sábado, 29 de novembro de 2025
DEPOIS DA PAZ Romance em andamento de Alma Welt
DEPOIS DA PAZ
Romance de Alma Welt
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Quinto volume da Saga A HERANÇA
Aos meus amados, que são tantos...
A cada pessoa cabe uma vida única, pessoal e intransferível. Apenas aos artistas, atores, escritores e poetas cabe viver múltiplas vidas através de seus vívidos personagens. Ah! A alguns psicóticos também...
(Alma Welt)
Eu e os Piratas ( de Alma Welt)
Meu irmãozinho construiu embarcação
Toda de caixotes, pouco destra,
Com um cabo de vassoura e armação
Que pretendia ser a vela mestra.
E a arrastamos juntos ao laguinho
Da cascata, pra com ela navegarmos
Como piratas, eu com bigodinho,
Ele com a venda e os sarcasmos.
Mas eis que me vi numa enrascada,
Pois borrando meu bigode com o dedo
Ele disse: “ Descobri o teu segredo!”
“Já que és mulher és cobiçada
E vais ficar pelada e com medo,
Pois serás de toda a marujada!”
20/12/2006
ÍNDICE
Prefácio.................................................................
Primeiro Capítulo
A Dívida...................................................................
Segundo Capítulo
PREFÁCIO
Neste quinto tomo de A HERANÇA, que ela intitulou Depois da Paz, a autora como sempre nos alicía ou ‘fisga” logo de saída, num Primeiro Capítulo instigante, cheio de perigos e quase comovente pelo patético de uma situação nada honrosa, envolvendo o reaparecido e um tanto patético, Bruno, o escritor e mau jogador de pôquer, o meio-irmão da Alma. Mas notável é que a autora, em nome do realismo que sempre caracteriza as suas memórias, preferiu sacrificar o thriller que já se anunciava, com um corajoso anticlímax em nome da boa literatura, pois estávamos somente num inicio de romance, pavimentando algo mais profundo. Sim, Alma é uma escritora basicamente psicológica, de natureza junguiana, e nunca falsearia seu memorialismo para cativar leitores apressados e superficiais. Antes de tudo é uma viagem anímica, o que ela vem narrando. Percebemos, também, que Alma Welt é basicamente uma poetisa em sua visão de mundo, quando escreve sua fluente prosa de narradora realista, de memórias. Com esta escritora gaúcha temos sempre a impressão de que tudo o que ela conta, aconteceu mesmo, são memórias fidedignas, e não ficção.
DEPOIS DA PAZ
Primeiro Capítulo
A DÍVIDA
Um novo e auspicioso período de paz se anunciava em nossa vida aqui na nossa Estância Santa Gertrudes após a turbulência do meu processo no caso Natália Fontes, que descrevi no volume anterior, e a surpreendente herança de uma Vila e um vinhedo na Toscana, com que a minha Aline e Rodo foram contemplados pelo destino, afastando-os (e ao pequeno Marco, meu filhinho com eles), do meu convívio diário. Zoé, minha filha pequena, especialmente sofria a falta do seu irmãozinho maior, que só vinha com os pais, meus amados Aline Rodo, para as festas do fim do ano aqui na estância. Então eu desfrutava de uma paz melancólica, propícia apenas para a composição de meus sonetos, pois através deles eu evocava as passagens da minha infância com Rodo, que oscilavam entre a nostalgia e a comicidade, pois Rodo sempre fora um pândego irreverente, característica que prenunciava sua propensão para o jogo de pôquer que haveria de afastá-lo de nós todos, em longas temporadas pelos cassinos do Mundo. Eu haveria de escrever um blog inteiro de sonetos de pôquer, que intitularia SONETOS DO RODO, que expressam meus estados de espírito em relação à falta de meu irmão, meu amor por ele as longas esperas que fizeram de mim uma “Penélope do Pano Verde”, como me descrevia naquela época.
Exemplificarei sobejamente, como é do meu feitio, aquela fase, reproduzindo aqui alguns daqueles sugestivos, e talvez belos sonetos
A Queixosa
Ando muito só e triste, Deus me cuide...
Foram-se todos os que me eram caros,
E daqueles bons amigos, muito raros,
Vi pequenas traições, mas amiúde.
