, no entanto, mais uma vez desprevenidos.

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Eu passeava, às vezes, sozinha, pelos arredores do casarão, principalmente quando queria escrever poesia. Procurava o bosque, que me inspirava com seu silêncio sonoro, cheio de agradáveis modulações, de insetos, e dos raios de luz filtrados entre as copas, que faziam ver o ar saturado de pólen, dançando infinitamente, indo e vindo do nada, como a própria alma. Eu lançava novos ciclos dos meus sonetos, num estado de espírito próximo do sublime, somente aquém daquele instante indizível do orgasmo, mas na verdade, diferente, pois extenso, duradouro. Os momentos de Inspiração, em que a alma respira o ar puríssimo do mundo Ideal!
Foi num momento assim, tão raro e fecundo, que, no entanto, fui apanhada pelo mal, mais uma vez, desabando num súbito abismo que era interior e exterior ao mesmo tempo. Meu cunhado me surpreendeu mais uma vez, com o revolver na mão, apontando-me, vindo das sombras do seu inferno intruso, de seu reino do mal. Meu coração quase parou. Eu estava horrorizada, aquele homem abominável voltara e me apanhara numa armadilha, afastada de casa, num lugar ermo, distante do casarão. Eu quis correr, mas ele me agarrou pelo braço. E puxou-me para junto de si, dizendo com sua boca detestável muito junto à minha:
—Peguei-te novamente, cunhadinha! Agora não me escapas, vais me pagar definitivamente tudo o que me deves. A começar pelo teu corpo, que tanto me tentou, sempre, como uma maldição! Agora estamos sós, não há ninguém que se interponha, nem sequer com um olhar. Ninguém verá! Ninguém para te socorrer. Vais saber o que é um homem, lésbica safada! Vais aprender a gostar!
Eu me senti, mais uma vez perdida e horrorizada, quase desmaiei de medo. Geraldo estava com o cabelo todo branco, envelhecido de rosto, mas com o mesmo ríctus detestável de desprezo, que era a marca de suas feições. E a mesma força física, que me fazia debater-me, impotente. Eu esmurrava seu peito e mesmo sua face, sem resultado, a não ser espicaçá-lo mais. Ele me lançou sobre o solo alcatifado de folhas secas, úmidas e frias. Eu me debatia, empurrava seu peito chorando e gritando, num estado de terror. E... mais uma vez me urinei toda, como uma criança num pesadelo. Eu estava, ainda por cima, sem calcinha debaixo de minha saia leve, indiana, vaporosa, como usava naqueles dias, menstruada, quando me afastava do casarão, para curtir meu sangue escorrendo pelas minhas pernas, com volúpia narcísica, enxugando-me, a espaços, com um grande lenço vermelho, que enrolava na cintura, para disfarçar o sangue, ao meu retorno. Agora isso se voltava mais ainda contra mim. Eu, não sabendo, tentei usar isso em minha defesa. Gritei, balbuciando:
—Geraldo, Geraldo, não! Estou menstruada, vais sujar-te. Fiz xixi, estou imunda! Não vais gostar. Deixa-me! Não! Não!
Ai! Aquilo, aquelas palavras só fizeram aumentar o seu desejo, e eu já sentia o seu membro, enorme, suspender-me a saia, enquanto com uma mão ele me segurava pelos cabelos e com a outra, me rasgava a blusa e agarrava o meu seio, com enorme força. Eu gritei de dor, enquanto seu pênis, forçando-me, adentrou minha vagina, infelizmente ensopada de sangue e xixi, o que facilitou sua intrusão. Ele começou a mexer os quadris, vertiginosamente, com grande rapidez, e explodiu seu sêmen espúrio dentro de mim. Eu quis morrer. Dei um soluço. E um longo grito. Agora sim, me sentindo suja, conspurcada, larguei-me, cessando de me debater, enquanto ele ainda se mexia, agora lentamente, para curtir a lambança que se passava ali em baixo. Um estranho silêncio caíra sobre o bosque, eu incrivelmente reparei, naquela situação de derrota e humilhação supremas em que estava. Invadida, suja, usada. Os insetos e passarinhos tinham cessado seus cantos e eu ouvia somente os estalidos melados, obscenos, da minha vagina sendo bombeada, curtida pelo monstro lúbrico. Então ele retirou seu membro de dentro de mim, e mostrou-o, coberto de sangue e esperma, para humilhar-me com aquela visão, e limpou-o em mim, esfregando-o no meu rosto, na minha boca, enquanto gargalhava. Cerrei os olhos como uma criança diante do pesadelo, e ouvi um tiro. Abri os olhos imediatamente e vi o corpo de Geraldo, seu cabelo branco no ar, desabando sobre mim, o choque de seu peso quase esmagando-me. Gritei mais uma vez, empurrando aquele corpo, retirando-me penosamente de debaixo dele, aos gritos, virei-me, de joelhos, e vi o meu salvador, o jovem bandido do seqüestro, da flagelação e da casa de Júlia, aproximando-se com um rifle na mão. Ele matara Geraldo, afinal, o sangue do monstro empapava o meu vestido, confundindo-se com o meu próprio. Eu, imunda e desfigurada, estendia os braços para aquele homem, o cavaleiro do Walhalla, que mais uma vez chegara tarde, e no entanto... me salvando.

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As estórias do Condestável Gottfried cessaram. Mas elas tinham servido para me aproximar de minha avó, que eu agora não via mais como uma bruxa, mas como uma druidisa ou bardo de saias, que narrava as sagas picarescas do nosso passado germânico e celta, já que havia sangue inglês e irlandês, envolvidos nas nossas origens familiares. Não muito tempo depois disso, eu iria velar seu corpo no salão da estância, toda de preto no caixão, com seu grande nariz adunco, quase encontrando a ponta aguda do seu queixo proeminente, e sua boca sumida, sem lábios, enrugada, que completava o retrato de feiticeira que me impressionava tanto, e que eu, de certa forma, admirava. Seu longo cabelo branco (ela nunca fizera o coque usual das velhinhas), estava esparzido sobre os seus ombros esqueléticos e misturava-se às flores. Eu olhava fascinada, embora não vertesse uma lágrima, pois minha avó não me comovia, estranhamente, pois eu a associava ao sentido humorístico da vida, achando, mesmo, acreditem, que naquele momento, a melhor forma de homenageá-la seria contar uma anedota histórica ou folclórica, coroando o seu fecho com uma grande gargalhada coletiva. Esse pensamento, me fez sorrir ligeiramente, o que foi notado por minha mãe que me deu um ligeiro tapa no rosto. Eu nunca seria compreendida por minha mãe. Como poderia, afinal, eu, a exquisitinha alegre, a extravagante, ao seu ver, uma excêntrica precoce apesar de minha ingenuidade encantadora, deixar de ser incompreendida por aquela criatura convencional que... no entanto, me amava, isso sim, incompreensível? Diante daquele tapa, me comovi finalmente, mas comigo mesma, com minha solidão em relação à minha mãe, da qual arranquei um movimento de cabeça aprovativo às minhas primeiras lágrimas, adequadas, naquele velório da nooa bizarra matriarca, estranha... e querida, afinal.

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Meu salvador, o jovem bandido, estendeu–me a mão para me erguer, pois estava ajoelhada e atônita. Mas não consegui manter-me de pé e desabei. Ele então, pousou o rifle na relva e ergueu-me como uma pluma em seus braços, e logo pôs-me nas costas dobrada de bruços sobre seu ombro, e apanhando novamente a arma com a mão esquerda, saiu andando comigo, para fora daquele bosque. Ele ia direto para o nosso galpão, para apanhar uma pá, ele dizia, enquanto andava. Pedi para pôr-me no chão, pois estava meio de cabeça para baixo, e sentia-me enjoada. Ele então me fez deslizar de seu ombro e colheu-me nos seus dois braços e continuou a carregar-me assim, digamos, de maneira mais cômoda e... romântica. Exausta, apoiei o rosto no seu largo peito e adormeci, sentindo-me afinal protegida, como uma criança. Dentro do galpão, despertei quando ele pousou-me sobre a palha e pegando uma pá, disse-me:
—Senhorita Alma, fique aqui, logo virei cuidar de ti. Agora vou enterrar o corpo, para que não o encontrem.
Caí novamente num sono profundo, de depressão, eu acho. Quando voltei a mim, despertada por um ligeiro sacudir em meu ombro, revi o meu salvador e ainda tonta, ou deprimida, perguntei-lhe o seu nome.
— Meu nome é Günter– ele revelou — e perdoe-me ter chegado tarde. Mas creio que ele iria matá-la, senhorita. Ele mereceu o que lhe coube. Estive no rastro dele durante meses, para terminar o serviço, desde que soube que escapara apenas ferido do primeiro tiroteio. Agora, não precisas mais temê-lo, nunca mais. Acabou. Está debaixo da terra e só eu sei onde.
—Günter,—eu disse—eu preciso vomitar, por favor, erga-me para que me apóie na balaustrada.
Ele ajudou-me a vomitar, e eu percebi que o fez com solicitude e quase com ternura. Esse homem era surpreendente, e eu me perguntava apenas porque chegava sempre tarde, e cuidava de mim depois de eu ser vitimada, nunca antes. Era um homem frio, na verdade, um matador, isso é o que ele era! Eu ter sido estuprada era um detalhe; sua meta pessoal, matar Geraldo, provavelmente por razões que eu estava longe de saber, era a sua missão, afinal cumprida. Eu recomecei a chorar, dizendo:
–Günter, estou machucada, estou muito suja... veja, de sangue, preciso me lavar. Tu poderias me levar até o riacho, para eu banhar-me, pois não posso chegar assim no casarão. Não quero assustá-las, às gurias e às crianças. Preciso chegar o mais composta possível, não posso contar a eles o que aconteceu. Por favor, carregue-me novamente, até o rio. Ai! Vou vomitar novamente.
Eu me sentia péssima, mas ele me carregar, novamente, foi um grande reconforto, e aninhei-me em seu peito, enquanto ele caminhava. Aquilo era a única coisa que poderia me fazer bem, agora, entregar-me como uma criança nos braços poderosos de um homem forte, que cuidaria de mim. Confesso que queria que ele me lavasse como um bebê... Eu senti que se ele fizesse isso, eu estaria salva, eu me recuperaria para os homens, para o ser humano.Do contrário, eu correria o risco de encolher, de virar-me para dentro, eu senti assim.
Günter carregou-me, ao crepúsculo, e eu me admiro hoje, de ninguém notar as nossas andanças, eu, nos braços de um homem enorme, e mais ainda do que se seguiu, no riacho. Aquele homem notável, despiu-me e entrou no rio comigo, completamente vestido, amparando-me dentro d’água, e lavou-me, sim, lavou-me inteira segurando-me como um bebê numa banheira. E eu me salvei, pois instintivamente me entreguei completamente àquele banho, fazendo inclusive que enxaguasse com as mãos enormes, carinhosas e suaves, minhas partes mais íntimas e doloridas. Só assim me salvei.

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Eu voltei ao casarão com o vestido molhado, lavado no ribeirão, mas nos braços do bandido que todos ali já conheciam de vista. Isso assustou-os muito, mas eu pedi que não se alarmassem e não o entregassem. Contei a todos, reunidos na sala, somente parte da história, omitindo naturalmente o estupro que sofrera. Contei que fora salva de ser morta por Geraldo, no momento em que este ia atirar em mim, pelo tiro certeiro e salvador de Günter, que já uma vez me salvara, episódio que eles já conheciam. As crianças acabaram apertando-lhe a mão. Aline permanecia desconfiada. Ela sentia quando eu lhe omitia alguma coisa. Mas nada disse, apenas olhava Günter com frieza. Pedrinho, menino necessitado de herói masculino, já que para ele a heroína era eu, olhava o jovem bandido com admiração. Os gêmeos, ao saberem que o pai fora morto, estavam confusos, sem saber o que sentir, pois aquele sempre fora ausente, ou brutal. Creio que todos estávamos aliviados. Sentíamos que agora não tínhamos mais inimigos. E que a vida poderia correr novamente, sem sobressaltos.
Quanto a Laís, olhou-me nos olhos e reconheceu a sombra do estupro. Sim, a sombra do nosso estuprador comum, e soltou um estranho e longo gemido, que ninguém entendeu, exceto talvez Aline. Nós teríamos que ter uma longa conversa, as três, e elas teriam que me perdoar, pela minha dor, pela minha fraqueza, de mulher, que não podia protegê-las, não podia proteger ninguém, éramos todos carentes e frágeis, ai de nós! Por quê Rôdo não voltava?