Ora, Alma- digo então para mim mesma-
Estás aí a te queixares, que vergonha!
Agora és para ti tua abantesma,
Em vez de só molhares a tua fronha.
Mas Rodo, meu irmão que é meu esteio,
Meu coração perdido de si mesmo,
Caiu no mundo a jogar dados a esmo...
Mas Alma! - a resposta a mim me veio...
Não há dados novos, te dás conta?
Tua vida é tão rica... e nasceu pronta.
Notícias de Rodo
"Alma"- apresentou-se o visitante:
"De Baden Baden venho muito aflito
Pois teu irmão, que era o meu mito,
Perdeu tudo e queria ir adiante..."
"Não logrei, pois, arrastá-lo do Cassino.
Naquela mesa estava já há dias,
Perdera todas suas economias,
Simplesmente murmurando ser destino."
"Por quê o abandonaste?" Eu perguntei.
"Se és seu amigo, por que vem à sua irmã
Deixá-la aflita, logo assim pela manhã?"
"Não, não conheces Rodo. O meu irmão
Perde apenas o que eu mesma lhe dei
Como cacife para começar a mão..."
A Abelha e a Vespa
De repente estava fora do meu meio,
Perdera o meu encaixe original
E achando agora quase tudo feio,
Até mesmo este meu torrão natal...
Meu irmão então me disse: "Vem comigo
Vou te mostrar o mundo verdadeiro,
Que está muito mais para um vespeiro
Que a colméia que crês que é teu abrigo."
Carregou-me com ele mundo afora,
Mas no circuito de criaturas vis
Onde a dúbia emoção do jogo mora.
E eu disse: "Estou de novo sem encaixe
E cobiçada demais para ser feliz:
Antes abelha que à vespa me rebaixe..."
O coração da vida (de Alma Welt)
Não te vás, ó Rodo, eu te suplico!
Devolvo a chave, sei, fui atrevida.
Falo demais, talvez, complico,
Mas estamos no coração da Vida,
O mundo está aqui como lá fora.
Ou o vejo daqui, por isso fico.
Por quê tens, irmão, que ir embora
Só porque só sei jogar o mico?
Coração sempre tiveste destemido,
Sou tola e pegajosa, que sei eu?
Anseias o teu pôquer de bandido...
Não tens mais paciência com a guria.
Onde, pois, a aventureira se meteu?
Que escreve, chora e se angustia...
Relendo esses meus “sonetos do Rodo”, eu, por momentos me envergonhava de minha dependência e obsessão por meu irmão, causadas pelo meu trauma do flagrante sob a macieira em minha infância, episódio que já mencionei por diversas vezes e a que minha doutora Jensen atribui uma evidente conotação arquetípica.
Agora, nestes tempos de paz, eu me via revisitando aqueles tempos com uma mistura de pudor e nostalgia, e não estando preparada para nenhuma interferência externa em minhas divagações, recebi uma carta de Bruno, meu meio irmão a que me referi em episódio de A ARA DOS PAMPAS, um volume anterior de minhas memórias. Reproduzo aqui a carta de Bruno:
Alma, querida irmã
Retornando de uma longa temporada de carteados em cassinos da Europa, na companhia de meu novo mentor no âmbito do pôquer, nosso irmão Rodo, fiquei sabendo de sua visita à Letícia, minha mulher e mãe de meu filho, a quem jamais abandonei, como ela chegou a pensar. Assim que comecei a ganhar dinheiro com o jogo (graças às lições do incrível Rodo), enviei uma grande soma a eles. Entretanto, Letícia se sentia abandonada, acumulou ressentimentos... e me deixou. Partiu com meu filho, com uma mulher mais velha (!!!) que a seduziu. Voltei para uma casa vazia e estou muito abalado. Venho, pois, pedir-te que me recebas para uma temporada de recuperação na tua estância, que visitei brevemente há muitos anos quando nosso pai estava vivo, e o fiz a pretexto de colher o seu autógrafo em seu livro, na verdade para conhecê-lo, a ele, que nem sabia de minha existência. Naquele curto episódio, conheci a ti, minha irmã, que era uma adolescente linda, a quem só pude tocar o queixo e partir, mas sem nunca mais poder esquecer-te. Agora, me sentindo extremamente só, eu te pergunto: me receberás por um período, para que ao menos eu recupere a auto-estima, e possa conhecer a ti e à tua filhinha Zoé ? Que o lindo Marco eu já conheci na Toscana, com o Rodo e Aline...