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Alma Welt

O Sangue da Terra

Capítulo quarto

Estórias das amadas

Nossa vida entrava na normalidade, e estávamos todos aliviados e felizes, de certo modo. Mas, o que significa isso, na verdade? Ser feliz... Será realmente possível, uma vez que todos carregamos uma “caixa preta”, de sofrimentos passados? Essa caixa pesa, com sua tampa fechada. E se a abrimos, os vapores mefíticos e os miasmas das dores passadas são liberados, mas ameaçam nos sufocar, como às pobres Pandora e Psiqué.
No dia seguinte ao do estupro, eu tive a minha conversa com Aline e Laís. Eu ainda estava abalada, e ficaria por muito tempo. Assim, minha confissão, se devo dizer assim, acabou sendo dramática, pois choramos muito, abraçadas no final. Aline estava horrorizada, pois nem sequer sabia do estupro de Laís, e tudo veio à tona naquela hora da verdade. Não poderia mais haver segredos entre nós, eu prometi a uma Aline quase furiosa.
Eu lutava interiormente para não deixar-me contaminar pela própria dor da minha experiência, quero dizer, para não assumi-la como trauma, se é que isso é possível num caso de violência extrema, como a que me ocorrera. Eu sentia que a essência, o próprio sentido da minha singularidade, da minha história e personalidade, se fundamentavam na “alegria mais profunda do que a dor” nitzscheana, que era como que um legado espiritual de meu pai. Eu não podia sucumbir, ser enfim derrotada por um ser do mal, como o finado Geraldo. Se eu não recuperasse a minha alegria, minha joye-de-vivre, seria a vitória daquele crápula, e eu, Alma Welt, que sentia um certo sentido de missão na minha felicidade e beleza, pois elas embasavam toda a minha obra de artista, tinha muito ainda o que dizer, transmitir ao mundo. Eu sou assim. Tenho consciência dos meus dons e um sentido de compromisso sagrado com eles. Minha sensualidade? Faz parte da minha alegria. Amo o prazer, os prazeres. Sou hedonista confessa. E tenho tesão de viver.
Continuei, portanto, a viver o mesmo estilo de vida: o sexo com os meus amores, o meu sexo permeando tudo, todas as minhas atividades, a minha poesia, como meus banhos de rio. A minha pintura, como os prazeres da mesa. A contemplação da natureza, como os prazeres da literatura e da música.. O gosto de chorar pela beleza, pela própria sensibilidade, pela nostalgia e mistério da beleza. Pela suave dor de existir em plenitude, em pureza intrínseca.
Mas, dada a estranha recorrência de certo tipo de violência sofrida por mim em minha vida, agressões à minha beleza, e mesmo, insisto, à minha pureza, desde a infância; episódios que venho narrando nos meus livros confessionais, eu sinto que devo meditar e descobrir, se possível, as razões desses fatos terem acontecido e estarem se repetindo até hoje comigo. A razão é uma só: minha feminilidade extrema, quer dizer, a sensualidade assumida do meu sexo, vivido num corpo que é a própria imagem da sexualidade. Quero dizer, tudo em mim, no meu corpo e na minha alma, é feito, construído mesmo, pela natureza, para o toque, o olhar, o olfato, enfim: os cinco sentidos do prazer do outro... e da penetração pelo outro. Estarei fazendo o elogio do estupro? Ou, pelo menos, justificando-o? Espero que não. Estou procurando uma explicação, não um antídoto. O veneno... eu o conheço, não me diz respeito.
Com isso, quero dizer que entrei num novo período introspectivo, um pouco mais silencioso, de reflexão, que foi confundido com depressão, pelas gurias. Confesso que o ocorrido comigo deixou seqüelas, claro, pois eu não tinha a mesma segurança desabrida de antes. Eu temia estar sozinha em lugar ermo, no bosque, por exemplo. As meninas quiseram voltar lá para ver se identificavam o “túmulo” de Geraldo. Tanto insistiram que as acompanhei. Mas não percebemos nenhum vestígio, o serviço tinha sido muito bem feito pelo Günter, e não seria dessa vez que identificaríamos o local do enterro do vilão. Melhor assim, eu não estava preparada ainda para qualquer emoção forte relacionada àqueles fatos tão violentos, pois identifiquei o local do meu estupro, e saí correndo dali. O bosque nunca mais seria o mesmo para mim.
Quanto a Günter, meu salvador, este ficou escondido na estância por dois dias, somente, para esperar um parceiro que ele chamou por telefone para vir buscá-lo de carro. Nós não o denunciaríamos jamais. Houve uma visita da polícia para fazer as últimas perguntas antes de encerrar o caso, e eles davam Geraldo por morto (eles não sabiam quanto isso era agora verdade), mas alertavam-me para o fato de que havia um dos bandidos seqüestradores ainda foragido. Eles não poderiam imaginar o quanto eu sabia disso... Aliás, confesso que a lembrança daqueles momentos, no rio, me faziam devanear. Nunca um homem tivera aqueles desvelos tão ternos e suaves comigo. E eu ainda sentia seus toques em mim. Como esquecer uma coisa assim. Desejava profundamente que aquele bandido voltasse. Não contei jamais às gurias aqueles detalhes do meu salvamento. Nem tudo pode ser dito entre as pessoas que se amam. E eu amava os segredos, que desvelo somente aos meus leitores sem rosto.
Eu via que as minhas meninas precisavam da minha atenção, uma como jovem mãe e a outra, em processo de recuperação do trauma sofrido. Minhas maravilhosas gurias!
Laís era uma moça vinda da classe média alta, mas que se afastara da família, um casal de engenheiro e advogada, que tinham um sítio de lazer, nos arredores de Porto Alegre. Seu pai traíra a mãe, que sendo advogada, arrasara o ex-marido nos tribunais, e o perseguira juridicamente tanto, que Laís saíra de casa. Mas essa era, naturalmente, a versão de Laís, escolhida pelo seu amor por seu pai. Ela abandonou a faculdade, o curso de direito, por causa da atuação de sua mãe. E se pôs a viajar de mochila pelo Brasil, e em seguida pela Europa. Rôdo, no seu Porsche, a encontrara numa estrada do sul da França pedindo carona. Ali começaria um romance jovem e descompromissado, a princípio. Ela elevaria seu padrão de aventuras, para os cassinos e pousadas requintadas, e os jogos de pôquer de altas apostas, do seu companheiro, sempre um tanto perigosos, que lhes acarretaram alguns apuros, fugas e perseguições. Mas sempre acreditei que Rôdo nunca roubou no jogo. Seu caráter não permitiria. Era, sim, um bom blefador, e destemido, o que produziu desconfiança ou ciúmes entre jogadores. Assim creio eu. Mas, percebi também, que Laís guardava um segredo quanto a algo ocorrido em Biarritz, que ela não tinha coragem de me contar e que começou a espicaçar a minha curiosidade. Eu haveria de descobrir, um dia, algo perturbador.
Aline, por sua vez, tivera uma infância feliz no bairro do Brás em São Paulo, no meio da colônia italiana de seus pais e avós, e me admira que ela não tenha aquele sotaque italianado paulista, falando, ao contrário, um razoável português, baixinho, com voz suave e macia, que é sua característica mais encantadora, um milagre (de Santa Queropita?), dadas as suas origens. Aliás, por isso mesmo, é muito engraçada a imitação caricatural que ela faz da voz e do sotaque de sua mãe e avó. Quanto a mim, a esse respeito, é bom que o leitor saiba que também falo muito baixo e suave, com o mais belo sotaque do Brasil, o da colônia açoriana de Santa Catarina, de minha mãe. Aliás, só por isso, reconheço que deveria ser mais grata a ela, do que demonstro.
Mas, voltando a Aline, o fato de se tornar modelo nu, de pintores, só foi tolerado depois de algum tempo, pela família, pelo fato de seu avô materno, Marcantonio, falecido nos anos 80, ter sido um pintor acadêmico, aliás, bastante bom, que usava modelos, para belos nus, dos quais, aliás vi alguns exemplos na casa deles, no seu bairro. Na ocasião da visita, com Aline, presenteei sua simpática avó, muito idosa, com um retrato nu de Aline feito por mim, que encantou a velhinha, que o pendurou imediatamente ao lado de outro nu, dos anos quarenta, que retratava uma amante de seu marido, bastante bonita, e de quem a avó de Aline sabia muito bem a história, segundo minha amiga me contou. Aquilo me pareceu notável, no meio de uma colônia tão tradicional, e com a fama de gelosi, que não costuma tolerar as traições, freqüentemente banhando-as em sangue. Mas isso, segundo Aline, se refere mais aos italianos do sul, da Calábria e da Sicília, o que não era o caso da família de Aline. Não sei. O fato é que dona Giulia, mantinha em sua parede o retrato de uma amante de seu marido, e minha imaginação voou. Infelizmente, Aline não soube me fornecer mais dados sobre aquela estória que deveria ter lances interessantes. Bem, para que serve a imaginação, não é mesmo? Bem posso imaginá-la, e por isso contarei aqui, aos poucos, essa estória familiar insólita, segundo a teoria Novalina da poesia, como “o autêntico real absoluto”. Não haverá meio de não ser verdade.

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No final de fevereiro, Rôdo voltou, sem avisar. Chegou de madrugada no seu carrinho esporte, e entrou no nosso quarto para pegar-nos, as três, na cama dormindo nuas e abraçadas, naquela noite quentíssima. Mas, nossa ménage era duradoura e levantou-se imediatamente em nós, que nos alvoroçamos, felizes. Foi assim: ao vê-lo ali ao pé da cama, sob a luz acesa sem cerimônia por ele, com aquele seu sorriso safadinho, dei um grito de alegria, que despertou as outras duas, e erguendo-me nua, atirei-me em seus braços. Aline e Laís fizeram o mesmo, e todas ficamos abraçadas a ele, que foi arrastado para a cama, embolados, enquanto arrancávamos suas roupas. Que saudade daquele guri! Que saudade do seu sorriso e de seu corpo maravilhoso, másculo, musculoso! Depois da fecundação de Aline, de que todos participamos, não havia mais barreiras ou inibições entre nós quatro. Ele fazia parte de nós. E a alegria por seu retorno confundia-se com a fome de nossos corpos jovens, por aquele corpo mais firme, viril, que tinha aquele atributo complementar, essencial, e enorme, que foi disputado ou dividido entre nós três. Na nossa crescente empolgação, emocionadas e arfantes, quase sem fôlego, fizemos, instintivamente, muitas das variações do Kama-sutra, coletivamente. Felizmente era ainda de madrugada, e as crianças não acordaram com o barulho, os risinhos, e gritinhos que dávamos. E quando caímos exaustos, enlaçados e enroscados, para voltar a dormir, fui a única que fez um esforço para levantar-me para trancar a porta à chave, evitando assim o encontro das crianças, pela manhã, daquela cena que poderia talvez chocá-las ou confundi-las. Congratulo-me comigo mesma por esse esforço, quase sobre-humano, antes de cair exausta, de volta, sobre eles.
De manhã repetimos algumas variações, mas preguiçosamente e... foi outra experiência maravilhosa! Cada uma de nós pegou o enorme falo de meu irmão e introduziu nas outras duas, como um brinquedo, mas lentamente, ritualmente, como um abraço, uma recepção de boas vindas, sem mais a intenção do orgasmo. Devo dizer, que estando no meu período fértil, pedi que elas o fizessem, em mim, por trás, bem lubrificada com o caldo delas mesmas. Foi dolorido, apesar disso, devido ao calibre exagerado de meu irmão, que, a propósito, ficou especialmente comovido nesse momento, e não se conteve: ejaculou dentro de mim. Então, chorei de comoção e felicidade, pedindo para ele ficar ali, quentinho, melado, bastante tempo dentro de mim, até escorregar sozinho, amolecido. Foi lindo. Meu irmão tinha sido condignamente recepcionado.