Aguardando ansiosamente a tua resposta
Teu irmão
Bruno Alvarez Welt
Lendo esta carta de meu meio-irmão, me pus imediatamente eufórica, fazendo planos, como a adolescente que eu era quando o conheci. Respondi a ele, igualmente por carta de papel, em plena era do e.mail, e para enviá-la, incurável romântica, fiz questão de ir com o Galdério na charrete até o correio na Es- taçãozinha da nossa Maria Fumaça em vias de extinção:
Bruno, meu querido irmão!
Tu não imaginas a alegria de receber uma carta tua carta e da perspectiva de receber-te nesta casa que também é tua. Percebo que não estás bem, e eu prometo que eu e Dario, meu marido, te receberemos de braços abertos e cuidaremos bem de ti. Zoé certamente vai adorar conhecer mais um novo tio.
“Venha, querida grande alma, nós te amamos, nós te receberemos.”
Tua irmã
Alma
Notem que, eu, incorrigível livresca, terminei minha carta parafraseando a mensagem de resposta de Verlaine a Rimbaud, quando este anunciou por carta aos seus amigos poetas, a sua intenção de fugir de casa e encontrar-se com eles em Paris.
Passada uma semana, recebi uma mensagem de Bruno por celular, esperando por mim na estaçãozinha, e fomos, Galdério, Dario e eu, buscá-lo de automóvel, e o encontramos sentado num banco da plataforma com sua mala ao lado. Reconheci o belo rapaz fortuito e fugidio de muitos anos atrás em visita ao nosso pai, quando então me revelou o seu segredo, mas, impressionou-me agora o seu estado, visivelmente abatido, e grisalhando o cabelo e barba curta. Dario, já devidamente esclarecido por mim sobre este inesperado cunhado, estendeu cordialmente a mão para cumprimentá-lo num cordial e mesmo fraterno movimento de recepção.
Quanto a mim, comovida, abracei-o apertado pela primeira vez nas nossas vidas.
Desde guria sou fascinada pela arte dos mágicos prestidigitadores. Desde o dia em que presenciei o show de um deles numa festa de fim de ano da escola primária em Novo Hamburgo, em que me emocionei com a pomba tirada de uma cartola. Daí por diante, emocionalmente pelo menos, eu veria todos chapéus como esconderijos potenciais de pombas, patos e coelhos, e portanto, o verdadeiro refúgio da ternura dos seus portadores. As imagens do mundo, que forjamos na infância, nos acompanharão pra sempre intactas, no terreno afetivo. Mas eu sei que isso é verdade somente para aqueles que se mantêm fiéis à sua infância e seus ocultos pactos com o mundo, com a vida.
Havia na nossa estância um velho peão, o mais antigo, que era o preferido de meu pai, que o considerava um venerável exemplo de sabedoria popular. Meu pai, que além de extremamente culto, erudito, tinha também, ele próprio enorme sabedoria, a ponto de reconhecê-la num simples peão semi-analfabeto, por seu apreço pelo velho boiadeiro me fez também perceber e aproximar-me daquele homem de barbas e cabelos brancos bem menos tratados. Um dia, no inverno, guria ainda, fui visitá-lo sozinha, e encontrei-o na varanda de seu chalé de madeira, onde aposentado, ficava horas, mirando o horizonte e fumando o seu cachimbo. Levei-lhe um poema meu, como único presente que me ocorreu oferecer-lhe como prova de meu afeto e respeito. O velho peão recebeu a folha de papel, e depois de retirar uma espécie de touca de lã que eu tinha na cabeça, colocada por minha mãe, passou a mão rapidamente no alto e em seguida abrindo a folha em suas mãos grossas e calosas, me fez ver uma borboleta pousada sobre meus versos, em que ele mal deitara os olhos. Então, ele pegou a borboleta, que me pareceu trêmula, e com uma delicadeza insuspeitada, pela ponta das asas a colocou no meu ombro, olhando-me profundamente, com seus olhos gastos azulados, com um sorriso que percebi sob os imensos bigodes brancos caídos. Aquilo me pareceu mágico, e ao mesmo tempo uma espécie de recado cifrado, vago, que eu não saberia decifrar naquele momento. Alguns dias depois aquele homem estaria morto, e eu recebi a notícia com extrema emoção. Fui vê-lo em seu caixão, cercado de peões e algumas mulheres, peonas velhas e jovens, além da nossa chorosa Matilde, na pequena sala de sua “querência”, como ele dizia. E ali, cercada de lágrimas e alguns sorrisos, depositei, com toda a minha inocência, sobre o seu peito, acima de suas mãos cruzadas, um novo poeminha meu, para que ele o transformasse numa borboleta que o acompanharia em sua nova jornada no pampa longínquo do horizonte que o aguardava.