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Naturalmente, depois daquela noite, e manhã, queríamos repetir aquela experiência em todas as oportunidades que conseguíamos. Estávamos altamente erotizadas e felizes, mas tínhamos que disfarçar por causa das crianças. Isso produzia mais excitação e emoção, e assim estávamos vivendo mais intensamente do que nunca. Foi um dos períodos mais gloriosos de nossas vidas, pois avalizada pela experiência comum, eu podia extravasar o antigo e tantas vezes reprimido desejo pelo meu irmão, que agora estava livre, solto e testemunhado pelas minhas amigas, que eram cúmplices e parceiras minhas, nisso também. Era perfeito. Rôdo, percebendo isso, soltou-se como nunca antes comigo, e sua virilidade dava conta ainda das outras duas, enchendo-nos, às três, de seu branco, viscoso e... maravilhoso sumo.
Havia ainda os banhos de rio, as cavalgadas nuas, sempre os quatro, e as brincadeiras no galpão, sobre o feno. Vocês conhecem isso: quanto mais fazíamos, mais queríamos fazer.
Estávamos nesse período sob a égide do epicurismo, se posso dizer assim. Em épocas assim, perdemos um pouco a perspectiva e as metas de futuro perdem o sentido. Eu não pensava mais em fazer exposições ou planejar edições de meus livros, embora continuasse escrevendo poemas e contos por puro prazer, o que é melhor. Como o ato de criar pinturas ou textos só tem sentido no olhar do outro, isto é, se olhados e lidos, bastava-me ler os meus poemas e mostrar os meus quadros para os meus queridos, que me cercavam, que desfrutavam tudo de mim, para o meu próprio prazer: meu corpo, minha mente e... minha alma.
Mas é preciso que eu diga, que para mim, como artista, tudo faz sentido se o meu fluxo criativo não se interrompe. Enquanto estou me expressando o mundo faz sentido, o mundo gira. O desejo está justificado por si mesmo, e a beleza do momento fica registrada, não se perde no tempo e no vazio. O tempo deixa de ser um ralo devorador, e o mundo não é um bueiro de ações automáticas sem sentido. Como escreveu Eça de Queiroz: “A arte é tudo, o resto e nada”.
Acompanhando, assim, os lances da minha felicidade anímica e corporal, saíam telas e mais telas, poemas e contos. Resolvi escrever as “estórias das amadas”, ocorridas realmente ou não, com Laís e Aline, pois as verdadeiras estórias são aquelas “do que poderia ter sido”, como disse Fernando Pessoa. Por isso, vou contar aqui mais um pouco da estória da avó de Aline.
Dona Giulia mantinha dependurado o retrato nu da amante de seu marido, o pintor Marcantonio de Marco, e isso era um fato corriqueiro, assimilado pela família, que simplesmente não percebia o insólito daquela situação. Aline cresceu sem reparar muito naquele retrato, e foi preciso uma pessoa de fora da família, mas profundamente ligada a ela, como eu, para levantar esse fato como questão. Qual tinha sido a relação de Dona Giulia com aquela bela mulher, amante do seu marido, para que ela mantivesse o retrato na sua parede, junto com outros retratos pintados por seu marido, inclusive os dela própria, desde moça, em diferentes idades? Esse era o mistério, que Aline não sabia me ajudar a desvendar. Então presumi o seguinte:
A linda modelo de Marcantonio tinha sido sua primeira amante, o grande amor de sua vida, e posado para ela no dia em que lhe entregou sua virgindade. Isso era visível nos olhos do modelo, naquela pintura, bem como insinuado simbolicamente na imagem de um pote, ou vaso rachado, e com um buraco, mas que tinha uma única rosa vermelha desabrochada, nele, ali, sobre um criado mudo ao lado da cama onde estava sentada o modelo.
Bem, esta moça maravilhosa, amada por Marcantonio, morreu no parto do filho deles, gerado naquele dia da primeira relação, e da pose para o retrato. A criança, que sobreviveu, foi entregue pela família da moça, que se chamava Fabrizia, a um orfanato, já que Marcantonio não via mais a moça havia meses, pois fora afastada dele pela família inimiga. Marcantonio nunca soube do nascimento e da existência da criança, seu filho, mas conservou o retrato, que continha um filho seu potencialmente representado naquele ventre magnífico, cujo umbigo fora pintado de maneira magistral e... abismal (esses detalhes pictóricos me chamaram a atenção). Dois anos mais tarde, Marcantonio conheceu, namorou e noivou de Giulia, a avó de Aline, com quem se casou. Sua mulher ficou sabendo dessa estória de seu marido pintor, e comovida com o triste destino da moça, mesmo sem saber da existência da criança, pendurou o quadro na parede, dizendo: —“ O retrato de Fabrizia ficará sempre conosco nesta casa. Não permito que você o venda jamais. O primeiro amor é sagrado e eu sou a primeira a reverenciá-lo, pois que você é o meu primeiro. Ela velará pelo nosso amor, eu sei, de onde ela estiver, pois uma beleza assim, só pode vir da generosidade”.
Resolvi conferir essa estória totalmente deduzida (acreditem se quiser), através de uma pesquisa a posteriori. Combinei com Aline que viajaríamos de ônibus com o Marco, até o bairro do Brás, em São Paulo, para apresentá-lo à avó Giulia, bisavó dele. Assim eu teria a oportunidade de colher um único dado que poderia iniciar a pesquisa sobre o paradeiro e a existência do filho de Fabrizio e Marcantonio que devia ser um homem ou mulher de meia idade, que fora criado em orfanato, provavelmente até a maioridade.
Minhas deduções baseavam-se num processo de desenvolvimento lógico, que eu considerava quase infalível. O “quase” era por conta de acidentes imponderáveis do destino, ou pelo menos não presumíveis de antemão: as chamadas “ironias”. Vejam, por exemplo, Aline se tornara um modelo nu, de pintores, sem reparar nessa coincidência, claro, já que nada a ligava ao retrato, em sua mente. . Mas batizara nosso filho com o nome de Marco derivado de seu avô, continuando, cumprindo, ou corrigindo assim o destino de Fabrizia, que não pudera acalentar o seu bebê, que provavelmente teria esse nome, do pai, se eles tivessem podido continuar juntos. Mas a criança teria nascido sem o conhecimento do pintor, pois Fabrizia dera a luz e morrera entre os seus pais que renegaram a criança, fato monstruoso, claro.
Assim fizemos a viagem, quando Marco tinha quase um ano, e diante de Giulia, em sua casa no Brás, fiz-lhe a pergunta que iniciaria a procura:
—Dona Giulia, qual o nome de família de Fabrizia, o modelo desse quadro?
A idosa senhora, muito espantada, contra-argüiu :
—Mas, Alma, como sabes que ela se chamava Fabrizia? Nunca revelei isso a ninguém. Nem mesmo à Aline. Como você ficou sabendo?
—Dona Giulia, perdoe-me, isso não vem ao caso É apenas um dom meu. Mas preciso saber o sobrenome da moça, pois seu filho que deveria se chamar Marco ou Marcantonio, pode estar vivo, embora possa também já ter falecido, foi criado num orfanato e só a família de Fabrizia pode dar-me o nome e endereço dessa instituição. Preciso saber o destino do filho ou filha de Fabrizia, pois se faleceu, tenho certeza de que o nosso Marco é a sua reencarnação.
Aline ficou boquiaberta, como sua avó. As duas protestaram:
—Mas Alma, como podes saber disso? Isso tudo é imaginação sua. Ninguém nunca soube nada sobre Fabrizia, depois que se separou de Marcantonio, sua história perdeu-se. Que loucura, Alma! Que imaginação!
—Não, não, queridas—eu disse—Minha intuição não falha, vocês vão ver. Temos o dever de saber o destino dessa infeliz criatura, que é parente de vocês, e compensá-la, por um segundo, pelo menos, se estiver viva. Ou reverenciá-la em nosso pequeno Marco, o que é mais provável.
As duas ficaram atônitas, mas Giulia forneceu-me o nome de família de Fabrizia: Aldobrandi.
Dormimos na casa da Avó de Aline, que era a sua casa também, onde passara a sua infância. No dia seguinte, de manhã, procurei na lista o telefone dos Aldobrandi. Havia vários telefones de pessoas com esse sobrenome, mas optei pelo primeiro, e atendido uma senhora, eu me apresentei como uma escritora que estava fazendo uma pesquisa para um livro sobre a colônia italiana de São Paulo. A senhora, que disse chamar-se Lina, aceitou me receber, dando-me seu endereço, no Brás mesmo.
Antes ainda do almoço, partimos, Aline e eu, deixando Marco com a sua bisavó.
Depois de poucos minutos, estávamos diante do portão de um casarão antigo, decadente, mas que denotava ter sido faustoso no passado. Recebeu-nos uma senhora idosa, de aspecto fino e altivo, com os cabelos pintados, e com um belo penteado matronal. Depois de nos fazer sentar e oferecer-nos um licor, que aceitamos, eu lhe perguntei:
—Dona Lina, eu soube que a senhora teve uma filha chamada Fabrizia, que morreu jovem, não é mesmo?
Dona Lina ficou um tanto surpresa, e perguntou-me como eu sabia disso. Respondi-lhe que nós escritores, como os jornalistas, também cruzávamos informações e consultávamos arquivos de bairro, como os dos tabeliões e cartórios, essas coisas. Isso pareceu tranqüilizá-la. Mas ela não parava de olhar Aline, de maneira inquieta e surpresa. Afinal ela disse:
—Essa moça, como é mesmo o seu nome? Aline? Vocè me lembra muito minha filha Fabrizia. Ela era assim, quase igual em tudo, a você. Sim, minha filha morreu muito jovem, e me faz muita falta.
—Dona Lina, sei também que Fabrizia morreu de parto, não é verdade?
A italiana levou outro susto e voltou a indagar, quase em pânico:
—Sim, sim, mas como você pode saber disso? É algo que nunca comentamos com ninguém. E no seu atestado de óbito não consta isso, por exigência do meu marido, quero dizer... Como você descobriu isso?
—Dona Lina, fique tranqüila. Minha pesquisa tem uma finalidade espiritual. Estou convencida de que tenho de descobrir o paradeiro ou o destino da criança que nasceu no parto de sua filha. Se estiver viva é uma pessoa de meia idade e precisa saber de muitas coisas, para ser compensada de ter sido separada de sua mãe, pela morte dela, e de sua família, por outras razões.
Dona Lina ficou assustadíssima, com o coração acelerado, e preocupadas, corremos a providenciar na sua cozinha um copo d’água, com a empregada. Afinal, tranqüilizada por nós, disse:
—Menina, não sei quem você é, mas isso é bruxaria, ninguém poderia saber disso. É um segredo de minha família, aliás somente meu, e de meu marido, que o levou para o túmulo, que eu esperava também levar. É também um pecado de família, pois... (ela calou-se).
—Eu sei, eu sei tudo, Dona Lina, ou quase tudo. A criança foi entregue a um orfanato, não é mesmo? A senhora e seu marido consideravam uma vergonha Fabrizia ter tido aquela criança, solteira, sem casamento, e sem o consentimento de vocês, não é mesmo?
Dona Lina ficou rubra, desta vez de cólera, e de repente revoltou-se. Disse quase gritando:
—Não vou dizer mais nada! Você é uma feiticeira, mocinha. Como pode saber disso? Não falarei mais nada. Não revelarei nada! Fora daqui! Fora! Não quero mais vocês aqui. Façam o favor de se retirarem!
Saímos as duas, muito constrangidas e frustradas com o desfecho. Não saberíamos o nome da instituição e a data da entrada da criança. O resto da pesquisa ia ser muito difícil. Então, quando já estávamos na rua, andando, fomos chamadas por um homem de meia idade, que correndo um pouco nos alcançou, e ofegante, nos disse:
—Senhoritas, ouvi tudo, sou o filho dela, e quero contar a vocês o que sei. O nome do orfanato é San Genaro, e fica no Bom Retiro. E foi no dia 30 de novembro de 19... , vocês encontrarão seu registro de entrada, no arquivo da instituição, se ela existir ainda. Senti que deveria revelar isso a vocês, porque me impressionou muito o que você disse à minha mãe. Mas se voltarem a estar com ela por qualquer razão, peço-lhes que não lhe contem o que revelei a vocês. Está bem? Adeus!
Ficamos uns segundos paradas na rua, olhando-o afastar-se de volta ao casarão, entreolhando-nos com um sorriso e um suspiro, depois batemos as palmas das mãos. A seguir pegamos um táxi, e tocamos para o Bom Retiro. Lá perguntaríamos pelo orfanato.
Depois de algumas paradas para pedir informações, afinal estávamos diante do prédio do Orfanato, uma espécie de palacete caindo aos pedaços.
Tocamos a sineta e um porteiro depois de olhar-nos bem, deixou-nos entrar, pensando, certamente, que duas moças bonitas e finas, querendo entrar, só podiam ser pessoas da sociedade querendo ajudar ou ser voluntárias nos cuidados às crianças. Deixou-nos entrar sem perguntas. Fomos direto procurar a diretora do estabelecimento.
Era uma senhora simpática, Dona Esther e após apresentar-nos, contei-lhe uma estória que a impressionou, para que me permitisse olhar os arquivos, para encontrar a ficha da criança que deu entrada naquela data fornecida pelo filho da Dona Lina. Foi-nos permitido, e depois de procurar nuns arquivos muito velhos, encontramos a ficha correspondente àquela data. Tratava-se de um menino que entrou sem nome, e que a diretora, na ocasião, batizou com o nome de Andrei, um nome russo, por ser a origem dos antepassados dela. Perguntamos à Dona Esther sobre aquele interno, e ela lembrou-se: Andrei saiu do orfanato com vinte anos, como jardineiro. E que excelente jardineiro ele era! Despedira-se muito grato a todos, e nunca mais voltara. Nunca souberam da vida dele fora do orfanato. Ficamos desoladas. Se o Andrei saíra e não mais voltara terminava ali a minha pesquisa, não haveria como seguir-lhe o rastro fora daqueles portões. Ou haveria? Talvez um golpe de sorte.