Aqui na estância, depois de alguns dias, Bruno pareceu adquirir vida novamente, desabrochar mesmo, como o homem belo que era e um escritor de mão cheia. Passávamos horas conversando sobre literatura, principalmente as nossas, e apesar da minha curiosidade sobre o seu convívio com Rodo, ele, misteriosamente, parecia querer esquecer aquela fase de sua vida, e eu logo iria descobrir por quê.
Foi numa noite, quando avistamos da varanda os faróis ainda longínquos de um carro que vinha pela estrada, e como isso era raro, pusemo-nos em alerta.
Por instinto, eu diria, Dario foi buscar uma espingarda de caça no nosso arsenal.
Quando o carro, um sedan preto a chegou à nossa porteira, dois homens de terno e gravata desceram para abri-la e voltando a entrar no veículo vieram na nossa direção parando a uns vinte metros, quando então quatro homens armados desceram com suas armas em punho e cercaram a nossa varanda, sem nada dizer. Dario, não sabia para que lado apontar a sua arma.
Então um, que parecia ser o chefe, disse alto e calmamente:
- A senhora é Alma, sabemos, irmã do Rodo, pois não? Entregue-nos o Bruno, que iremos embora e nada sofrerão.
Criou-se imediatamente um impasse. É claro que não entregaríamos meu irmão, fosse por que fosse, ainda mais que percebemos que não se tratava da polícia e nem sequer eram gaúchos, pois não usavam o “tu”, não apresentaram insígnias e pior: não tinham o nosso sotaque, o que era mais preocupante. O quê aqueles forasteiros queriam com o Bruno? Uma suspeita logo assomou meu espírito: dívida de jogo! Não, eu jamais entregaria meu irmão àquele bando engravatado, por mais que ele devesse. Gritei:
-Senhores, vão embora! Imagino que vieram cobrar uma dívida de jogo, pois não? Meus peões foram avisados e estão armados (eu blefei), se forçarem, vocês não sairão vivos. Retirem-se em paz e nada sofrerão. Eu me entenderei com Bruno e veremos o que pode ser feito.
Nesse momento, como reforço de argumento, o Galdério apareceu vindo dos fundos da casa com um um fuzil na mão. Os homens se entreolharam, baixaram as armas e o chefe disse:
-Está bem, dona Alma. Regressaremos a Rosário e daremos a vocês um prazo de 24 horas para nos pagarem ou nos entregarem o Bruno. Depois disso será guerra. A propósito: o montante da dívida é de 100.000 Euros. Queremos isso na mão ou teremos a cabeça do pilantra numa bandeja.
Entraram no carro e deram marcha ré até depois da porteira, fizeram a manobra e partiram em disparada, dando tiros para o alto pelas janelas.
Respiramos aliviados, mas não muito. Por nossa vez, nós, na varanda, nos entreolhávamos, desolados.
Bruno, de cabeça baixa, assomou na porta.
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Quando guria, aqui na estância, uma vez, conversando com a avó Frida no seu belo jardim, ela me disse:
-Alma, um dia, quando fores moça, como todo mundo sairás de casa. Então lembra-te: toma cuidado para não te perderes. Quem se perde, se perde sempre num limbo, senão no próprio Inferno.
E eu, guria curiosa, que questionava tudo, perguntei à minha avó:
-E se eu cair no Inferno, vó, como farei para sair?