Esse golpe de sorte aconteceu de novo: à saída fomos interceptadas no portão por outra senhora idosa, que nos disse:
—Ouvi a conversa que vocês tiveram com a diretora. Sei algo sobre o Andrei. Ele faleceu o ano passado, como jardineiro de uma família muito rica, que parece que o apreciava bastante. A família Monteschiaro. A mansão deles fica aqui no Bom retiro, na rua.... mas não me lembro do número. Mas é fácil de encontrá-la, pois o terreno da casa ocupa quase a quadra toda. Boa sorte para vocês nessa procura, que não sei a que se deve, mas só pode ser coisa boa, porque vocês têm umas carinhas de anjo.
Sorrimos, demos-lhe um beijo e despedimo-nos agradecendo. Estávamos na pista novamente. Do quê? Eu pressentia de quê.


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Naquela temporada maravilhosa na estância, com minhas duas namoradas, com Rôdo e as crianças, meus amores todos, eu vivi os momentos mais quentes de minha sexualidade. Quero dizer, os mais eróticos mesmo. A ménage-a-quatre tinha sido retomada, e a verdade é que os três pareciam querer me devorar, mais do que eu a eles. Eu me deixava manusear e invadir por Aline, Laís e Rodo, com todas as armas que dispunham: dedos, lábios, seios, línguas e... o imenso falo de meu irmão que selava tudo, nos cobria como éguas, ou como cadelas. Como vacas? Também. Era maravilhoso, sermos banhadas por seu esperma abundante, embora perigoso, pois somente Laís poderia se dar ao luxo de engravidar agora. Eu tinha que estar sempre tomando pílula, pois era impensável conceber um filho de meu irmão. Poderia nascer degenerado, e transformar nosso prazer em tragédia. Mas éramos todos muito bem informados e atentos, apesar de tudo. E pudemos fruir essas deliciosas sensações da ménage, sem problemas e sem culpa. A não ser...
Sim, houve um problema, Matilde percebeu e chocou-se. Minha babá era moralista, afinal, sua formação era tradicional, de origem rural, muito rígida. E censurou-me amargamente:
—Alma, isso é pecado. Vais pagar isso de uma forma ou de outra. É uma pouca vergonha, minha filha. Não vês? Com tuas amigas? E com teu próprio irmão? Deus nos perdoe. Onde foi que eu errei ao criar o Rôdo, e também ao educá-lo? Sim, porque o Rôdo é obra minha. Nem a dona Ana, nem o doutor Werner, se ocuparam tanto dele como eu . E ele age assim agora? És tu, Alma, a responsável. És estranha, sempre foste. És indomável, rebelde e fora dos padrões das pessoas normais. Olha que vais pagar caro se o povo souber, se descobrir.
—Matilde—eu respondi— tu não contarás nada para ninguém, não é mesmo? Estou feliz, estamos todos felizes, as crianças também.Veja, não há mal quando há felicidade. Tu não podes entender, mas confia em mim. Sei o que faço. Meu pai aprovaria. Ele mesmo me ensinou a ser livre, e a amar fisicamente, que é a maneira mais sincera que uma moça bonita pode demonstrar o seu amor. Tudo mais são repressões e superstições. Não podes compreender, mas eu te peço, Matilde, cala-te e não te preocupes. Quem já foi absolvida pelo povo, como eu, naquele julgamento, não tem mais nada a temer. Lembra-te: “a voz do povo...”
Matilde ficou olhando para mim, triste ou assustada, não sei, e abanando a cabeça negativamente. Mas não disse mais nada.

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Segui com Aline para a tal mansão dos Monteschiaro, para tentar saber do Andrei. Lá chegando, uma impressionante mansão, muito bem conservada e pintada, indicava que aquela família não estava decadente, pelo menos não aparentemente. Pensei no nosso casarão da estância que já apresenta sinais de deterioração, e suspirei. Tocamos a campainha e uma voz no interfone nos interrogou. Apresentei-me como a escritora Alma Welt e perguntei sobre o Andrei, que eu precisava entrevistá-lo, pois encontrara a família dele. O portão se abriu automaticamente, ao mesmo tempo que um porteiro apareceu para receber-nos e conduzir-nos até a porta da mansão, muito distante do portão, e belíssima. Ali nos esperava uma linda senhora, elegante, que examinando nosso aspecto, sorriu e fez um gesto para entrarmos e sentarmo-nos em grandes poltronas em torno de uma mesa de centro fenomenal, em frente a uma lareira que parecia o palco de um teatro de marionetes, maravilhosa. A sala toda era um espetáculo, e lancei o olhar em todas as direções tentando assimilar as maravilhas que havia ali, quadros, esculturas e objetos de alta qualidade e requinte. Começamos a conversar. Eu disse:
—Senhora Monteschiaro, desculpe-nos visitá-la sem nos apresentarmos ou combinarmos antes ao telefone. Mas estamos vindo direto do orfanato SanGenaro, que criou Andrei, seu jardineiro. Sou Alma, escritora poeta e pintora, e tenho motivos para acreditar que Andrei, o seu jardineiro é tio da minha amiga aqui, Aline de Marco.
Contei-lhe a estória do pintor e sua modelo, e a tragédia no nascimento de Andrei. A senhora Monteschiaro ficou comovida e disse:
—Senhorita Alma, isso tudo é incrível! Eu nunca soube de nada disso. Apenas sabia que Andrei tinha sido criado num orfanato, de onde viera direto parta o meu jardim, onde foi feliz. Era um ótimo jardineiro e nós o queríamos muito bem. Era um excelente caráter, mas mais do que isso, era um rapaz muito puro. Infelizmente morreu no ano passado com cerca de 50 anos de idade.
Fiquei imediatamente abalada com aquela notícia. Perguntei à senhora:
—Mas senhora Monteschiaro, quando foi que morreu, em que dia, mês e hora. Pode dizer-me?
—Alma, posso chamá-la assim? Foi no dia 14 de novembro, às 2 horas da madrugada, em seu leito, no quarto que fica nos fundos do jardim. Morreu dormindo, e o legista calculou mais ou menos a hora, lembro-me bem disso, pois morreu dormindo, seu coração simplesmente parou, como um passarinho.
Troquei um olhar perplexo com Aline. Era a mesma hora, dia , mês e ano do nascimento de Marco. Não podia ser simples coincidência! Pedi para dar olhada no quarto dele, e para ela dar mais informações sobre a vida dele. Mas havia pouco a ser contado, e nada a ser visto no quartinho anódino, pois já se passara quase um ano e havia outro ocupante naquele quarto. Uma vida simples, senão monótona, de um homem puro e bom, em meio às suas flores, num belo parque em torno a uma mansão de gente muito boa e generosa. A essa altura, Aline e eu, muito comovidas, já estávamos segurando as mãos da senhora Monteschiaro, enquanto ouvíamos. Depois a beijamos, não aceitando o convite para o almoço, pois estávamos abaladas e comovidas com a morte de Andrei e... seu renascimento em Marco de Marco, que viera para corrigir o destino de Fabrizia, por via de Aline, a herdeira de sua bela profissão de modelo nu.

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No final de Abril, passeando, sozinha, em meu jardim, em meio às flores, uma bela amanhã, de repente ouvi um assovio, e lançando os olhos em torno, divisei atrás da sebe do nosso caramanchão florido, o rosto, o tronco e o braço de Gunther, meu querido bandido. Ele me acenava, disfarçando, ressabiado, logo se escondendo ali dentro. Ele voltara! Fui, sem hesitar, ao seu encontro, com alegria. Assim que me aproximei da entrada, ele me puxou para dentro, pelos ombros, e me beijou nos lábios ardentemente. Meu coração palpitava. Eu estava emocionada. Meu salvador me queria, ele me amava! Sim, era isso que eu pensava, naquele momento, romântica que sou. Diante da minha receptividade, ele me fez deitar, imediatamente, sobre a relva daquele espaço cercado, que permitia privacidade. E erguendo minha saia, puxou minha calcinha, retirou-a e cheirou-a, com grande prazer e naturalidade. Aquele gesto, acabou de me cativar e, então, puxei-o sobre mim para recebê-lo inteiro, aquele homem enorme, cujo calibre só se comparava ao de Rôdo. Então penetrou-me com delicadeza, lentamente, com cuidados, apesar do tamanho desmesurado de seu pênis, que me causou um pouco de dor. Mas eu queria tudo, queria até mesmo sofrer nos braços daquele homem, como se o fato dele ter-me salvado duas vezes, lhe desse o direito, agora, de me causar tanta dor quanto quisesse. Por quê sou assim? Na verdade, jamais saberei totalmente. Eu queria que ele me tomasse com força, e que dissesse coisas assim:
—Vem, minha Alma, dá-me tudo, quero penetrar-te até o sangue correr, quero todos os teus orifícios, todas as tuas aberturas, que selarei para sempre com o meu esperma, para fecundar-te, para perpetuar a minha estirpe de bandido.
É evidente que ele não disse isso, mas faltou pouco, e no fundo, em seu silêncio, era mesmo o que queria dizer, para mim era claro e... comovente. Ele se movimentava devagar, subindo e descendo, para não me machucar, pois seu membro, além de grosso, era muito comprido e ele sabia que podia bater no colo do meu útero, de maneira perigosa e dolorida. Mas ele sabia o que fazia. Sem perguntar se eu estava fértil ou não, explodiu seu sêmen dentro de mim, que estava enganchada, avidamente nele, com minhas longas e brancas pernas muito erguidas, abarcando seus rins.
Então, subitamente senti uma presença ali perto, e erguendo um pouco a cabeça, dei com Patrícia de olhinhos arregalados e mão na boca, de espanto.
Ela vira tudo, em detalhe. No ângulo em que estava, vira até a penetração, explícita, o que para ela deve ter sido especialmente chocante. Uma menina, ingênua, preservada, que nem sequer ousava sonhar tais coisas com o namoradinho, por quem era apaixonada! Eu tentei erguer-me imediatamente, mas estava penetrada, enganchada naquele homem, e tive dificuldade, tornando as coisas mais patéticas. Levantei-me afinal, empurrando Gunther, e correndo atrás de Patrícia, que chorava, correndo. Alcancei-a antes de ela atingir a varanda, e abracei-a, enquanto ela soluçava, com o rosto afundado em meio peito. Ela balbuciava:
—Tia Alma, Tia Alma o que era aquilo? Porque tu estavas fazendo aquilo com aquele homem? Não é só com o marido que a gente faz isso? Ah! Tia Alma era tão... assustador!
—Patrícia, Patrícia, —eu disse— me perdoe, eu devia ser mais cuidadosa. Mas olhe, deixa-me explicar-te... Se souberes mais coisas, não vais te assustar mais. Eu devia ter conversado mais contigo! Olha, é assim mesmo, entre homem e mulher e... não precisam ser casados, não. Casado é bom também, quando se ama, mas o importante é o amor.
—Mas Tia Alma, tu amas o Gunther? Ele é um bandido, não é? Como podes amá-lo? E Aline, e Laís? Tu disseste que as amava! Não entendo mais nada, tia!
—Patrícia, minha querida, lembra que eu te disse que podemos amar muitas pessoas, ao mesmo tempo? Eu, pelo menos, posso. Talvez isso não seja comum, mas eu sempre fui assim, e, olha, não sou a tua tia querida? Não sou boa? Não sou hipócrita. Entendes esta palavra? Não sou fingida. Reconheço que certas coisas devem ser feitas mais discretamente. Mais reservadamente, mas... Tu me perdoas? Quero-te tanto minha querida! Sinto tanto ter te chocado...
Patrícia ficou ali, muito tempo, com o rostinho entre meus seios, e seus soluços terminaram. Ela me abraçava apertado e eu sentia o quanto aquela criatura inocente e pura me amava.

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Eu continuei encontrando-me com o Gunther. Mas agora tomando muito cuidado, e fora dos limites do nosso jardim. Era quase um mistério como ele aparecia e desaparecia, sem ser notado pelos peões, e suas mulheres, nossas colhedoras de uvas. Ele era um mestre no despiste, e na ocultação. Eu, no início não ousava perguntar a ele o local de seu esconderijo. Sim porque ele devia estar baseado em algum “covil’ de bandido, conforme minha imaginação. Ele estava sempre armado, e eu sabia que ele receberia à bala, qualquer pessoa que o ameaçasse, principalmente a polícia. Ele devia estar fora do território brasileiro, já que estávamos relativamente próximos da fronteira uruguaia. Mas suspeito que ele permanecera ali, nas nossas terras, somente por minha causa. Tive essa comprovação, quando lhe ofereci dinheiro, para sua fuga. Ele pareceu ficar constrangido, e respondeu:
—Alma, queres te livrar de mim? Porquê me ofereces dinheiro para eu partir? Esqueceste que eu te devolvi todo aquele dinheiro roubado por teu cunhado? Não preciso de nada, a não ser de ti. Não vês que ainda não parti porque estou apaixonado por ti? Não me queres mais?
Experimentei uma grande alegria com aquelas palavras, e o abracei apertado. A verdade é que aquele homem, forte e aven tureiro, desvinculado de tudo, solto no mundo, ao seu bel prazer, ou ao sabor
das tramas de um destino intenso e radical, me fascinava, me hipnotizava, me fazia sentir mais feminina do que nunca, pois não esperava de mim, nada de forte ou independente. De mim, que ele salvara duas vezes, de maneira tão romântica, malgrado as violências escabrosas que antecederam sua ação salvadora. A estrutura intrínseca de nossa estória era romântica, eu sentia. E ele, com seu cavalheirismo nato, de cavaleiro antigo, era digno desse timbre romântico que existira desde o início da nossa relação. Lembrei-me do quadro de Magritte, que representava um violino pousado de pé sobre um colarinho branco engomado, sobre uma mesa . “Un peu de l’âme des bandits”, o título do quadro, dava a exata conotação do sentido que eu via no mistério do destino marginal daquele homem, que, na verdade, não estava “à margem”, mas no centro mesmo da verdadeira ação do mundo. No olho do furacão que não percebemos.
Uma vez consciente disso, eu não me preocupei mais com o perigo que ele corria, e com os nossos destinos, agora cruzados.
Gunther me amava, o quanto um bandido pode amar. Ele era um homem frio, e misterioso. No entanto, sua delicadeza para comigo revelava a sua capacidade de ternura, e eu sentia que podia confiar num homem assim. Mas ele queria me levar com ele. Essa idéia absurda tinha a sua lógica: se eu aceitava ser dele na cama, ser preenchida por ele, recheada por ele de seu leite viril, por quê não o seguiria até à morte? Estava aí o perigo. Ele era um homem simples, no fundo, e por isso já me considerava dele. Então, eu lhe disse:
—Gunther, querido, sou tua somente nos nossos momentos... Podes entender isso?Não poderei seguir contigo, ser mulher de bandido. Tenho minha família, meu deveres para com ela. Deves partir, pois já sabem de tua presença aqui na estância, e podes ser delatado à polícia por algum peão. Em mim tu podes confiar, devo-te a vida, jamais te entregarei, mesmo se for presa por isso. Serei fiel ao meu amor por ti, meu bandido, mas deves aceitar os meus termos. Também sou uma mulher livre, apesar dos meus vínculos de família. Mas não irei contigo.
Gunther olhou-me profundamente, com o seu olhar indefinível, que podia causar um certo medo, mas que eu aprendera a confiar. Eu era sagrada para ele, porque me possuíra depois de me salvar, e ele jamais me faria mal. Ele voltaria sempre, de tempos em tempos, eu sabia, pois afinal, eu, Alma Welt, era o “repouso do guerreiro”, para um bandido especial, amoroso. E sabia, de antemão, que um dia choraria por sua morte, talvez mesmo sobre o seu corpo maravilhoso, crivado de balas.

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A pradaria estava mais verde do que nunca, e as flores brotavam até mesmo no pasto, as pequenas flores, as sempre vivas, os “cardos” do Pampa. Eu voltei a cavalgar, agora com Laís, já que Rôdo viajara a Porto Alegre para vender mais um lote de peças do nosso tesouro. Aline, depois da maternidade, não cavalgava mais, era compreensível, mas seu último resquício de ciúme era justamente quanto a essas cavalgadas, que ela considerara uma marca especial, exclusiva da nossa relação. E ficava com o seu... o nosso bebê, no colo amamentando-o, sentada na cadeira de balanço, olhando um tanto tristemente para nós, que nos distanciávamos a galope.
Às vezes apeávamos, Laís e eu, à beira do nosso açude, para, despindo-nos, banharmo-nos totalmente nuas, naquelas águas deliciosas, claras, onde se podia ver os peixes junto às margens. Continuávamos, pois, audaciosas, ou imprudentes, pois podíamos ser vistas, pelo menos de longe. Mas eu não me importava, nós nos sentíamos ninfas do pampa, com todo o direito: pela nossa beleza, pela nossa alegria, e pela integração que sentíamos com a natureza.
Depois voltávamos, para o casarão, refrescadas, com os olhos brilhantes. Somente o galpão nos era vetado, pois fora ali que Laís fora violada, e ela nunca mais quis deitar-se sobre palha.
Então, à nossa volta, Aline, depois de botar o bebê para dormir, queria participar de nossa cavalgada... no leito, onde se esmerava. Ela tinha medo de perder-me. Ela não fazia mais cenas, mas, na nossa ménage, tinha performances sutilmente diversas entre mim e Laís. Ela mordia Laís, e enfiava-lhe os dedos com certa força, para machucá-la um pouco. Pobre Laís, que já fora tão ferida no seu corpo e na sua alma! Eu precisava ter uma conversa sobre isso com Aline. Mas antes que pudesse ter essa conversa, ele me surpreenderia uma noite, mais ainda. Tirou de sua gaveta, de sob as roupas, um artefato de silicone, um imenso pênis bastante realista, inclusive com veias saltadas e a cabeça um pouco avermelhada, presumo que para ser mais convidativo. Tinha correias ligadas à sua base, e ela, afivelando-as às suas ancas, envergou aquilo, ereto imenso, sobre o seu púbis. Era um pouco grotesco e ... assustador. Mas não pudemos deixar de soltar uma imensa gargalhada e de fingir fugir dela em torno da cama. Afinal ela nos “obrigou” a ficarmos as duas de quatro sobre o leito, com nossas ancas empinadas e nossas vaginas bem expostas. Ela iria nos aplicar um “corretivo”, segundo ela disse. Em meio a gargalhadas e gemidos fomos possuídas pela nossa Aline, que desta vez nos surpreendera. Ela parecia querer nos derrotar, com os movimentos de sua pélvis, quase violentos. Quanto a mim, ela se superou, depois de experimentar minha vagina. Introduziu aquilo no meu ânus, de tal forma, que literalmente me “arrombou”. Eu percebi que ela queria, daquela forma me punir, ou firmar o seu domínio. Laís era primitiva em sua alma, eu percebi naquele momento, mas... tudo nela me enternecia, e confesso: gostei do que ela fez. Eu sentiria dor ali atrás, durante três dias, e seria sua escrava voluptuosa. O único perigo era nos viciarmos naquela maravilhosa brincadeira. E naquela variação inusitada e dolorosa.

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Aline gostara de brincar de dominação, no nosso leito. Era uma forma dela compensar-se pelo que ela perdia com a maternidade em relação a nossa disponibilidade, minha e de Laís, de sair por aí, pelo”mundo”, a galope. Depois, havia também a sua suspeita do que acontecera entre mim e Gunther. Pobre Aline, no fundo devia sofrer, de ciúmes, pelo tanto que me amava, carnalmente. Quanto a isso, vou fazer uma declaração definitiva, a vocês, meus leitores:
Declaro solenemente que não acredito em dicotomia entre corpo e espírito e numa suposta espiritualidade que exclua o sexo, ou que pretenda pairar acima dele. É justamente esse pensamento discriminador que considero filho da hipocrisia e, portanto, da escravidão e da repressão. O sexo para mim é sagrado quanto mais pleno, livre e total. Eu só acreditaria num deus que soubesse copular, por isso sou devota de Zeus, o Grande Fodedor. Sexo é espírito, fiquemos, pois, combinados. Dito isso, prosseguirei nas minhas confissões, de minhas alegrias corporais e de minhas dores, não menos gloriosas.
Sim, eu queria sentir meu corpo: seus deleites e suas dores que me fazem sentir tão viva. Desenterrei de uma velha arca, um rabo-de-tatu do meu avô, de couro cru. Eu iria instigar Aline a açoitar-me com ele.
Leitor querido, se quiseres interromper a leitura de meu livro, faça-o agora. Ou continue para sempre!

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Laís conhecera Rôdo, numa estrada da Provence, pedindo carona. Começara ali um affaire itinerante pelas cidades do sul da França, que continuaria em Cannes, e na Côte D’Azur inteira, onde os dois fariam uma interessante parceria, no pôquer, desfiando um rosário de cassinos até a Costa Brava, na Espanha. Mas foi em Biarritz, que algo saiu mal. Rôdo, caiu em desgraça, após uma rodada, e provavelmente de maneira injusta foi acusado de desonestidade. Ambos foram interceptados na estrada, após uma perseguição perigosíssima, em que Rôdo, sendo um excepcional piloto, teria levado vantagem, com seu Porsche, não fosse uma bala que lhe furou um pneu, quase fazendo-o capotar. Obrigados a parar, foram arrancados do carro, e surrados brutalmente. Rôdo e Laís tiveram suas roupas arrancadas e deixados nus, na estrada, despojados do dinheiro que ganharam no jogo, e só tiveram o carro poupado de ser destruído, provavelmente para evitarem um caso policial que Rôdo levantaria, em que o corpo de delito seria o próprio veículo. Laís me contou que ficaram muito machucados, caídos na beira da estrada, completamente nus. Mas o pior foi o detalhe humilhante: os bandidos jogadores pouparam Laís do estupro, talvez para evitarem denúncia de crime hediondo, mas urinaram demoradamente, cinco homens, sobre Rôdo e Laís desmaiados, no chão.
Esse episódio doloroso, me foi contado por Laís num momento confessional muito íntimo, e eu percebi então como ela era muito mais sofrida do que eu percebera no princípio, até acontecer a terrível violação que ocorreria com ela em nosso galpão. Entretanto, mesmo com essa coincidência, duas violências sofridas, de um jeito ou de outro no âmbito de Rôdo, ela não fizera essa associação em seu espírito, e permaneceu entre nós. Ela percebia que nós a amávamos realmente, e isso era suficiente para compensá-la de tudo. O destino, sempre insondável em seus desígnios, fora um tanto brutal no preço que cobrara a ela para pô-la em nosso caminho, que lhe parecia tão essencial. Agora eu estava disposta a dividir todo o amor que tinha por Rôdo e Aline, com ela, embora consciente de que não conseguia protegê-la, eu mesma, que tantas vezes fora, também, vitima de brutalidades.
Mas eu imagino que a chave mesma, desse apego de Laís, a Rôdo e a mim, estava na indestrutibilidade da nossa aliança com a felicidade e a alegria, que ela via em nós. Nossa capacidade de recuperação, pelas bases sólidas de crença na vida, na beleza, na Arte e no Amor, que era a herança verdadeira de nosso pai.