Ela respondeu: "Caminha para frente, corajosamente almejando a saída, Alma, não pegue um atalho para voltar. Do Inferno não se sai pela porta de entrada. Ali estão os covardes, eternamente no corredor de entrada, cheio de moscas".*
Lembro-me que depois dessa conversa com minha avó, tive pesadelos por mais de uma noite. A Mutti, percebendo, culpou minha avó, dizendo a mim (ela não teria coragem de confrontar a velha alemã, que ela chamava de "bruxa"):
-Alma, essas conversas que tens com tua avó te deixam nesse estado. Vê, freqüentemente não dormes direito, tens pesadelos. O que te diz a velha bruxa?
Eu respondi: - Não, não, Mutti, não é culpa dela. A avó Frida só me dá bons conselhos para o futuro, para quando eu for moça e sair de casa. É que eu tenho medo de ter que sair de casa, um dia. O mundo fora daqui, da nossa estância, da campanha... me parece muito grande e assustador.
Minha mãe apenas abanou a cabeça, e suspirou. Mas ela continuou vigiando, preocupada, os meus pequenos desvios de uma normalidade que ela queria "obrigatória", como zelosa e inútil guardiã da porta do Inferno, que ela era. Esse cargo eu teria um dia de lhe reconhecer e, mesmo que tardiamente, também lhe ser grata, como à minha avó, a bruxa benfazeja, por alguns cruéis e eficazes conselhos que me salvariam a vida...
Assim que o carro dos forasteiros sumiu na curva da estrada, reentramos todos e nos reunimos na sala. Não era minha intenção presidir uma inquisição, coisa que nunca foi o meu feitio, mas Bruno logo começou a tentar justificar-se e eu apenas ouvia com paciência, na verdade tentando encontrar uma saída, para todos nós, daquela situação perigosíssima. Sim, porque já estávamos envolvidos, ao abrigar o devedor fugitivo. Um caloteiro, meu meio-irmão? Provavelmente sim, mas isso já não vinha mais ao caso. Sua vida, e a nossa por tabela, estavam em perigo. Se tratava somente de arranjarmos o dinheiro para pagar aquela imensa dívida, lembrando sempre que dívida de jogo é sagrada. Rodo me ensinara isso há muito tempo. Entretanto eu não poderia contar com o Rodo para arcar com a dívida do irmão que ele carregara para o jogo sem ter a mesma esperteza que ele. Ele se sentiria responsável? E teria ele aquela dinheirama toda disponível? Eu estava lutando para não ficar desesperada, essa é que era a verdade...
Dario se mantinha estranhamente calado, esperando alguma coisa, eu depreendi. Ocorreu-me que ele esperava que eu apelasse a ele para salvar o meu irmão. Ao pensar nisso, realmente o fiz. Eu lhe disse:
-Dario, querido, sei que tu és muito rico. Se salvares Bruno quitando sua dívida com aqueles homens perigosos, eu passarei a ti a minha parte na Santa Gertrudes, nesta casa e no vinhedo.
Antes que Dario pudesse responder, Bruno que também estava quieto, mas cabisbaixo, envergonhado, adiantou-se e disse:
-Alma, não posso aceitar o sacrifício do que mais amas na vida, além de teu marido e tua família. Sei o que a estância e este casarão significam para ti. Eu sei o que vou fazer. Como não tenho com que pagar a minha dívida, vou continuar a fugir. Estou decidido, não tente me deter, parto hoje mesmo, somente peço que dês ordem ao Galdério para me levar de carro à estação. Nada mais te peço! Está decidido. Avise a polícia depois que o trem partir. Quando meu credor com seus capangas voltarem amanhã, diga-lhes que fugi.
Eu, me sentindo impotente, desolada, recuei até encontrar uma parede e literalmente escorreguei por ela e me sentei no chão, abraçando meus joelhos. Creio que foi para não desmaiar...
Quando eu tinha quinze anos e era portanto uma ninfeta, o Vati dando uma churrascada em nossa estância no dia de Santo Antonio, eu vestida de prenda, um guri de uns nove anos, filho de um estancieiro vizinho, vestido como um peãozinho e com um bigode de carvão sentou ao meu lado e disse, desenvolto: "Alma, eu te amo e vamos casar quando eu for grande. Mas tu tens que me esperar. Tu me esperas?"