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Naquela primavera nossa paixão carnal atingiu seu paroxismo. Nós nos procurávamos a todo momento, ou saíamos de mãos dadas, os quatro, e por isso éramos olhados de maneira desconfiada pelos peões, suas filhas e mulheres. Mas como éramos gentis e humanos quanto a seus problemas e necessidades, conseguíamos neutralizar, até certo ponto, os preconceitos renitentes de suas moralidades tradicionais. Eles não tolerariam a explicitude, claro, e tentávamos esconder nossos momentos de verdadeira orgia, que amávamos tanto realizar. Nunca me esquecerei dos lances radicais que praticávamos e tenho saudade daquilo, até hoje.
Meus fiéis leitores, vocês devem estar querendo saber daquele rabo de tatu do meu avô, não é mesmo? Pois bem, ele foi usado, sim. Eis como:
Aline e Laís estavam inquietas aquela noite. As crianças tinham ido dormir cedo, depois de ouvirem-me contar uma linda estória como eu fazia todas as noites, para todos, inclusive os adultos. Até Matilde, saia da cozinha e vinha ouvir minhas estórias. Porque, graças a Zeus, não tínhamos televisão na estância, nem nunca teríamos. Então depois da estória e do beijo em cada um deles em suas caminhas, eu me sentia livre para viver uma parte “adulta” da minha personalidade, que coincidia com a minha libido desabrochada, irrequieta. Meu olhar mudava, diziam minhas amigas. Eu perdia a inocência? Não acredito. A libido não tem idade, e a minha era pura e edênica, nascida sob o signo infantil da minha macieira, e ninguém, nem minha mãe em seu caráter repressivo, conseguira domá-la. Mas admito que meus olhos verdes adquiriam um acento felino, selvagem. Eu ficava, admito, “meio louca”, às vezes. Nessa noite eu retirei de sob as minhas calcinhas, na cômoda, aquele rabo-de-tatu, do meu avô, objeto a que já me referi. Ele dava medo só de olhar, com o seu couro cru e áspero, trançado. Pus-me nua, e disse às minhas gurias:
—Aline, Laís, hoje quero sofrer. Não discutam e me obedeçam, por enquanto. Depois eu obedecerei a vocês. Vamos brincar de escrava branca. Comecem me amarrando à guarda da cama, com esta corda. Assim, assim, Laís, bem forte. Ai! Quero sentir dor! Meu coração não cabe no meu peito, vou sufocar de entusiasmo de viver, se vocês não me reduzirem. Eu não caibo em mim. Dêm-me dor! Dêm–me alguma dor!
Aline começou a bater com o rabo-de-tatu em minhas costas, a princípio fracamente, e logo aumentando a intensidade e a força das chibatadas, e descendo até as minhas nádegas brancas, que ficaram logo avermelhadas. Laís estava horrorizada, e as duas estavam tão ofegantes quanto eu. Eu gemia e me contorcia, balbuciando, em lágrimas de dor e de prazer:
—Aline, bata-me, bata-me, meu amor. Eu mereço, sou uma guria levada, eu vou ser boazinha, eu vou ser a sua escrava, lamberei seus pés, limparei a sua sujeira!
Aline interrompeu a sessão de chibata, subitamente indignada, com os olhos úmidos, atirando o instrumento de tortura, longe, contra a parede e saiu correndo do quarto, para colher Marco em seu berço, no quarto ao lado. Começou a acalentá-lo e a encostar sua boquinha rosada em seu seio, embora estivesse adormecido. Suas lágrimas corriam. Eu fiquei desolada e envergonhada. Laís estava perplexa e... horrorizada. Minha necessidade vital de sofrer não levara em conta a atitude de violência que eu impingia a seres tão delicados, que não podiam exercer esse papel, sob pena de violentarem suas naturezas. Eu teria que desistir dessa modalidade de prazer? Dei-me conta, então, que ela surgira, ou desabrochara, melhor dizendo, depois da minha flagelação por um verdadeiro inimigo. Por isso Júlia detectara o meu prazer devassando a minha vagina, após a tortura cruel, verdadeira, a que me submetera o meu inimigo. Então, nada poderia substituir a realidade da dor e da crueldade paroxísticas do ódio verdadeiro? Eu comecei a chorar, enquanto era desamarrada por Laís.
Eu chorava pela minha necessidade de vida, da crueldade da vida, que nada podia satisfazer a minha sede de realidade, de toque, do sangue da terra!


FIM do Capítulo Quarto (Estórias das Amadas) de O Sangue da Terra


Aguarde o próximo (e último) capítulo do romance "O Sangue da Terra" de Alma Welt, um epílogo entitulado "A Vinha de Dioniso"



13/07/2005

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ALMA WELT




A VINHA DE DIONISO


Quarta e última parte do romance “A Herança”



A Vinha de Dioniso

Capítulo Primeiro


A Rainha Devassa


Desta varanda, sentada em minha cadeira de balanço, avisto o meu Pampa inteiro à minha frente, até o horizonte, que parece chamar-me, nestes dias magníficos. Aqui vivo cercada das minhas queridas crianças e dos meus amados Rôdo, Aline e Laís.
Meu irmão vai e vem, do mundo, no seu carrinho esporte, e o balanço de suas ausências e retornos marca o ritmo anímico que coincide com as estações nesta estância, como em meu coração incestuoso e ardente.
Entretanto, espero ainda algo que corresponde à parcela mais romântica desta nova fase da minha vida. Sim, pois meus amores assumidos, que me cercam, tornaram-se familiares e... cotidianos. E vocês, meus leitores, sabem o quanto necessito do mistério, da nostalgia e mesmo da... exceção, em minha vida. Do perigo? Também, mas sobretudo das emoções do lado escuro da alma, aquele lado que não conheço bem, e que me instiga, apesar do medo.
Ando pelas pradarias, a pé, ou cavalgando com minhas amigas e amantes. Mas freqüentemente o faço só, solitária, olhando os longes, e o entorno, como quem espera, espera.
Aline e Laís sabem deste meu novo “desvio”, quer dizer, desta paixão, e estão perplexas, senão amedrontadas. A verdade é que perderam a segurança comigo, e agarram-se, agarram-se a mim, com medo de perder-me.
Aline tem o “nosso” bebê, o pequeno Marco, mas sente que não tem um marido, e seu filho não tem um verdadeiro pai. Não quero dizer, com isso, que ela esteja arrependida de sua “produção independente”. Ela sabe que eu não poderia, obviamente, fazer esse papel, e Rôdo, o pai biológico, é tão somente isso, por enquanto. Irá ele, algum dia, “assentar o facho”, e permanecer junto ao seu filho, para ajudá-lo a crescer, a seguir, pelo menos, o seu exemplo de jovem aventureiro? Não creio. Somos uma “família desfuncional”, evidentemente. Mas como nos amamos, todos, uns aos outros!
Meu coração inquieto, no entanto, me leva a sonhar e esperar... sempre, sempre.

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Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos, pus-me a escrever poemas, diariamente, que funcionavam como um diário secreto, para driblar a minha mãe, que certamente invadiria minha privacidade se eu mantivesse um diário em prosa corrente.
Nos meus versos eu fazia uso de um simbolismo oculto, sem abusar de metáforas, de maneira que meus pensamentos pareciam obscuros, mas inofensivos. E assim, Ana Morgado, minha mãe, desinteressou-se dos meus versos e nunca percebeu que a verdadeira história e percurso da minha alma já estava ali, camuflada, de maneira sutil, e os segredos do meu coração foram preservados... até certo ponto.
É verdade que um ano antes, eu fora flagrada com Rôdo, peladinhos os dois, sob a nossa macieira, fato que já contei sobejamente em diversas ocasiões, nos meus textos em prosa e em verso. Mas isso não evitou que nós, Rôdo e eu, continuássemos a desenvolver nossas relações tão profundamente físicas, como já narrei.
Mas, o meu universo interior, de base romântica, transcendia em muito qualquer namorico, e a ardência do meu coração me levava a vôos insuspeitados pela visão tacanha de minha mãe, que quisera tão somente montar guarda na minha “xotinha”, essa é que é a verdade. Em vão.
Eu continuei me encontrando com Rôdo, de maneira mais hábil e secreta. E naquele bosque em que muitos anos mais tarde, recentemente, eu fui violentada pelo meu cunhado Geraldo, ali, quase no mesmo local, numa clareira oculta, ali, eu me encontrava com Rôdo, e entregava-me a ele, de todas as maneiras. Num dos meus ciclos de sonetos, eu contei o episódio do balanço, que armáramos num galho forte da minha macieira. Na verdade, isso se passara na nossa clareira secreta, no bosque. Mas vou transcrever aqui essa narrativa do meu ciclo de “Sonetos Ocultos”:

(Transcrever aqui, em duas colunas, o ciclo dos dez “Sonetos Ocultos”, de Alma Welt)


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Agora, eu me sentia no limiar de uma nova fase em minha vida. No fundo, eu sabia a que se referia essa espécie de expectativa calma, de espera. O novo amor que se instalara em mim, com a força da exigência romântica do meu coração, era, vocês sabem, o de Gunther, o meu “amor bandido”, o cavaleiro do Walhalla, que se insinuara em minha vida a partir de um olhar meu de desespero, um bilhete de pedido de socorro e depois de sua ternura insuspeitada, e momentos de delicadeza inusitados num homem assim, desraigado, soldado da fortuna e bandido romanesco.
Eu olhava o horizonte, ali, da minha varanda, freqüentemente com o pequeno Marco engatinhando ali, perto de mim, puxando-me a saia até eu colocá-lo deitado sobre as minhas compridas coxas, para brincar com os seus pezinhos, e sorrindo para ele, contemplar o seu sorriso maravilhoso. Mas eu sempre estava sondando os longes com o meu olhar, como um fanal da pradaria, por onde viria, navegando na ondulação das coxilhas, o meu amor, nascido na adversidade e que tinha promessas nunca feitas, de uma plenitude incompreensível, porque sem raízes e sem futuro.
Eu deveria cumpri-lo, esse amor, com seu potencial trágico, já meu “cavaleiro” era um fugitivo da polícia, procurado por mais crimes do que eu quereria saber. Mas, eu conhecia uma parte do seu coração, que avalizava minha entrega, minha confiança no seu caráter. Ele tinha razões secretas para todos os seus crimes, um álibi fundamental, um ponto de partida trágico, alicerçado na honra. Eu assim acreditava. Eu tinha a certeza do coração apaixonado. E esperava, esperava.
Eu estava cercada dos meus amores, que me olhavam inquietos, sentindo-me partir aos poucos, para uma aventura que não as incluía, e tentavam chamar-me a atenção,Laís e Aline quase desesperadas. As crianças, por seu lado, tinham uma atitude mais sábia e confiante, e permaneciam calmas, brincando entre elas. Elas confiavam em mim. Eu as decepcionaria? Seria capaz de decepcioná-las? Certamente que não.
Por quê, então, esperava?


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Rôdo estava novamente longe, rodando pela América Latina, pelos países andinos, com uma nova companheira, uma chilena que ele conhecera em Porto Alegre. Laís não se importava mais. Tampouco Aline, que já se resignara a ter “um pai ausente” para o seu filho. A propósito, é preciso que eu conte que Aline, tendo novamente experimentado asa delícias da penetração fecunda, estava insatisfeita comigo e ansiava entregar-se a um homem, ter um novo filho, e olhava-me com um laivo de ressentimento. O quê podia eu fazer? Usar, ao menos, aquele falo de silicone que ela mesma providenciara, adquirindo-o em São Paulo, num Sex-Shop, escondida de mim? E, no entanto, ela é que o usara ativamente em mim e em Laís. Eu me recusava a usar aquilo, afivelá-lo em minhas ancas, apoiado em meu púbis. Eu me sentiria grotesca. Laís, também, nem pensar. E assim, estávamos todas insatisfeitas, pela primeira vez, em nossa tríplice relação. O quê tinha acontecido? O quê se perdera? Eu nunca fora viril na minha maneira de ser na cama. Sou bem mais passiva do que ativa, embora já tenha experimentado, no ardor da relação, a introdução do meu punho inteiro dentro de Aline, depois do seu parto, que a deixara muito mais aberta, vocês sabem. Mas falta-me o verdadeiro componente ativo, o Animus, que em mim é muito rebaixado. Basta dizer que não sou capaz sequer de dirigir um carro, e sempre necessitei de motorista. Em São Paulo eu só andava de táxi, embora tenha experimentado o metrô, às vezes. Bem, mas isso não vem ao caso. Eu tenho a tendência a divagar, a perder o foco. A questão é que eu não poderia ser o “macho” dessas mulheres que me cercam, simplesmente isso! Pronto, essa é que é a verdade! E se elas não vão embora, por outro lado, é porque realmente me amam, mais do que gostariam, ou do que lhes é conveniente.
Freqüentemente, na cama, elas me assaltam, exasperadas, e por sua vez me penetram e me machucam, com os dedos, com os punhos, com as unhas e com os dentes. Começam já a bater em minhas nádegas muito brancas, com as palmas, e a mordê-las. E seus beijos, então? Deixam marcas inconvenientes, que tento disfarçar com pomadas para não escandalizar as crianças. Aline, recentemente, prendeu meu clitóris com os dentes, e não o soltava mais, ameaçando decepá-lo. Fiquei apavorada. Começo a crer que corro perigo, com estas duas louquinhas desesperadas.
A verdade é que a solidão, inerente a este Pampa, neste casarão perdido no meio da infinita pradaria, no meio desse mar de coxilhas, produz um gradativo enlouquecimento em pessoas como nós. A beleza perpétua, o isolamento, o tempo que se escoa mais lentamente que em outras partes do mundo, com exceção das montanhas, como os Andes, segundo me diz Rôdo em seus postais, isso tudo nos mina, nos corrói gradativamente, cobrindo nossa alma como um musgo à pedra, produzindo uma vertigem de decadência, profundamente romântica e demencial. Somente as crianças parecem imunes a esses venenos corrosivos, do tempo e da solidão. Elas têm um impulso ascendente, que já nos falta, a nós, que embora jovens, já sentimos a vertigem do abismo, uma volúpia de soltar o corpo e rolar, agora que atingimos o auge dos nossos potenciais e de nossa beleza de mulheres. Ai! Que será de nós, loucas mulheres, se não chegar um cavaleiro? Três cavaleiros? Levem-nos com vocês, homens fortes, seguros! Vocês existem? Homens maduros, talvez, que nos apartem como rezes, escolhendo uma, cada um. E nos levem, para desfrutarem de nossa beleza, possuindo-nos e fecundando-nos, até o nosso sangue e sumos escorrerem entre seus lábios e dentes fortes! Estamos aqui, venham! Ai! venham!

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Então, finalmente, eu avistei, uma manhã, ao longe, um cavaleiro que vinha a passo, e depois a trote em direção ao casarão. Eu me ergui da cadeira de balanço desta varanda e fiquei alerta, tensa e... logo trêmula, inclinada para a frente. Ergui um braço, apontando, depois o outro, e começava a precipitar-me, ofegante, quando fui agarrada por Aline e Laís, que gritavam:
—Não, não, Alma, não vá! Não nos deixe! Alma, sua louca, tu não podes! Não podes!
Laís, de joelhos, agarrara-me as pernas. E Aline segurava-me os braços por trás. Eu me debatia. Desvencilhei-me delas com violência e corri. Corri em direção ao cavaleiro, que se aproximava agora a galope!
Diante dele, Gunther, o cavaleiro, que fez o cavalo estacar, quase empinando-o, eu estava ali, no meio da pradaria, de braços estendidos, com um sorriso estampado em meu rosto, olhos brilhantes e úmidos.
Gunther apeou do cavalo, e abraçou-me. Eu me afundei profundamente naquele peito forte, que me abarcou toda. Senti-me pequena e ao mesmo tempo plena, plena. Por alguns minutos, não precisei de mais nada. Mais nada, na vida.

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O avô Joachim me assustava, com a sua catadura de nenhum amigo, seus lábios finos como uma fenda na queixada poderosa, quadrada, no rosto comprido de imenso nariz. Com dois metros e alguns centímetros de altura, e mãos enormes, falava pouquíssimo e trabalhava muito. Eu, simplesmente não podia compreender um homem assim. Tanto mais que o Vati, meu querido Vati, era falante, doce, carinhoso, embora também forte. Como pudera sair assim, nascido daquele casal estranho, de alemães, tão diferentes do povo deste sul, de homens falantes, cantadores e extrovertidos? Meu avô considerava os gaúchos uns “gargantas” (ele fazia um gesto com as costas da mão, sob o queixo, que me desagradava pelo seu desprezo). Quanto à minha avó, já contei como ela revelou-se interessante, com sua veia picaresca, de bruxa gargalhante, cheia de estórias inusitadas, e algumas receitas alemãs, de origem camponesa, que me cativaram o paladar. Mas o Vati, saíra cedo da colônia, do vale do Itajaí, para estudar na Europa, e se tornara um homem culto até à erudição, abrindo assim um abismo, aparentemente, entre ele e seus pais, ou mesmo seus ascendentes camponeses. Quem, como ele, tocava os clássicos, desde Bach até os grandes românticos, tinha percorrido um longo percurso, transpondo em si mesmo um abismo cultural e até mesmo social, milenar. Eu sou a sua herdeira. E só recentemente pude enxergar em mim mesma algo da raiz camponesa, da rusticidade e talvez do primarismo em minha estrutura emocional, quando me atraí, e me apaixonei por um homem forte e simples, monolítico, como o Gunther. O que teria esse jovem bandido para me atrair, já que o mundo propriamente “intelectual” não existia dentro dele? Ele era todo instinto e combate. Um guerreiro. Um antigo germano, um viking. Mas os guerreiros sempre foram grandes amantes primários, irresistíveis. Eu me lembrava imediatamente de Odisseu, ou de Aquiles, ou ainda do jovem Páris, que seduziu a mulher mais bela do mundo, Helena, esposa do seu hospedeiro, o rei Menelau, de Esparta. Esses guerreiros deviam ter algo irresistível às mulheres de seu tempo, e até hoje fascinam quem lê os seus feitos. Talvez porque eram, simplesmente, homens de ação, mas no sentido mais pleno e profundo da expressão. Assim eu via Gunther. É verdade que Rôdo, também, sempre me deu essa impressão, e por isso mesmo a minha atração por ele, desde menina. Eu, uma artista, sonhadora e... amorosa. Apaixonada pela beleza, pela música, a poesia, a pintura, e a dança. Pelas crianças. Eu me surpreendia com essa atração primitiva pelo homem de ação, pelo guerreiro, pelo homem forte e até mesmo brutal, simplesmente porque não via vulgaridade nele. Sim, a única coisa que me causava repulsa no ser humano, a vulgaridade, não havia nele. Ele podia matar... os seus inimigos, ele podia roubar os ricos e acumuladores, que nada disso diminuía a minha atração por ele. Como disse alguém: “O que é um assalto a um Banco, comparado a um Banco?” Sim, eu sempre o absolveria de tudo, ou quase tudo, desde que não houvesse verdadeira crueldade, ou melhor, vulgaridade. O demônio da vulgaridade. Eu via, como exemplo de oposição a um homem assim, justamente o meu finado cunhado, monstro bestial, o Geraldo. Eis onde a vulgaridade o levou. Quando penso nisso, sinto-me conspurcada e impura, só de lembrar. Sou pura, sou bela, e amo o ser humano em sua diversidade. O meu guerreiro pode tomar-me, plantar-me um filho no ventre, um guerreirozinho ou uma donzelinha, que estará tudo bem. Tudo certo. Quero ser a fêmea vaporosa de um guerreiro coberto de ferro da cabeça aos pés. A armadura de aço me fascina, só os homens fortes se revestiam delas. Os fracos se cobriam de seda.

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Gunther entrou em minha casa e “teve” que ser aceito por todos. Aline, Laís, Matilde, Galdério, tiveram que aceitá-lo. Afinal, eu sou uma “rainha” de minha estância, essa é que é a verdade. Era hora de assumir o meu papel, definitivamente. A minha vontade devia prevalecer. Era o que se impunha, pelo encadeamento de circunstâncias, começado muito tempo atrás, com a morte do Vati. Talvez mais atrás ainda, no velório de Frida, que me chamara princesa, quando era ainda menina. Quanto às crianças, elas já respeitavam o Gunther desde que eu o apresentara a elas como o meu salvador nos momentos de grandes perigos. Elas estavam predispostas a amar o herói.
Aline e Laís não tardaram a ficar fora do quarto, ouvindo nossos gemidos de prazer. Meus gritos de êxtase e alegria. Nunca fui tão cruel, como nesses dias. Agora tenho medo disso... em mim. Como pude fazer isso com elas? Eu estava louca de amor, ou desejo. Mas não me arrependo. Não se trata disso. Estou apenas perplexa com as reviravoltas da paixão, e comigo mesma, por nunca chegar a me conhecer verdadeiramente. Que mistérios, que vulcões existem dentro de mim! De onde vem esse fogo volúvel, esse fogo-fátuo de desejos, alguns inconfessáveis? Mas confessarei. Sim, tudo. Estas páginas servem para isso. Contarei coisas que uma moça não conta nunca, pelo menos neste século, nesta virada de século. Não tenho mais peias, nem mordaças. Contarei como depois de ser tomada “mil vezes” pelo meu guerreiro, como que ouvindo os soluços de minhas gurias amantes atrás da porta, afinal chamei-as para que participassem, pedindo ao Gunther que as conclamasse para o nosso leito, que as possuísse para eu ver, e para ouvir os seus gemidos de prazer e de dor. Eu continuava “generosa”, eu repartia meus amores, meus dons e privilégios. Elas pareceram compreender, nos primeiros dias e noites, embora não sem acumular ressentimentos, principalmente Aline. Ela esperou ver-me só, no quarto, um dia, para gritar:
—Alma, sua bruxa, você é má! Olhe o que está fazendo conosco, com todos nós! Você no fundo é depravada. Olhe, olhe o que está acontecendo conosco! Somos animais na cama desse bruto. Ele é belo, mas é frio, ele não ama. E você, nos ama? Não sei mais! Você nos manipula, você sempre nos manipulou, essa é que é a verdade, até mesmo quando pede para nós a açoitarmos! É você que comanda, e sempre por um capricho insano, que nos corrói por dentro, você não vê? Olhe o que está acontecendo com Laís: tornou-se uma marionete, um belo farrapo humano. E eu? E eu? Vou pelo mesmo caminho! Mas eu tenho um filho para criar, não vou mais corroborar seus caprichos, que não param, não cessam e tendem a se tornar mais graves. Você tem que parar. Tem que mandar embora esse homem. Ele não é um príncipe, ou cavaleiro. Ele é só um bandido, você não vê?
Eu fiquei estarrecida com esse desabafo de Aline, mas depois de hesitar um segundo, protestei:
—Aline, querida, o que é isso? Como podes dizer isso de mim? Eu sempre fui assim mesmo, e te amo, desde o princípio. E você me amou me conhecendo, sabe que reparto, que não tenho ciúmes, que amo o amor e o sexo, não aceito peias nem repressões. Não sou uma burguesa, e tu, parece, às vezes, ter recaídas nesses padrões do Brás. Somos artistas, lembra-te? Tu és um modelo nu, glorioso, de artistas, não te esqueças. Não deixa os padrões morais pequeno-burgueses te dominarem, subirem dentro de ti, vindos lá de trás, da família italiana, de classe média. Não fomos felizes? Não te dei um filho, de um jeito ou de outro? Por quê te queixas?
Aline, furiosa, respondeu-me com uma bofetada. Ela interpretara como cinismo as minhas palavras. Talvez fossem mesmo, pois eu sempre admirara o cinismo, cujo modelo mais pleno e assumido, sem vulgaridade, eu vira sempre em meu irmão. Botei a mão sobre o meu rosto, onde ela o esbofeteara, e permaneci calada, um tanto chocada, por um minuto. Depois continuei:
—Aline, perdoa-me. Não me expressei bem. Mas acho que estás sendo injusta: não tenho essa força de... manipulação. Olha dentro de mim. Perscruta teus próprios desejos. Veja se já não estavam todos aí, desde sempre. Nada posso, se vocês não quiserem. O prazer, o desejo, para mim são sempre belos e sagrados. Sou feliz, apesar de tudo, de toda a dor. Esse é o meu segredo. Quero a vida, quero tudo, quero todas as experiências do coração e dos sentidos. Não posso parar se me ordenam. Só quando meu próprio coração o faz. Vem, Aline, beija-me agora, e vê como sou sempre a mesma!
Coloquei sua mão sobre o meu seio, que palpitava emocionado, e ofereci-lhe meus lábios. Ela retirou a mão e recuou, virou-se, ia sair, mas estacou paralisada.
Então, virou-se e atirou-se em meus braços, devorando-me de beijos, mordendo meus lábios. E dizia:
—Alma, Alma, sua louca, eu a amo, eu a amo. Sou sua. Faça o que quiser, mas não deixe de me amar, não me dê ao Gunther sem cobrar meus beijos, ao mesmo tempo. Sim, me dê a ele, sem descolar meus lábios dos seus! Ele é só um instrumento. Você é minha deusa. Toma-me, toma-me agora, que estamos sós!
Ela arrancou nossas roupas e atirou-se sobre mim no leito, como nunca, numa sede desenfreada, enquanto o pequeno Marco, no quarto ao lado, no seu berço, começou a chorar e a chamar.