Eu o olhei com vontade de rir, mas só disse: "Guri, até lá eu estarei muito velha, e tu não vai mais me querer". "
Ele retrucou: "Vou, sim, eu gosto de gurias mais velhas..."
Eu olhei um pouco mais com os olhos no seu bigodinho e disse:
"Olhe, Martim, para esse acordo valer tu vai ter que assinar um contrato com testemunhas e tudo... Dá muito trabalho". E ele:
"Não Alma, meu pai disse que entre gente honesta é no fio do bigode" (e ele passou a mão no lado direito do bigodinho, borrando-o).
Eu dei um grande suspiro e disse:
"Quando eu tiver trinta anos e te apresentares com a metade do bigode, a do lado esquerda, eu me casarei contigo. Não te esquece... do lado esquerdo, o do coração!"
E sai correndo e dando uma gargalhadinha. Na corrida dei uma ligeira olhada para trás e... vi que ele estava iluminado!
E... estranho... senti que me casaria mesmo com ele, se ele mantivesse aquele brilho...
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Naquela mesma noite, Galdério e eu, com Bruno no banco traseiro para eventualmente poder se esconder deitando, estávamos na estrada a caminho da estaçãozinha. Após a compra da passagem, tensos, olhando para os lados, esperamos na plataforma o trem Maria Fumaça que afinal chegou envolto em vapor e fumaça, como uma densa neblina propiciatória que protegeria meu irmão em sua fuga. Assim devaneei em lágrimas, enquanto o abraçava fortemente não querendo soltá-lo, meu desastrado e infeliz irmão mais velho.
O trenzinho partiu resfolegando enquanto Bruno acenava pateticamente de uma janela. Voltei em lágrimas silenciosas no percurso de todo de volta, me sentindo, por minha vez, fracassada, pois não pudera realmente salvar o meu irmãozinho de meia-idade, escritor cujo talento eu iria conferir e admirar um dia, quando ele, como me prometeu, publicasse suas “memórias de desventuras”.
Devo, a meu favor, revelar que dei ao meu irmão grande parte das minhas economias para ajudá-lo em sua fuga e talvez reerguê-lo um pouco para recomeçar a vida, certamente com outro nome e sobrenome.
De volta ao casarão, abracei Dario, e não queria soltá-lo, meu marido ideal, que não era um jogador, e cuja sobriedade e firmeza eram agora o esteio desta família. Logo estaríamos distribuindo armas, de madrugada, entre os peões, para o que desse e viesse ao amanhecer, quando aquela engravatada gang do pôquer viesse nos cobrar a dívida de Bruno.
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Naquela manhã bem cedo, despertamos com “a mão nos coldres”, por assim dizer, e colocamos nossos peões bem armados e distribuídos estrategicamente em torno do casarão, e alguns dentro, além de nós, quero dizer: Dario, Galdério, Matilde e eu. Minha amada Zoé eu deixei com a Quitéria, sua tia, na estância vizinha, que também se armou, por precaução, embora nada tivesse a ver com a nossa situação. Na verdade, eu estava desesperada com a perspectiva infeliz de minha filhinha, órfã de mãe ser criada pela Quitéria, caso ocorresse uma desgraça.
Meu Deus, por quê Rodo não estava aqui ? Ele, que seria o meu Heitor nesta guerra que se aproximava, já que eu pusera para dentro um cavalo de Tróia...
Então liguei para o delegado de Rosário do Sul e o pus a par da situação e o conclamei para evitar uma tragédia. O delegado respondeu que viria com três viaturas e muitos policiais
Então, por volta das 8:00 horas, avistamos na estrada o carro dos credores, que adentrando a nossa porteira, saltaram com as armas na mão. Eu, de vestido branco até os pés, como sempre, mas com um absurdo coldre e revolver na cintura, de pé na soleira, entre Dario e Galdério e mais dois peões de cada lado, mirando-os com os olhos, fixamente, tentava me manter serena.
O chefe deles gritou:
¬-Senhora Alma, terminou o prazo, entregue-nos o Bruno ou paguem sua dívida e partiremos, não haverá confronto.
Eu respondi, firmemente:
-Senhor credor, Bruno não está mais aqui, resolveu continuar sua fuga para não comprometer a família. Partiu ainda ontem mesmo. Só resta aos senhores se retirarem, pois só têm a perder, já que avisamos o delegado de Rosário e a polícia está vindo.
O chefe do bando pareceu hesitar, entreolharam-se se aproximaram uns dos outros e confabularam baixo e brevemente. Então voltando novamente a olhar para mim, colocou a arma no seu coldre do peito do paletó, no estilo gangster, e os outros o imitaram. Colocou dois dedos na testa na falta de um chapéu e voltando-nos as costas, entraram no carro e... PARTIRAM!
Esperei eles sumirem na curva para então desmaiar nos braços de Dario, meu marido ideal...
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Quando voltei a mim, alguns minutos depois, nos braços de Dario e com Matilde me abanando, me ocorreu que aqueles gangsters, imediatamente deduziram que Bruno escapara de trem pela nossa estaçãozinha, e que poderiam tentar interceptar o trem, à moda do Velho Oeste hollywoodiano. Bem... jamais saberemos, pois passar-se-ia um ano antes de termos notícias do meu pobre irmão desastrado. Voltarei a falar dele, por quem meu coração carregava um pouco de culpa por não te podido fazer nada por ele, cujo preço pela cabeça estava demasiado alto para mim, e eu não tinha o direito de pedir tal soma ao meu marido e nem ao Rodo, que já me tirara da enrascada de uma multa judicial altíssima como narrei no tomo anterior destas minhas “memórias de uma moça mal comportada”. *
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Nada mais ocorreu de importante, até chegar o fim do ano, quando então Rodo, Aline e Marco vieram para Natal e as Férias, juntarem-se ao clã todo, com meus amados sobrinhos adolescentes trazidos de Alegrete, por Lucia, para dois meses de férias deslumbrantes. Nessas temporadas eu entrava numa fase de êxtase e felicidades inenarráveis, e Rodo me dizia que eu adquiria uma espécie de luz, que logrei perceber um dia, ao espelho. Mas isso é sabido, a felicidade cria mesmo uma aura de luz, por ser uma emanação do Bem Supremo.
Zoé florescia a olhos vistos e sua beleza encantava como a minha quando era criança.
Ah! Até a minha doce Natália, já formada em Literatura, e moça feita, veio juntar-se a nós para as férias, e já não nos causaria “encrenca”, embora seus pais, assim como a mãe de Aline, ainda não me tragassem, essa é que era a verdade. Não se pode agradar a todos nesta vida...
Entretanto, sabemos que o equilíbrio é frágil e a Paz não é deste mundo. Antes do Natal recebi uma carta de Dona Maria de Marco, a mãe de Aline, que reivindicava o direito de visitar o seu neto aqui na estância, já que Aline, “herdeira ingrata”, não o levava mais até ela em São Paulo. Eu sabia por experiência, como aquela senhora era de temperamento difícil e preconceituoso, mas reconhecia o seu direito de contato com o neto, nosso querido Marco. Respondi positivamente a carta, transformando gentilmente sua “requisição” em convite de minha parte. Que ela viesse se juntar a nós para o Natal e as festas de Fim de Ano!
Assim, em meados de Dezembro fomos, Aline, Rodo eu e Galdério, de carro, buscá-la na estaçãozinha, no que, para mim, desde a infância, era um adorado “programa de festejos”.
Meu trenzinho (de Alma Welt)
Ainda espero o trem da minha infância
O mesmo, de fumaça, em meio à bruma;
Trenzinho dos meus sonhos sem ganância,
Que pra essa estação ainda não ruma...
A viagem cujo rumo mal importa,
É toda encantamento como outrora,
Envolta no mistério de uma porta
Que não logrei transpor até agora.
Pois o que interessava era o comboio
Levando e trazendo o não e o sim,
Separando em mim o trigo e o joio...
Era eu que eu esperava ou despedia,
Tudo se passava dentro em mim,
Plataforma em que eu chorava e ria...
Logo estaríamos ali na plataforma, quando o trenzinho chegou resfolegando em meio à bruma do vapor que me encantava, esperando aquela senhora italiana que eu nunca vira pessoalmente, falara pouco comigo apenas por telefone e de maneira desagradável, pois me discriminara, embora compreensivelmente, como parceira de sua filha e mãe de seu neto.
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