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Estávamos vivendo num extremo, no limite. Nossa libido, estimulada pela nova experiência, nos embriagava. E era maravilhoso estarmos vivos! Gunther se instalara em meu quarto, e já não disfarçava, andávamos pela estância inteira, cavalgávamos, os quatro, até muito longe, nos limites das nossas terras. Banhávamo-nos no açude e no ribeirão. Íamos até a nossa cachoeira, para brincarmos, todos nus, antes do almoço que nos congraçava à grande mesa, com as crianças, que estavam adorando aquela fase, embora o Gunther fosse lacônico, e sempre um tanto misterioso. Patrícia era a única que ainda tinha uma certa reserva quanto ao Gunther, chegando a manifestar isso, um dia:
—Tia Alma, quando o Gunther irá embora? Eu preferia quando éramos somente nós aqui, sem ele. Por quê o tio Rôdo está demorando? Por quê tu não o chamas, de onde ele estiver. Sentimos tanta falta dele!
—Patrícia, querida—eu respondi—Tio Rôdo voltará breve. Eu prometo que, quando ele voltar, Gunther terá ido embora. Mas tu tens que saber que o meu novo amigo voltará, de tempos em tempos. Eu gosto dele. Ele me ama, sabias? Ele nunca me fará mal, nem a nenhum de vocês. Eu te garanto.
—Mas, tia, não é isso... é que ficas diferente, com ele aqui. Tu pareces menos forte, e até perguntas coisas a ele, que nem te responde. E, no entanto, ages depois como se ele te tivesse dito o que fazer. Estás toda melosa com ele. E ele é estranho, é frio, não reage como todas as pessoas... Não confio nele.
Fiquei olhando aquele rosto lindo, puríssimo, acariciando a sua face, e meditando. Ela tinha uma certa razão. Eu estava dominada por uma paixão, me tornara submissa. Gunther se instalara “como um posseiro” como disse Chico Buarque, e não tardaria a ditar as regras. Eu tinha que reagir... a mim mesma. Mas, como fazê-lo? Pois eu ficava molinha quando ele me tocava. E adorava ser manipulada por ele. Possuída, sim, possuída. Com força. Ai! A nossa volúpia de abandono, de nós mulheres, nas mãos dos homens! Isso vinha de muito longe. Eu já o estava servindo como uma escrava, gradativamente me submetendo mais e mais. Mas devo reconhecer que o Gunther, talvez por me ter como uma criatura sagrada, diferente de tudo o que ele vira em sua vida, me respeitava ainda, e não abusava demais da minha submissão voluntária, fora da cama. Sim, porque longe do nosso leito eu ainda era uma rainha, ou pelo menos uma princesa, para ele. Ele me admirava. Mas, de noite, nas nossas noites ardentes, ele fazia coisas incríveis comigo, que seu instinto de macho e predador lhe ditava. Não me deterei sobre esses detalhes, embora possa fazê-lo, eventualmente, pois vocês, meus leitores sem rosto, sabem que isso não é problema para mim, e até gosto de fazê-lo. Sim, vou contar um pouco:
Gunther colocava-me em posições complicadas, até de cabeça para baixo, mas o seu maior prazer era mesmo a sodomia, que me fazia imediatamente recordar as estórias do Condestável Gottfried, de minha avó Frida. Comecei a associá-lo mais e mais àquele personagem, e a temer engravidar... por trás! Ele me enchia do seu esperma abundante, e eu andava cada vez com mais dificuldade, um tanto descadeirada. O pior, é que, Aline e Laís também estavam passando pela mesma situação. Também eram sodomisadas na minha frente, todos juntos no mesmo leito. Aquilo tinha o valor simbólico da submissão, eu percebi, no inconsciente de todas nós. Para Gunther representava a sua dominação natural, instintiva, de macho. Aquilo era perigoso, pois estimulava seu instinto masculino, de prepotência e domínio, e podia estender-se gradativamente para fora do leito, e eu acabaria por perder completamente o governo da minha estância. Tive que fazer um imenso esforço para reagir.
Uma manhã, acordando com grandes dores no ânus, e dirigindo-me com dificuldade até a cozinha para pedir um café da manhã à Matilde, encontrei-a com a expressão severíssima, dizendo-me:
—Alma, guria, tu estás um trapo! Olha para ti! O que estás fazendo contigo? É isso que consideras romântico? Mal podes andar! Pensa que não imagino o que esse homem faz contigo? Eu conheço a vida, conheço a nós mulheres. Tu não te envergonhas de te submeteres assim, afinal, a um estranho? Preferia a tuas lambanças com teu irmão! Essa é a verdade. Pelo menos estava tudo em família! Ai! A que ponto chegamos, para eu dizer isso! Alma, tu tens que parar. Manda esse homem embora, antes que seja tarde demais, e te transformes num farrapo, numa sombra de ti mesma. És uma princesa, como dizia tua avó, e também o teu pai. Ou não? És uma escrava? Não serei a escrava de uma escrava!
Fiquei ali diante dela, de cabeça baixa, olhando-a de baixo para cima. Matilde tinha razão. Ela me amava como uma mãe ideal, se posso dizer assim. Ela via o perigo que eu corria. O perigo que eu era para mim mesma! Sempre via as coisas por esse lado. No fundo, ela me conhecia como ninguém! Talvez Aline já me conhecesse assim. E Patrícia, num nível mais inconsciente, de sensibilidade pura. Eu lhes devia, a todas elas, a integridade da minha alma, e até do meu corpo, que corria igualmente perigo. Eu tinha que reagir. Procurei Gunther no limite do meu jardim, e caminhamos de mãos dadas na pradaria, muito longe, naquela manhã esplendorosa, seguidos por pequenas borboletas amarelas que me encantavam. Paramos, eu me virei para ele, e disse:
—Gunther, querido. Deves ir embora. Eu sinto que é chegada a hora de partires. Tive um sonho: a casa estava cercada e ouviam-se tiros. Eu tinha um rifle na mão, e atirava pela janela. Senti um calor imenso no peito, botei a mão ali no meu seio e a olhei coberta de sangue. Então, uma angústia, como uma dor imensa, me acordou. Isso é um presságio, Gunther! Deves partir, pois o cerco está se fechando, eu o sinto. Tenho medo de que morras, e eu contigo. Esta noite consultarei a minha macieira, queimarei as ervas sagradas diante dela. Ela dirá o dia e a hora que deves partir, e o rumo que deves tomar. Algum dia nos reveremos. Isso é tudo, por enquanto.
—Alma—ele respondeu com aqueles olhos azuis sem muita expressão— Tu sabes que eu não ficaria um minuto a mais, sem que me queiras junto a ti. És a rainha, como dizes, e eu teu cavaleiro. Eu me acostumei com essa tua maneira de dizer as coisas. Eu te compreendo. Deves ter razão. Eu partirei no dia e hora que anunciares, pela tua macieira.
Beijei mais uma vez os lábios do meu cavaleiro, e tive que fazer o primeiro esforço para não me deitar ali, na relva, entre as flores, com ele sobre mim, à vista dos peões e das colhedoras de uvas que nos olhavam de longe, com a mão em aba sobre os olhos.

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A noite era de lua cheia, magnífica e estrelada. Mas o clarão era tanto, que tive dificuldade de enxergar o Cruzeiro do Sul, e aquelas que associamos ao Negrinho do Pastoreio. Eu colhera ervas durante o dia todo, e com elas numa cesta, dirigi-me, acompanhada de Aline, Laís, Patrícia e Gunther, ao pomar, e armei a trípode diante da minha macieira, a “Ara”. Comecei a queimar as ervas olhando atentamente a coluna de fumo que subia para a lua. Estávamos nós quatro, mulheres, vestindo túnicas finas sobre a pele. Gunther estava como sempre, mas sem paletó, e com a cartucheira com seu revólver no peito, com aquele seu suspensório de gangster. Ele não se desgrudava de sua arma, e eu não pediria jamais que ele se desarmasse. Não se pede isso a um cavaleiro, nem mesmo diante do altar. Somente diante do Graal o guerreiro deve estar nu e desarmado. E o Graal, não o tínhamos ainda em nossa estância. Talvez um dia eu providenciasse a transposição desse mito, para cá, para o Pampa, para a nossa estância e meu vinhedo. Mas o Graal que eu via por aqui era a “Taça de Dioniso”. Estávamos cercados da sua vinha; e sua taça, eu a tinha nas mãos, e era uma cuia de chimarrão, rústica, onde coloquei um tanto da última garrafa do nosso vinho herdado de meus avós, o “Ara dos Pampas”, e molhamos os lábios de cada um de nós. A seguir, invoquei:
—“ Ó Ara, macieira da minha vida, diz-me, pela luz desta Lua magnânima, o que devemos fazer! Gunther deve partir? E quando? Diz-me o dia e a hora! Ele corre perigo? Diz-me, ó minha macieira, dê-me um sinal!”
Todos os olhos estavam voltados para mim, indo e voltando da macieira e da trípode, para o meu rosto. A curiosidade, eu percebi, era a nota dominante naqueles rostos, afinal ingênuos. Mas eu estava mesmo imbuída, e sempre acreditei na realidade da inspiração, e sentindo uma súbita brisa que inclinou a coluna de fumo na direção do campo aberto, fechei os olhos e disse:
—“Sim, minha Ara, eu vejo a direção, do oriente, do levante, do sol nascente. Gunther deve partir ao nascer do sol, na direção do próprio arrebol, às seis da manhã em ponto ele deve estar marchando, na pradaria, esta manhã, mesmo”.
Fiz um longo silêncio, tenso, afinal relaxei e abri os olhos. Então “desfaleci” nos braços deles. Gunther tomou-me nos braços e carregou-me de volta para casa. Eu me sentia uma intrujona, uma charlatã, embora o próprio Gunther sutilmente corroborasse a minha atuação. Eu tinha vontade de sorrir, ao mesmo tempo que sentia uma dor persistente no meu peito, uma angústia crescente, enquanto era carregada pela última vez, nos braços do meu “guerreiro do Walhalla”.

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A Vinha de Dioniso


Capítulo Segundo


A Ausência de Dioniso


Estávamos novamente sós, no casarão, isto é, faltava-nos a proteção de Rôdo, já que o Galdério, coitado, nunca fora muito operante. Eu me sentia só, com Aline e Laís, com todos. Eu estava insuficiente, depois da perda do meu guerreiro. Eu o vira afastar-se, de madrugada, depois de possuir-me quase com desespero, enchendo de seu sumo todos os meus orifícios, e sugando-me toda, meus fluidos e minha saliva, como quem carrega seus tanques para uma jornada de guerra. Eu quis retê-lo dentro de mim, e apertei o seu grande falo com meus músculos internos, ordenhando-o de maneira prodigiosa e exasperada. Ele teve que desvencilhar-se afinal, retirando-se de mim, de dentro de mim, com esforço, ou não poderia partir.
Agora eu estava novamente só, cercada de mulheres que não me supriam mais. Eu sentia como se me sugassem a sobra das minhas energias. A química não funcionava mais. Ou, os pólos não eram antípodas, a corrente não fluía. Eu precisava do pólo oposto. Gunther me viciara em seu branco visgo, em sua lança rubra de guerreiro, desculpem-me a imagem um tanto óbvia. Mas era assim.
Eu não conseguia olhar Matilde sem um laivo de ressentimento, como se ela fosse a feitora de uma espécie de escravidão, agora sim, eu sentia isso. Eu me sentia refém de algum dever para com os outros, para com as pessoas que me eram caras, e não gostava de me sentir assim, comprometida. A artista em mim ansiava por liberdade, disponibilidade, amplidão. Comecei a dar pequenas patadas nas minhas queridas, poupando somente as crianças, que para mim eram sagradas, Patrícia entre elas.
Aline chorava, Laís soluçava. Olhavam para mim como cachorrinhas carentes. Aline amamentava o Marco olhando-me nos olhos, perscrutando-me. Eu estava distante, e sem energia. Custei a dar-me conta de que estava sob uma pequena depressão crônica. Eu não conseguia escrever ou pintar, e confesso que preferia tentar masturbar-me, sozinha, lembrando do Gunther, a deixar-me manipular por minhas queridas, que agora eu rejeitava. Eu ficava horas olhando a pradaria, ou andando a esmo por entre as flores do jardim, sem colhê-las, sem tecer guirlandas, que eu pensava nunca mais coroar-me junto com elas, as gurias, que me pareciam escravas como eu, não mais princesas.

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Epílogo

Então, Rôdo voltou. Mais uma vez, meu irmão adorado voltou. E eu, vendo o seu carro ao longe, vermelho, como uma bola de fogo que tornaria a aquecer a minha alma hibernada, eu me levantei da cadeira de balanço e gritei, até desfalecer de uma alegria súbita, a que me desacostumara.
Acordei em seus braços, com o seu sorriso sobre mim, seus brancos dentes fortes, perfeitos, em seus lábios maravilhosos, de onde saiam as palavras mágicas, de cura, de ressurreição:
—Alminha, continuas a mesma, princesa. Sempre exagerada, não é? Desmaias ao ver-me? Tenho que avisar-te com grande antecedência, talvez? Ah! Minha irmãzinha, vem, vem aos meus braços!
Ele me abraçava e me apertava junto ao seu peito, profundamente, e... eu queria afundar-me nele, penetrar no seu peito e perder-me ali para sempre, dissolvida em sua alma e em seu coração. Éramos um só, de alguma maneira, eu sentia. E isso sempre fora um mistério em nossa casa. Neste casarão, neste jardim, e neste Pampa onde eu me via agora cavalgando para sempre, com meu cabelo louro ao vento, ladeada por um vinhedo infinito, que tinha, pairando sobre ele, a máscara sorridente de meu pai, o grande cirurgião-pianista, o alquimista da vinha, o maestro que continuaria orquestrando a harmonia de nossas vidas para sempre.
Rôdo, Aline, Laís, Patrícia, Pedrinho, Matilde, Galdério, Alícia, Lúcia, Hans e Christian, e o nosso pequeno Marco, eram a nossa orquestra de câmara, de um concerto que levaríamos até o fim, até a eternidade, no meio de um vinhedo perfeito, a vinha de Dioniso, a vinha amorosa de meu pai.

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FIM
Do romance O Sangue da Terra

01/08/2005

Um comentário:

Hugo Jorge disse...

Parabéns pelo blog.
Sugiro a leitura do seguinte texto

Porquê meditar
http://dr-hugo-jorge.blogspot.com/2007/11/porqu-meditar.html

Hugo Jorge
http://dr-hugo-jorge.blogspot.com